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Arquivo da Categoria LGBTs

terça-feira, 12 de novembro de 2013 direitos humanos, homofobia, LGBTs | 17:53

Como se constrói um medo na sociedade

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As tentativas de associar a homossexualidade à pedofilia são tão antigas quanto o ódio e a violência homofóbica, embora qualquer pessoa um pouco mais informada sobre o assunto saiba que, estatisticamente, na grande maioria dos casos, o abuso sexual de crianças é cometido contra meninas e os abusadores são pessoas da família: pais, irmãos, tios, avôs. Há abusadores gays, claro, assim como há médicos, garis, cabeleireiros, advogados gays, mas o fato é que são os abusadores héteros os responsáveis pelo maior número dos casos registrados de pedofilia – que é um crime gravíssimo – comprovando assim que esse transtorno não tem nada a ver com a orientação sexual. E boa parte dos casos denunciados de abuso sexual de meninos do sexo masculino é cometido, vale dizer, por padres e pastores, geralmente os mesmos que divulgam discursos de ódio contra os homossexuais. E contra fatos, não há argumentos.

Mas a estigmatização dos gays como potenciais pedófilos continua sendo usada para manter o preconceito e, principalmente, o medo contra nós.

Em seu livro A palavra dos mortos, o jurista Raúl Zaffaroni explica que quando um determinado grupo social é construído como inimigo e colocado como bode expiatório, “sempre se atribuem a ele os piores delitos que, certamente, com demasiada frequência, são os delitos sexuais” e acrescenta, como exemplo, que “quando o papado e o rei da França decidiram se apoderar dos bens dos templários, imputaram-nos de serem gays e lhes atribuíram um inventado ritual de iniciação e sometimento sexual”. Nas legislações homofóbicas repressivas que vigoraram ou ainda vigoram em muitos países, os gays são muitas vezes tratados como sujeitos perigosos para as crianças, abusadores em potência, pederastas, e existem leis que chegam ao extremo de punir “o homossexual que seja visto em público com um menor”, e os mesmos fantasmas são usados, com muita desonestidade, por aqueles que se opõem a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, apelando ao medo e a calúnia.

Não é nada novo — e nem original. Os judeus também foram acusados de devorar crianças, e também os comunistas.

Por isso, não me surpreendeu quando os trolls contratados por lideranças fundamentalistas começaram a tentar vincular meu nome à pedofilia, com postagens criminosas nas redes sociais. Esses canalhas chegaram inclusive a inventar uma “entrevista do deputado Jean Wyllys à CBN” na qual eu teria defendido a pedofilia. É claro que a suposta entrevista não existiu e eu jamais defendi a pedofilia, que combato como segundo vice-presidente da CPI da Exploração Sexual deCrianças e Adolescentes na Câmara dos Deputados. A própria emissora fez uma nota desmentindo a calúnia, mas as postagens dos canalhas continuam se espalhando no Facebook.

Nos últimos dias, recebi um e-mail desesperado de um militante do PSOL que me relatava o que está acontecendo na Paraíba com o ativista gay Renan Palmeira, presidente do Movimento do Espírito Lilás (MEL). O MEL teve a sede e casa de presidente invadidas e Renan foi acusado injustamente no “Disque 100” de repasse de drogas e iniciação de adolescentes em práticas pedófilas. Renan sofreu ataques à sua própria casa, com pichações e depredação. A acusação (anônima) de pedofilia e tráfico é instrumentalizada para provocar a repulsa e indignação da comunidade e promover a violência contra um ativista de direitos humanos.

E não é casual que se trate de um ativista gay e do PSOL, o partido que levanta as bandeiras da comunidade LGBT e dos direitos humanos no Congresso e enfrenta o fundamentalismo e seus aliados políticos. Há uma campanha cada vez mais evidente contra o PSOL, promovida pelas corporações políticas, religiosas, econômicas e de outro tipo que nosso partido — pequeno, mas coerente com as bandeiras que defende e destacado nos parlamentos e prefeituras onde pode mostrar serviço à população— sem dúvidas ameaça. Numa matéria desopilante, que parece lembrar os discursos do regime militar, a Folha noticiou no mês de junho (mês das históricas jornadas que lotaram as ruas do Brasil) que o serviço secreto da Polícia Militar investigava o envolvimento de militantes PSOL na promoção de atos de violência, afirmando que se tratava de ações “semelhantes a atos de guerrilha” (!!). Um militante do PSOL de Porto Alegre, Lucas Maróstica, teve sua casa invadida e seu computador sequestrado e chegou a ser acusado de formação de quadrilha por realizar postagens no Facebook convocando às manifestações populares. Tempos que pareciam superados!

Voltando ao caso, de acordo com Renan, os atos de vandalismo já foram repassados para a Justiça Global, que encaminhou as denúncias para a OEA (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), solicitando proteção. No mês de agosto, na época da XII Parada LGBT, o apartamento de Renan foi arrombado duas vezes, levando objetos pessoais, documentos e o computador. O mais estranho da situação, segundo Palmeira, é que num prédio com 40 apartamentos, apenas o dele foi arrombado — duas vezes —, o obrigando a se mudar de lá. A sede do MEL, que fica na rua Duque de Caxias, foi arrombada também duas vezes, antes e depois da Parada, obrigando também a entidade a se mudar para um local mais seguro. O outdoor da XII Parada da Cidadania LGBT de João Pessoa foi pichado com frases religiosas e, em outra campanha institucional contra a homofobia, o outdoor foi destruído.

