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segunda-feira, 2 de junho de 2014 Crítica | 13:29

Uns inverno, outros verão

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“Praia”: esta é a palavra-chave para entender o novo filme de Karim Aïnouz. E não só pelos fatos óbvios de que parte de suas locações é uma praia e de que sua história se inicia com um afogamento na Praia do Futuro, lugar que existe não só na ficção em questão, mas de fato no litoral cearense.

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A palavra “praia” é a chave para abrir o filme de Aïnouz menos pelo seu sentido literal e mais, muito mais, pelo significado que adquire quando empregada em expressões do tipo “Mulher não é a minha praia; eu gosto é de homem” ou “Não curto o verão. Minha praia é o inverno”. Nesse sentido, “praia” quer dizer identidade ou identificação. Donato – personagem interpretado com coragem, entrega e inteligência por Wagner Moura – habita uma praia que não é literal nem metaforicamente a sua. E é o acidente envolvendo Konrad – o turista alemão salvo por ele do afogamento na Praia do Futuro – que lhe mostra isso.

Clemens Schick, Jesuíta Barbosa e Wagner Moura: o trio de atores que brilha em "Praia do Futuro" (Foto: Divulgação)

Clemens Schick, Jesuíta Barbosa e Wagner Moura: o trio de atores que brilha em “Praia do Futuro” (Foto: Divulgação)

Ele aponta a “praia” que Donato habitará no futuro: aquela que lhe caberá sem sobras ou faltas; que lhe trará conforto, segurança e felicidade. A cena em que Donato, pouco depois de ter conhecido Konrad e transado com ele, atrasa em relação ao mergulho da tropa não está ali por acaso (aliás, nenhuma seqüência do filme é excedente). Nessa cena, ele é o peixe que atrasa em relação ao cardume para se interrogar se aquelas são mesmos as águas em que deseja estar e se aqueles são mesmo os peixes que quer em sua companhia…

Donato é um inverno no eterno verão do Ceará (“Quantos homens eram inverno e outros verão?”, pergunta-nos Zé Ramalho) e, por isso, só está feliz aí quando mergulha. A “praia” do futuro de Donato será a fria e nublada Berlim e será também a relação homossexual e afetiva com Konrad. Por essa “praia”, ele fará a dolorosa ruptura (com a família, a pátria e o preconceito) que todos que somos forçados a habitar lugares que não nos cabem fazemos mais cedo ou mais tarde se quisermos ser inteiros e felizes nessa vida. E como ressalta o poeta Antonio Cícero, “pátria, família, religião e preconceito, quebrou, não tem mais jeito”, mesmo que fantasmas dessas “praias” quebradas retornem para tentar colar os cacos do velho mundo (aliás, como o “fantasma” que retorna para cobrar de Donato o preço pela ruptura, o ator Jesuíta Barbosa dá um show de interpretação).

Arrisco-me a pensar que Aïnouz elaborou o argumento de seu filme a partir do sugestivo nome da praia cearense. Ou talvez ele tenha encontrado o lugar ideal para o argumento que tinha em mente: a dor e a delícia que qualquer homem experimenta ao transformar sua paisagem interior e exterior de modo que melhor se reconheça e esteja feliz.

Numa das cenas mais emocionantes do filme (eu chorei nesse momento!), Donato e Konrad, já em sua nova “praia”, dublam a popularíssima música francesa “Aline”, sucesso na voz da Cristophe e cujo verso (em tradução amadora) diz “Eu desenhei sobre a areia seu suave rosto que me sorria. Depois choveu sobre essa praia. Nessa tempestade, ele desapareceu”…

"Praia do futuro" aborda a experiência da passagem do eu imposto para o eu (re)construído a partir da história de um homem homossexual

“Praia do futuro” aborda a experiência da passagem do eu imposto para o eu (re)construído a partir da história de um homem homossexual

A psicanalista Suely Rolnik diz que identidades são “ancoragens” do ser. Alguém (a natureza e/ou a cultura) joga, sem nos consultar, nossa âncora num certo ponto das águas. Pode acontecer de esse lugar onde fomos ancorados nos confortar e agradar até o fim de nossos dias. Pode ser também que esse lugar nos oprima e/ou nos deixe infeliz e, incapazes ou impedidos de levantar a âncora e partir dali, permaneçamos ali, infelizes, até a morte. Mas pode acontecer de a gente levantar a âncora e navegar outras águas por ser insuportável (e fonte de medo, insegurança e infelicidade) estar num lugar que escolheram para a gente ou podemos levantar a âncora e partir por mera curiosidade em relação a outros lugares. Se a razão for só a curiosidade, é certo que retornaremos à conhecida praia onde estivemos ancorados. Porém, se o motivo da partida for a dor insuportável de ter sido ancorado numa praia com a qual não nos identificamos, a ida não tem volta…

Um homem homossexual constrangido a uma vida heterossexual que lhe deixa infeliz e pela metade quando se liberta desta para ser quem ele é de fato só retorna a ela (à vida heterossexual) na fantasia de fundamentalistas religiosos.

“Praia do futuro” aborda a experiência da passagem do eu imposto para o eu (re)construído a partir da história de um homem homossexual, mas nem por isso pode ser classificado como “filme gay”. Sua abordagem ilumina a experiência de outros deslocamentos identitários. Trata-se de um filme memorável e que todos e todas deveriam assistir para saberem mais sobre o outro e sobre si mesmos. Qual é mesmo a sua praia? Já parou para se perguntar?

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