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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 Documentário | 11:37

Pessoas e atos – Veja trailer inédito do documentário “O Triângulo Rosa”, sobre os métodos nazistas para cura da homossexualidade

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Está claro – ao menos para nós, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – que não é necessário ter tido relações homossexuais (refiro-me a relações sexuais) para se ser alvo da homofobia, seja esta expressa através do insulto, xingamento, fofoca, insinuação ou arremedo, seja por meio do que chamamos violência dura (espancamentos, estupros “corretivos” e assassinatos). Basta querer ter ou saber que quer ter relações homossexuais para se ser alvo da homofobia. Da mesma forma, basta que o gesto; o modo de andar e/ou de falar ou aquela “delicadeza” que se expressa no gosto por moda, telenovelas, literatura ou divas do cinema e da música (ou aquela “dureza”,  no caso das lésbicas, que se expressa no gosto por futebol e por lutas corporais) manifeste o desejo de ter relações sexuais com pessoas do mesmo gênero para que se seja alvo, no mínimo, da injúria homofóbica.

Sendo assim, podemos afirmar sem medo que há pessoas homossexuais (LGBTs) independente destas praticarem ou não atos homossexuais. Embora esteja igualmente claro para nós, pessoas LGBTs, que o ato homossexual é, mesmo quando restrito a fantasias e vontades não confessadas, um elemento importante de nossa identidade sexual como o são os atos heterossexuais.

E por que me refiro a essa distinção nesse momento em que inauguro este espaço juntamente com iGay? Ora, porque o provável novo presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, pastor Marco Feliciano (PSC-SP), em uma de suas muitas entrevistas e “justificando” sua oposição à cidadania plena de LGBTs, fez uma dissociação entre “pessoas homossexuais” e “atos homossexuais” – dissociação igualmente feita em documentos promulgados pelo Papa e pelo contingente de fundamentalistas religiosos que ocupa as redes sociais com insultos à dignidade de lésbicas, gays e travestis, mas que se recusa a se assumir homofóbico. Essa dissociação consiste em separar os homossexuais – aos quais se deve “amar” e “acolher” no seio das igrejas por “compaixão”  – da homossexualidade (ou do “homossexualismo”, como eles gostam de dizer): “amamos o pecador, mas odiamos e rechaçamos o pecado”: quem já não ouviu essa cantilena diabólica? Para o antropólogo francês Didier Eribon, os porta-vozes desse discurso e suas instituição são “espantosas máquinas de fabricar consciências infelizes e neuroses”. Mas quem achava que essas “máquinas” mortíferas parariam por aí está enganado.

Tramita, na Câmara, proposição legislativa do deputado pastor João Campos (PSDB-GO) relatada pelo deputado evangélico Roberto de Lucena (PV-SP) que quer legalizar psicoterapias de reversão da homossexualidade. Essa proposição tem, claro, o apoio irrestrito do deputado pastor Marco Feliciano. Ou seja, as “máquinas” mortíferas já não querem mais admitir as pessoas homossexuais: agora querem erradicá-las do mapa como uma doença.

Essa defesa de uma “cura” para a homossexualidade não é nova. Ela desperta o fantasma de experimentos tenebrosos com “cobaias” humanas homossexuais pela empresa nazista durante a Segunda Guerra Mundial. O documentário O triângulo rosa e a cura para a homossexualidade – ainda inédito (mas cujo trailer eu divulgo com exclusividade logo abaixo) – conta a história de um médico dinamarquês que trabalhou para as SS  no campo de concentração de BUCHENWALD, aplicando experiências sobre prisioneiros identificados com o triângulo rosa (os homossexuais ou percebidos como tais) que, segundo ele, “curavam” a homossexualidade.

Antes de usar cobaias humanas “ofertadas” por Hitler em nome da cura do “mal” que “punha em risco a procriação da raça pura”, o médico fez experiências com galos e galinhas. Vocês podem imaginar as feridas que esses experimentos deixaram nos corpos e das almas daqueles homossexuais! Ao fim da Segunda Guerra, o médico dinamarquês escapou dos julgamentos de Nuremberg, se refugiou em Buenos Aires e abriu a sua própria clinica no bairro de Palermo. O documentário, dirigido pelo argentino Nacho Steinberg, vai estrear no Brasil ainda este ano e traz, entre outras provas, o depoimento de um sobrevivente dessas experiências macabras.

Precisamos, portanto, evocar nossos espectros contra esses fantasmas que hoje nos assombram no Congresso Nacional, nas tevês abertas e nas redes sociais. Temos o direito de existirmos como pessoas LGBTs com ou sem os atos sexuais que nos ajudam a definir e a viver!

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