As acusações caluniosas por pedofilia envolveram Renan e outros ativistas. O Conselho Tutelar fez a investigação e não encontrou nenhum indício da denúncia, mas em conseqüência dela, o MEL deixou de dar expediente público. Também aconteceu um assassinato: a transexual Shanayne Rodrigues Macena, de 29 anos, que disputou como candidata a vereadora as eleições de 2012 em Nova Floresta e participa do setorial LGBT do PT, foi assassinada brutalmente em 22/07/2012. De acordo com o presidente do MEL, os fatos retratam uma agressão e intimidações contra militantes LGBT e de direitos humanos na Paraíba.

Diante desses gravíssimos fatos, venho a público cobrar a intervenção de todos os órgãos públicos para garantir a segurança de Renan e de todos/as os/as ativistas que estão sendo caluniados, agredidos e ameaçados na Paraíba. É hora de acabar com a violência homofóbica promovida pelo fundamentalismo religioso. E é hora de que o governo federal pare de se omitir e assuma sua responsabilidade política como garante da democracia, das liberdades individuais e da vida e segurança dos brasileiros e das brasileiras.

Leia também:

A palavra dos mortos – artigo de Jean Wyllys

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terça-feira, 15 de outubro de 2013 Crítica, LGBTs | 16:08

Há gays e lésbicas entre os professores. Apoiamos a greve!

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Foto: Clarissa Thomé/Estadão

Neste último domingo, 13, em Copacabana, aconteceu a 18ª Parada LGBT do Rio de Janeiro e eu marchei no chão, em conjunto com diversos grupos independentes que se organizam em diversas lutas a favor da cidadania. Declinei o convite da organização da Parada para desfilar em um dos trios, pois vi uma oportunidade de concretizar, ali naquele momento, essa proposta, que apresentei, em Junho, à organização da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Fiz isso porque acredito ser importante politizar a Parada, que não pode ficar alheia a outras lutas contra a opressão, a discriminação e a injustiça social.

Uma das questões que introduzimos para ampliar a pauta da Parada foi o apoio à luta dos e das profissionais de educação. Em especial no Rio de Janeiro, há duas décadas não há tamanha mobilização destes profissionais insatisfeitos com as políticas educacionais dos governos estadual e municipal que vêm ignorando as reivindicações por melhores salários, um plano de carreira que contemple a categoria, estrutura física, materiais didáticos de qualidade dentre outros pontos de uma extensa pauta.

Na Parada LGBT do Rio, marchei com um cartaz que dizia “Há gays e lésbicas entre os professores. Apoiamos a greve!”; e, por causa disso, nas minhas redes sociais, alguns usuários me questionaram se meu apoio à luta dos professores estaria condicionado ao fato de haver professores LGBTs. Ora, será que não ficou claro – a partir da foto publicada – que as frases do cartaz com que marchei (que foram escritas em tintas diferentes não por acaso) são independentes e buscam apenas relacionar uma manifestação (a Parada do Orgulho LGBT) com outra (a greve dos professores), num esforço de solidariedade entre os dois movimentos? Será que não está claro que precisamos de mais solidariedade entre as causas e as pessoas?

Os “questionadores” e seus comentários – alguns feitos por ignorância e outros por má-fé mesmo – infelizmente comprovam a urgência de se investir em uma educação de qualidade que forme nossos alunos com habilidades e competências necessárias, que vão da interpretação de texto à solidariedade, passando pela ampliação do repertório cultural.

Nossas escolas são resistentes em debater a educação sexual, tornando-se um espaço de sofrimentos tanto para alunos e alunas LGBT quanto para os docentes, que, por receio de terem suas carreiras prejudicadas, quase sempre se silenciam sobre a delícia e a dor de sermos o que somos. Assim, uma educação inclusiva e para a diversidade deve possibilitar que todos os indivíduos que integram o ambiente escolar convivam em harmonia e respeito – e isso vale não apenas para os alunos e alunas, mas também para os docentes e os demais profissionais de educação.

O governo federal e os governos estaduais e municipais precisam investir imediatamente para melhorar a qualidade da educação pública, começando pelo salário dos professores, que, em muitos casos é vergonhoso de fato. Mas, neste dia dos professores, gostaria de lembrá-los de que a tarefa de capacitar nossos alunos e alunas com habilidades e competências como o domínio da escrita com coesão e coerência; de formar cidadãos humanistas, reconhecedores da diversidade cultural, respeitosos da diferença e conscientes dos direitos que lhe cabem, é nossa, professores e professoras, sejam vocês LGBTs ou não!

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quinta-feira, 10 de outubro de 2013 LGBTs | 21:20

Vamos à parada LGBT com os pés no chão!

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Este domingo, mais uma vez, vamos nos juntar às milhares de pessoas que participarão da Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, um dos maiores eventos políticos de visibilidade, celebração e luta pela cidadania plena de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no mundo.

Agradeço o convite da organização da Parada para desfilar em um dos trios, mas vou declinar em razão da oportunidade de poder concretizar agora, na Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, o desejo de marchar no chão, juntamente com todos e todas. Uma proposta que eu apresentei, em Junho, à organização da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

E eu gostaria muito de marchar com você, com os pés no chão. Convido todas e todos a formarmos um grande cordão de pessoas que querem não somente festejar esse momento que é, sim, um importante ato de celebração e de visibilidade – mas também que querem mudar o país.

Junto aos companheiros e companheiras do meu mandato, e de diversos grupos independentes que se organizam em diversas lutas a favor da cidadania, vamos nos encontrar em frente ao Hotel Sofitel, próximo ao forte de Copacabana, para marcharmos juntos e participarmos da parada levando nossas reivindicações como comunidade e também apoiando outras lutas, porque independentemente de nossa orientação sexual e/ou identidade de gênero, somos parte de um mesmo povo.

Vamos marchar sem bandeiras partidárias (embora reivindiquemos o direito de todos nós a nos organizarmos politicamente), levando, entre outras, as seguintes reinvidicações:

– Defesa do Estado laico e das liberdades individuais! Não ao fundamentalismo e a intolerância religiosa!;

– Recuperação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, hoje tomada pelos fundamentalistas, para que cumpra seu verdadeiro papel; e não à extinção da Comissão de Direitos Humanos do Senado!;

– Aprovação da lei do casamento civil igualitário (PL-5120) e da PEC para garantir esse direito na Constituição;

– Aprovação da lei de identidade de gênero João Nery (PL-5002);

–  Por uma educação não homofóbica, com plena igualdade de gênero e respeito à diversidade sexual na escola. Não aobuyilling homofóbico!;

– Por políticas públicas de inclusão social e combate ao preconceito contra as pessoas LGBT;

– Aprovação da criminalização da discriminação por orientação sexual e identidade de gênero (PLC-122).

Mas a parada LGBT não pode ficar alheia a outras lutas contra a opressão, a discriminação e a injustiça social. Por isso, também defendemos:

– Apoio à greve dos profissionais da educação!;

– Pelo direito à livre manifestação: basta de repressão policial e criminalização dos protestos!

– Desmilitarização e democratização da polícia, como força de segurança e não de repressão contra o povo;

– Não às remoções da Copa;

– Pelo direito da mulher a decidir sobre o seu corpo: aborto legal, seguro e gratuito;

– Contra a repressão e pelo direito à terra dos povos indígenas;

– Contra a intolerância religiosa e a perseguição ao povo de santo;

– Aprovação da lei Gabriela Leite, pelos direitos dos/as trabalhadores/as sexuais (PL-4211);

– Não à internação compulsória!; pelo fim da política de guerra aos pobres: legalização das drogas, respeito aos direitos individuais dos usuários e tratamento do abuso na perspectiva da saúde;

Espero que estas ideias se espalhem por todas as paradas, daqui para frente,  e pelo Brasil inteiro! Confirme sua presença aqui e venha comigo com os pés no chão! A gente se vê domingo às 13h em frente ao Hotel Sofitel, próximo ao forte de Copacabana, no posto 06.

Traga o seu cartaz!

Jean Wyllys

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quinta-feira, 29 de agosto de 2013 LGBTs | 14:32

Prefácio que escrevi para o livro “Muito Prazer – Vozes da Diversidade”, de Karla Lima

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Hoje serão lançados os livros “Muito Prazer – Vozes da Diversidade”, de Karla Lima, e Armário sem Portas, uma continuação da biografia do casal Karla e Pya Pêra. A pedido delas, escrevi o prefácio, que reproduzo abaixo.

Sempre me dei melhor com mulheres, sejam elas hétero ou homossexuais. Amo minhas amigas lésbicas, gays, sapatas, bolachas, entendidas… Respeito muito aquelas que assumiram seus desejos e, orgulhosas de amar outra mulher, conseguiram cavar espaço nos universos patriarcais, machistas, sexistas, misóginos e lesbofóbicos de suas profissões e vidas. Foi com uma delas que, ainda adolescente, começando a aprender a dor e a delícia de ser quem eu sou, que travei, num pequeno apartamento em Salvador com vista para o mar e ao som de Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Gal, Daniela e Elis, entre tantas outras mulheres da MPB pelas quais sou apaixonado, que travei diálogos existenciais que muito contribuíram para moldar o homem que hoje sou.

Foi com outra amiga, também lésbica, companheira de trabalho, que, instigados por uma matéria da Bravo! cujo título fazia uma pergunta que pode se estender para vários outros espaços além do da arte: “As mulheres ainda são minoria?”, recentemente conversava sobre a representação das lésbicas na mídia, na literatura e nas artes em geral. A representação desse segmento é quase sempre caricata (as caminhoneiras ou as lipstick lesbians, lindas e loiras, que povoam a fantasia – mais clichê impossível – dos homens heterossexuais), assim como é a representação dos gays masculinos. Como sou adepto de Jung, não vou dizer que foi coincidência, e sim sincronicidade ter recebido, pouco tempo depois, o convite da Karla Lima para escrever o prefácio de seu livro, que conta a história de mulheres cuja vida e carreiras de sucesso contribuem positivamente para a visibilidade lésbica, mostrando que, apesar de minoria, elas existem, sim. Não poderia deixar de participar deste trabalho, que é um desdobramento e parte dos históricos esforços literários para assegurar uma representação – tão somente no sentido de visibilidade – da mulher homossexual na cultura, mas, antes, nos próprios movimentos feminista e LGBT.

Nós, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, não temos muitas referências positivas de nós mesmos ao crescer e desenvolver a nossa subjetividade. A sociedade e aqueles que ditam as regras dela, ou seja, os homens brancos e heterossexuais, habituaram-se a colocar-nos num lugar subalterno, como colocaram as mulheres durante muito tempo, como colocaram os negros. Para eles é muito difícil ver uma lésbica, por exemplo, sair de um lugar subalterno em que foi colocada para ganhar voz, se tornar sujeito e não objeto de discurso. E assim nós também o fizemos. Durante muito tempo, nós, LGBTs, por não nos vermos representados em outros papéis que não o daqueles clichês na novela ou nas páginas policiais do jornal local, também achávamos que não poderíamos ocupar espaços de poder, como um cargo no Parlamento Brasileiro, na Academia de Letras, em um lugar de destaque na música, no cinema, na teledramaturgia, dirigindo hospitais e salvando vidas ou até mesmo constituindo famílias e desfrutando dos direitos que nos são garantidos pela Constituição Brasileira e pelos tratados internacionais dos quais o nosso país é signatário.

Recebi, por e-mail, trechos do livro-reportagem de Karla e ao começar a conhecer intimidades de Laura, Valéria, Raquel, Ana Lúcia, e demais personagens que ela escolheu para representar o universo lésbico, lembrei-me de Lygia Fagundes Telles, em As Meninas: “Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos”. Essas mulheres estavam (estão) revertendo a ordem, que, na realidade, há muito tempo já não é mais a ordem mundial. Dar visibilidade ao fato de que gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais podem, sim, ser profissionais bem-sucedidos, respeitados e admirados, é fundamental para rompermos o status quo, o mundo que faz da heterossexualidade algo melhor e mais são do que a homossexualidade.

No momento em que o fundamentalismo religioso busca invadir nossas vidas, nossa dignidade, nossa existência, não só impedindo avanços que garantam o direito da comunidade à qual pertencemos, a LGBT, mas buscando retroceder naqueles que já nos foram garantidos, dar visibilidade e representação a personagens como: Luciana e Thaís, que abrem sua intimidade na dolorosa – mas, felizmente, vitoriosa – jornada em busca da maternidade, dando cara e cor aos novos arranjos familiares; resgatar a maravilhosa atriz Cristina Prochaska e seu desbravador papel como Laís, que formou, em 1988, o primeiro casal lésbico da teledramaturgia nacional ao lado de Lala Deheinzelin; e Edith Modesto, que ajudou milhares de mães e pais a compreenderem e abraçarem seus filhos e filhas homossexuais através do trabalho com o GPH, se faz mais do que necessário. É uma forma de celebrar aquilo que nós, LGBTs, já sabemos, mas que a nossa sociedade aos poucos está começando a aceitar: nós somos muitos e muitas. E não somos fracos.

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quarta-feira, 21 de agosto de 2013 direitos humanos, LGBTs | 17:10

Bradley Manning é um herói. E se fosse Breanna?

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Bradley Manning foi condenado hoje a 35 anos de prisão por vazar, em 2010, milhares de documentos diplomáticos dos Estados Unidos ao site Wikileaks, revelando imagens chocantes e informações que levaram autoridades à fúria. Sua condenação está gerando imensa comoção mundial e uma grande mobilização nas redes sociais, inclusive uma campanha na internet liderada por um grupo de artistas, jornalistas e ativistas do cacife do diretor de cinema Oliver Stone, da atriz Maggie Gyllenhaal  e do músico Moby, que afirmam já ter reunido mais de 61 mil assinaturas para candidatar o nome do militar ao Prêmio Nobel da Paz.

Neste mesmo rastro, ressurgem informações que Bradley, na verdade, pode ser Breanna.

A revista Samuel trouxe, hoje, um excelente artigo a respeito de toda a discussão em torno da identidade de gênero de Bradley. Levanta, inclusive, a pertinente questão: E se Bradley for, de fato, Breanna, nome pelo qual seu alter ego foi inicialmente conhecido (Bradley, finalmente, optou pelo nome Chelsea, como foi veiculado na matéria), terá o mesmo apoio popular? E teria esta identidade influenciado as péssimas condições às quais foi submetido na cadeia?

Estes fatos nos relembram o preconceito, a violência e a invisibilidade enfrentada diária e cotidianamente por todas as pessoas trans.

Incompreendidos pela sociedade em geral – que, em grande parte sequer sabe o que significa o termo transexual ou, menos ainda, que eles e elas existem – os e as transexuais e travestis não têm como se esconder em armários a partir de certa idade (ao contrário de lésbicas e gays que, se não tiverem coragem de brigar por um lugar digno no mundo sendo quem são de verdade, podem morrer neles). Por isso, na maioria dos casos, mulheres e homens trans são expulsos de casa, da escola, da família, do bairro, até da cidade. A visibilidade é obrigatória para aquele cuja identidade sexual está inscrita no corpo como um estigma que não se pode ocultar sob qualquer disfarce. E o preconceito e a violência que sofrem é muito maior.

Boa parte da sociedade, que em grande parte não consegue sequer distinguir a diferença entre identidade de gênero, sexo e orientação sexual, acredita que pessoas trans são destinadas a ficar à margem de tudo. A violência que essa crença gera faz com que muitos e muitas abandonem a escola pelo bullying e fiquem restritos a guetos.

A invisibilidade legal, que obriga pessoas trans a não ter sua identidade de gênero reconhecida, ou, quando permite, torna tão difícil o processo legal que o torna análogo à impossibilidade, também é uma violência pela qual esse segmento da população sofre. Para driblar uma lei que lhe negava o direito a ser ele mesmo, João W Nery, a quem homenageio, em nome de toda a comunidade trans, com meu projeto de lei 5002/2013 de identidade de gênero, por exemplo, teve que renunciar a toda sua história, seus estudos, seus diplomas, seu currículo. Foi só dessa maneira, com documentos falsos, analfabeto nos registros, mesmo sendo professor universitário, que ele conseguiu ser, finalmente, João em seus documentos, como relatado em seu livro, “Viagem solitária”.

Em diversas partes do mundo a discussão a respeito do reconhecimento da identidade de gênero está avançada ou devidamente regulamentada, inclusive em nossa vizinha, Argentina. E no Brasil? Até quando o Estado vai acreditar que tem a autoridade de determinar os limites exatos entre a masculinidade e a feminidade e os critérios para decidir quem fica de um lado e quem do outro?

Está na hora de discutir, abertamente, a omissão que nega direitos a pessoas trans e os submetem a tratamentos desumanos.

Aqui no Brasil e lá nos EUA.

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013 LGBTs | 13:49

Pilar, uma mãe como tantas outras mães

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(Foto: Reprodução / TV Globo)

Esta é a segunda vez em que me refiro ao personagem Félix. Agora, não com uma crítica à sua construção, e sim para falar sobre um momento da trama, exibido ontem, que reflete um momento da vida de todo LGBT: o momento da saída do armário, mesmo que esta não seja exatamente voluntária.

Mais que uma discussão sobre esta saída, quero falar sobre a relação que todo gay tem com sua família. A família é sempre a primeira a saber e a última a acreditar. Diferentemente de um jovem negro, por exemplo, que ao ser insultado na rua é acolhido pela sua família, o jovem LGBT não é acolhido. É quase sempre reprimido pela sua família. Os pais, com suas expectativas em relação ao filho homem (e à filha mulher também), apenas conseguem imaginar um destino imperfeito a ele. E os primeiros momentos desta saída do armário costumam ser bem difíceis.

Em meio à confusão, Félix encontrou compreensão exatamente em sua mãe, que sempre soube, mas não tinha coragem de dizer a si mesma. Uma pessoa esclarecida, mas que até então ainda refletia alguns preconceitos exatamente pelo distanciamento, por não olhar para seu próprio filho, mesmo quando convencida a fazê-lo.

Comigo foi um simples “não falo disso”. E não falamos mais disso, muito embora, sem falar, evoluímos em nossa relação no dia a dia. O preconceito existe enquanto há uma distância entre você e aquilo que você não conhece. À medida em que minha mãe foi me conhecendo nesta nova atitude e que foi conhecendo meus amigos, esta barreira do preconceito foi caindo. Hoje, mesmo pertencendo à igreja, sua atitude é quase a atitude de uma ativista, de me defender e de ter orgulho de seu filho.

Hoje só posso lhe agradecer por ter me acolhido e me defendido da estupidez homofóbica.

Da mesma forma fazem as Mães pela Igualdade, um grupo de mães que luta contra a homofobia, defendendo a igualdade de direitos para suas famílias, enquanto reclamam justiça pelos jovens assassinados por sua orientação sexual. São mães que foram além do imaginário popular, que considera que homossexuais serão necessariamente marginais, e reconheceram que seus filhos podem ser grandes pessoas na vida. Não apenas no sentido profissional, mas no sentido de caráter.

Esta relação entre gays e suas mães perdura por toda a vida. Quase sempre o filho gay é quem fica com a mãe, pois os filhos héteros tem suas esposas, que estabelecem uma relação de concorrência com a sogra, enquanto o namorado ou esposo do filho, não. O casal sempre se aproxima mais das mães.

Uma boa hora para pensarmos em como as relações familiares se constroem, como se constrói o amor e o respeito, e como tantos ressentimentos podem ser evitados quando há compreensão. Como disse à minha mãe naquela ocasião, “só quero que a senhora entenda que eu gosto de outros homens e isso não muda nada em minha vida”. E ela entendeu; para ela, nada disto mais é um problema.

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segunda-feira, 15 de julho de 2013 direitos humanos, homofobia, LGBTs | 13:56

Línguas sujas de sangue

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Mais duas agressões violentas sofridas por jovens homossexuais por conta de sua orientação sexual – e num intervalo curto entre ambas: no último dia 28 de junho, o assessor parlamentar Gilvan de Melo, 23 anos, foi apedrejado na cabeça no bairro Morumbi, em Uberlândia (MG); e apenas uma semana e um dia depois, em 6 de julho, o jornalista do iG Murilo Aguiar, 25 anos, foi espancado por um funcionário da boate Yatch, em São Paulo (o agressor, contratado por uma empresa terceirizada para trabalhar na casa, cujo público é majoritariamente LGBT, gritava para Murilo, segundo o mesmo, que ele deveria “ler mais a Bíblia” e que “todos os gays têm Aids”).

LEIA TAMBÉM: VIOLÊNCIA NA NOITE EM SP – JORNALISTA É ESPANCADO POR HOMOFOBIA

Em ambos o casos, o preconceito anti-homossexual e o discurso de ódio que o expressa propagados por líderes religiosos fundamentalistas aparecem como pano de fundo. Claro que essa violência dura foi praticada por pessoas adultas capazes e responsáveis por seus atos, mas não foi acaso que as agressões tenham vindo acompanhadas por referências à Bíblia.

A culpa não é da Bíblia, óbvio, mas de fundamentalistas (a maioria tão somente oportunistas sem fé, mas hábeis na exploração comercial e empresarial da fé; alguns cumprindo mandatos em câmaras de vereadores, assembléias legislativas e aqui no Congresso Nacional) que distorcem seu conteúdo para usá-lo principalmente contra a população LGBT, ateus e contra as religiões brasileiras de matriz africana (o Candomblé e a Umbanda).

O vereador Mário Milken (PDT-MG) – de quem Gilvan é assessor – está percorrendo Uberlândia com uma camisa que diz “Deus não é homofóbico”. E ele tem razão. Os vendilhões do templo falam em nome de Deus, mas claro está que o Deus da maioria dos cristãos – ou, pelo menos, o Deus percebido pela maioria cristã – não autoriza nem aprova violência simbólica (injúria, calúnia e difamação) e/ou real (lesões corporais, tentativas de homicídio e assassinatos) contra seres humanos (ainda que estes tenham relações afetivas com pessoas do mesmo sexo ou creiam em outro deus ou não creiam em deus algum). Não foi o Deus percebido e reverenciado pela maioria dos cristãos quem pediu que Gilvan fosse apedrejado ou que Murilo fosse espancado!

“Este aumento da homofobia em Uberlândia e no país [como um todo] tem relação com a defesa da ‘cura gay’ na Câmara. O discurso de intolerância dos fundamentalistas acaba influenciando a violência contra homossexuais e outras minorias”, disse à imprensa local o vereador Milken. E, outra vez, ele tem razão! Não há ação sem idéia que a anteceda. Não há insulto ou violência física contra homossexuais e mães-de-santo sem a crença prévia de que estes não são “criaturas divinas, mas demoníacas”; “não fazem parte do povo eleito e, por isso, devem ser condenados ao inferno se não se converterem”; “não integra a comunidade de ungidos” – crença incutida na mentalidade de gente desesperada ao ponto de não conseguir raciocinar com bom senso em relação a essa intolerância religiosa.

As línguas dos líderes religiosos fundamentalistas – e eu não preciso citá-los porque eles estão aí, visíveis nas mídias – as línguas deles estão sujas do sangue das vítimas da intolerância religiosa!

E antes que apareça aquela gente de má-fé sempre disposta a comparar o número de homicídios motivados por homofobia com o número de homicídios em geral para desqualificar a denúncia da violência homofóbica, eu lhe explico que se as taxas de homicídios em geral expressam uma violência à qual estamos todos expostos, apenas as minorias difamadas (LGBTs, negros, povo de santo, judeus, ateus e indígenas) estão expostas aos crimes motivados por preconceito!

Estamos às vésperas de pôr em votação, na Comissão de Direitos Humanos do Senado, o projeto de lei que enfrenta (não só com com o direito penal nem com o endurecimento deste) essas discriminações motivadas por preconceitos de raça, etnia, idade, religião, procedência, orientação sexual, identidade de gênero e em relação a pessoas com deficiências – o PLC122! Essa discussão se faz, portanto, necessária para que se perceba a importância de ele ser aprovado.

Nos tempos em que eu atuava nas pastorais católicas da Juventude Estudantil e da Juventude do Meio Popular, nós costumávamos entoar um cântico que dizia: “Toda Bíblia é comunicação de um Deus-amor; de um Deus-irmão. É feliz quem crê na revelação; quem tem Deus no coração”. Orgulho-me de ter herdado, dos meus tempos de católico, a crença nesse “Deus-amor, Deus-irmão”. E me pergunto se a razão para líderes fundamentalistas “cristãos” não professarem esse “Deus-amor, Deus-irmão” não é tão somente a possibilidade de que esse Deus diminua seus lucros com a exploração comercial da ignorância…

Conheça o caso de Gilvan:

Página em apoio à mãe de Gilvan: https://www.facebook.com/AjudeDonaEva

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terça-feira, 2 de julho de 2013 CDHM, direitos humanos, LGBTs | 18:22

Continuemos com a nossa voz ativa, para em nosso destino mandar!

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Hoje, o deputado João Campos, numa espécie de damage control, já que a grande maioria dos que se expressaram nas ruas é contra o PDC 234 e ao que está por trás dele, e já que tudo indicava que seria ele derrubado se fosse à Plenário para votação, pediu o arquivamento do seu projeto que propõe a suspensão da validade de dois artigos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia, em vigor desde 1999, que proíbe os profissionais de oferecer/prometer a “cura gay” (nome muito propriamente dado pela sociedade ao projeto, que assim o apelidou por exatamente isso ele propôr). Por já ter sido aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, o PDC, de acordo com o Regimento Interno da Câmara, só pôde ser retirado após ser votado no Plenário, o que aconteceu há pouco em Sessão Extraordinária.  Que fique claro que o projeto foi retirado, e não arquivado! Ou seja, esse projeto absolutamente antidemocrático e contrário aos princípios republicanos pode (e deve, como o presidente da CDHM da Câmara dos Deputados já esteja prometendo fazer), voltar para a pauta do Congresso. Apesar disto, essa foi mais uma vitória daqueles e daquelas cujas manifestações disseram um sonoro não ao projeto de decreto que literalmente institui a “cura gay” no Brasil, ao permitir que psicólogos charlatães, interessados principalmente no dinheiro que isto possa significar, operem sessões de “reversão da homossexualidade” nos púlpitos das igrejas e em comunidades terapêuticas, a exemplo do que ocorre – desastrosamente – nos Estados Unidos.

Eu e o deputado Roberto de Lucena debatendo na TV Câmara

Alegam os defensores do projeto, inclusive se apoderando de uma expressão que eu uso bastante, que é uma desonestidade intelectual chamar o projeto assim. Não, não é uma desonestidade. O projeto não estabelece tratamentos, porém retira todas as limitações para que eles ocorram. Dizer que a resolução do Conselho Federal de Psicologia impede que homossexuais busquem atendimento ao seu tratamento psicológico é sim uma grande desonestidade intelectual. Jamais nenhum psicólogo foi impedido de atendê-los.

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Onde está o impedimento? Está na proibição de propor tratamentos de cura à homossexualidade. Não existe como reorientar a sexualidade de uma pessoa. Você pode até convencê-la a partir de proselitismos religiosos, e assim agravar seu sofrimento. Não à toa, Robert Spitzer, um dos psiquiatras mais influentes dos Estados Unidos que, em 2001, publicou, na revista acadêmica “Archives of Sexual Behaviour”, um estudo científico sobre a “terapia reparadora”,  se desculpou publicamente por anos de desserviço à classe, quando defendia as terapias de reversão usando dados falsos.

Querer instituir tal absurdo no Brasil não é apenas um retorno a tempos medievais. É instituir o charlatanismo em uma área tão delicada quanto a saúde mental, capaz de levar tantos ao sofrimento e, em casos extremos, ao suicídio. Nada disto é uma suposição, basta uma simples pesquisa!

Ganhamos mais essa batalha, mas não podemos nos abrandar!

Mais uma vez, parabéns a todas e todos que lutaram contra esse projeto, não vamos esmorecer pois ainda temos muitas violações à laicidade do Estado para combater, como a PEC 99, por exemplo. Continuemos com a nossa voz ativa, para em nosso destino mandar!

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sexta-feira, 14 de junho de 2013 direitos humanos, LGBTs | 13:50

Vista esta camisa você também!

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Na próxima semana, dia 19, teremos um dia de ativismo voluntário no Congresso Nacional em prol do casamento civil igualitário. O ato público, organizado por mim, pela deputada Erika Kokay (PT-DF), pela Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos e pelos militantes de vários segmentos do Distrito Federal acontecerá após uma audiência sobre o tema proposta pelo Senador Randolfe Rodrigues, meu colega de PSOL. O objetivo da ação é a coleta das 171 assinaturas necessárias para protocolar a PEC.

Durante o dia, nós parlamentares, artistas convidados e militantes estaremos disponíveis para esclarecer dúvidas sobre a PEC, o Projeto de Lei do Casamento Igualitário (PL 5120/13) e sobre a importância do casamento igualitário ser garantido na legislação brasileira.

Não termos uma lei que vá de acordo com a medida judicial já aprovada pelo CNJ mostra que há um descompasso entre a sociedade e seus representantes no Congresso Nacional. A democracia brasileira está amadurecendo e não podemos permitir que haja retrocessos nesta decisão que, por mais tardia que seja, é indispensável para igualar todas e todos perante a lei, garantindo assim a igualdade proclamada pela constituição, de sermos todos iguais em direitos e deveres. Por isto é preciso alterar a própria constituição, garantindo que as famílias homoafetivas também tenham o direito à igual proteção do Estado.

O texto do artigo 226 da Constituição, que hoje reconhece apenas casais compostos por homem e mulher,  passará a vigorar com o seguinte texto:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

§ 1.º O casamento é civil e é gratuita sua celebração. Ele será realizado entre duas pessoas e, em qualquer caso, terá os mesmos requisitos e efeitos sejam os cônjuges do mesmo ou de diferente sexo.
§ 2.º O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.
§ 3.º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre duas pessoas, sejam do mesmo ou de diferente sexo, como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.

É hora de instalar, definitivamente, esta discussão no Congresso Nacional, para que ele deixe de se omitir.

Quem quiser participar da atividade, aqui no Congresso Nacional, basta enviar um email com nome, RG e telefone de contato para atopublico@jeanwyllys.com.br e buscar sua camiseta e material informativo no dia. Venha vestir a camisa você também! Se você não puder vir, pode entrar em contato com os deputados e as deputadas do seu Estado solicitando que eles assinem a PEC do Casamento Civil Igualitário. Acesse aqui a lista completa com os telefones e e-mails de todos os deputados e deputados da Câmara dos Deputados.

Estão todos convidados, desde já!

Conheça a PEC, o Projeto de Lei e os argumentos a favor do Casamento Igualitário: http://bit.ly/176bMPR

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segunda-feira, 10 de junho de 2013 LGBTs | 18:07

EM NOME DO PAI – Pra não dizer que não falei de Félix

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Sem entrar na questão de se estamos preparados ou não para um vilão gay na novela das nove, o horário de maior audiência da tevê aberta brasileira (levando-se em conta não só o fato de que a maioria do povo brasileiro se informa por meio da tevê; a ainda baixa qualidade da educação formal oferecida pela ampla maioria das escolas públicas; o baixo índice de leitura de livros, mas sobretudo se levando em conta o atual contexto político, marcado pela emergência de um fundamentalismo religioso odioso que se expressa e cresce sobretudo na difamação da comunidade LGBT); sem entrar nessa questão, posso afirmar que Walcyr Carrasco teve uma idéia interessante ou, no mínimo, produtiva para sua nova novela, “Amor à vida”: fazer do grande vilão da trama alguém cuja vilania advém da repressão ou recalque da homossexualidade.

Félix seria então uma denúncia dos impactos nocivos do recalque da homossexualidade ou internalização da homofobia sobre o caráter de gays e lésbicas: estes experimentam inicialmente, desde a mais tenra infância, o sentimento de pertencer a outra raça; com raras exceções, são vistos pelos próprios pais, quase sempre violentamente hostis à orientação sexual ou identidade de gênero que se expressa apesar de toda repressão, como condenados a uma sexualidade vergonhosa e incapazes de lhes gerar uma descendência; por conta disso, para não decepcionarem esses pais e estarem à altura das suas (dos pais) expectativas, muitos são os que desenvolvem um ódio de si mesmo (e, logo, do semelhante; ou seja, internalizam a homofobia), buscando no suicídio ou no fingimento a saída para seu sofrimento, podendo o fingimento incluir a busca pela realização do desejo homossexual no sexo anônimo em banheiros públicos, saunas e parques; realização do desejo sempre seguida de culpa e de mais ódio de si, claro. Félix seria alguém que teria optado por essa segunda saída. Todo seu fingimento – e por conseguinte todo seu mau caráter – é em nome do pai que sempre o rejeitou e reprimiu por causa da homossexualidade. Félix seria um perverso em função da “lei do pai”; teria uma perversão por conta desta; seria uma “père-version” (versão outra do pai), para usar a expressão lacaniana. Não por acaso Walcyr Carrasco havia escolhido, como primeiro título de sua novela, a expressão “Em nome do pai”.

Mas não é esse Félix que estamos vendo na tela ou, pelo menos, estamos vendo apenas parte desse Félix prometido. Este jamais poderia ser tão afeminado ou dar tanta pinta.

Um perverso em decorrência da homossexualidade recalcada e conscientemente preso num armário jamais se exporia tanto quanto Félix se expõe, principalmente por meio do “humor bicha” presente em expressões como “Estou uma gelatina de exaustão”, “Minha pele borbulha com comida gordurosa”, “Eu devo ter salgado a santa ceia para merecer isso!”, “Pelas contas do rosário”, “Deu a Elza”, “Vou arrumar o topete, que ele despencou”. Essas expressões – assimiladas e reproduzidas só por quem vive a cultura gay – associadas à afeminação são bandeiras impossíveis num gay enrustido, casado com mulher, pai de um filho adolescente e herdeiro de um grande hospital de São Paulo!

E a culpa desse Félix defeituoso enquanto personagem não é de Mateus Solano, excelente ator que não precisa provar seu talento a mais ninguém. Solano lê um texto com rubrica que lhe chega às mãos. Seria estranho se Solano não colocasse alguma afetação num texto que diz “Ai, meu Deus, eu só posso ter salgado a Santa Ceia para merecer uma coisa dessas!”.

O problema é do autor da novela, que não se contentou em criar um personagem coerente, mas, antes, quis fazer, dele, um sucesso de público como o foram as vilãs Odete Roitman, Maria de Fátima, Nazaré e Carminha. Carrasco é um homem inteligente, bem-informado e conectado à internet, logo, está a par do enorme sucesso que os perfis das “bichas más” (ou das que se apresentam como “bichas más”) – Hugo Gloss, Cleycianne, Gina Indelicada, Irmã Zuleide, Xuxa Verde, Nair Belo, Katylene e Paola Poder – fazem nas redes sociais. Carrasco quis, portanto, importar, para Félix, esse mar de venenos que tanto seduz os internautas em redes – hoje elementos imprescindíveis na conquista da audiência.

Sem essa maledicência típica de alguns homossexuais (mas não de todos e nem mesmo da maioria), sobretudo típica daqueles que jogam mais aberto com certa feminilidade de estrelas do cinema e da música pop; sem essa maledicência “feminina”, como fazer, do Félix, um vilão amado? Carrasco também é um autor experiente e já declarou ser fã de telenovela antes mesmo de começar a escrever as suas; portanto, sabe que o sucesso de Odete Roitman, Maria de Fátima, Nazaré e Carminha tem a ver com a marca de gênero, ou seja, com o fato de elas serem mulheres. E nunca é demais lembrar que essas vilãs foram e são populares principalmente entre gays e mulheres heterossexuais, que constituem o núcleo duro da audiência das telenovelas. Logo, se Félix fosse um gay enrustido que insistisse numa performance de gênero masculina, seria certamente odiado, mas jamais popular.

Ao associar o “humor bicha” a um personagem gay recalcado capaz de cometer crimes hediondos em nome de sua ambição, Walcyr Carrasco esvazia a função de defesa psíquica e de resistência política que este humor tem. Como já disse, o “humor bicha” que se expressa sobretudo em frases irônicas, anedóticas e de deboche consigo e/ou com seus pares só pode ser exercitado por quem saiu do armário, voluntária ou compulsoriamente. Pois, como disse Freud do chiste, o “humor bicha” é a formação do inconsciente que mais se insere no social; logo, necessita do outro para referendá-lo (Quem está no armário se esforça para não expor sua orientação sexual ao outro ou encena a orientação sexual socialmente aceita e validada). O “humor bicha” é uma estratégia do inconsciente dos homossexuais – inconsciente quase sempre estruturado sob o insulto, a injúria e a humilhação perpetrados pela ordem heteronormativa e, portanto, homofóbica – para defender a mente e o corpo da angústia e de outros sintomas das neuroses.  O “humor bicha” atua então como álibi da verdade do sujeito homossexual que, até então (até sair do armário), não fora possível de ser dita. Este humor passa a ser também uma estratégia de resistência política: por meio dele, a comunidade LGBT (sobretudo o seguimento T dessa “sopa de letras”) debocha da ordem masculina que a oprime e dá significado positivo a palavras insultuosas e difamantes. Associar o “humor bicha” a um criminoso frio e egoísta é perder de vista sua função na luta de LGBTs por dignidade, estima e direitos. A redenção de Walcyr Carrasco nessa questão pode vir se e somente se este humor estiver presente em algum dos outros dois gays que fazem parte da trama. Do contrário, estará provado que Carrasco salgou a Santa Ceia!

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