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terça-feira, 1 de julho de 2014 Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 21:18

O fundamentalismo não é uma prerrogativa apenas do islamismo

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Foto: Denis Henrique/G1

Em datas recentes e muito próximas, quatro episódios nos chocaram (pelo menos a nós que respeitamos as diferenças religiosas, étnicas, sexuais e de gênero e a diversidade cultural resultante delas). Na cidade mineira de Montes Claros, Ítalo Ferreira da Silva, membro de uma seita cristã neopentecostal, foi preso após destruir sete imagens sacras numa igreja católica. Na Baixada Fluminense, o “barracão” da ialorixá Mãe Conceição de Lissá foi incendiado no mesmo dia em que o muro do babalorixá Germano Marino amanheceu pichado com os dizeres “Vamos matar os gays” e “Deus abomina os gays”. Na semana anterior, um delegado da região comentou em uma matéria sobre o dia dos namorados que o casal retratado na matéria deveria “apanhar de cipó” por assumir a relação homoafetiva. Tudo isso enquanto um pastor faz campanha por boicote a “Em Família”, novela que ousa retratar o amor entre duas mulheres.

Não se iludam que esses sejam casos isolados, sem relação entre si. Muito menos que correspondam a agonias privadas. Os quatro episódios citados acima são expressões do fundamentalismo cristão e o têm como causa.

Por mais incômodo que essa expressão – “fundamentalismo cristão” – possa trazer a outros (arrisco dizer à maioria dos) cristãos brasileiros, que não querem ser confundidos com fundamentalistas (e não devem mesmo ser confundidos!), a verdade é que, sim, existe, no Brasil, um fundamentalismo cristão. Ao contrário do que sugerem as matérias de telejornais, o fundamentalismo não é uma prerrogativa apenas do islamismo!

Toda religião se fundamenta em um conjunto de narrativas, codificado ou não. Quando um religioso lê ou toma esse conjunto de narrativas como verdades absolutas a serem impostas a todas as pessoas, dizemos que ele é um fundamentalista. Nem todo cristão ou muçulmano ou judeu é fundamentalista, mas alguns cristãos, muçulmanos ou judeus o são.

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Foto: CCIR-RJ

No caso do fundamentalismo cristão à moda brasileira, este se materializa na difamação e perseguição sistemática da comunidade
LGBT e de outras religiões, sobretudo as chamada “de matriz africana” (a Umbanda e o Candomblé), já que, em relação a estas, ainda há um viés racista por serem religiões “de negros”.

O sinal de alerta se acende ao observar os detalhes do primeiro dos quatro episódios citados: suspeita-se que Ítalo não goze de boa saúde mental e de que teria sido por conta disto que ele teria repetido o famoso ato de um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que investiu contra imagem sacra em rede nacional de televisão. Quando um pastor defende publicamente que pessoas merecem punição física pelo seu pecado, quem garante que uma ovelha em sua doença mental não vá, de fato, executar o “julgamento divino”?

O proselitismo fundamentalista tem saído dos púlpitos e vigorado nas redes sociais, mas, antes (e o que é pior!), na política. Enquanto muitos destes líderes fundamentalistas se candidatam ao Legislativo (formando bancadas que se notabilizam pela intolerância e ignorância, mas também pelas faltas às sessões, ineficiência e problemas com a justiça), outros candidatos e candidatas flertam com eles na esperança de ganhar os votos de seus rebanhos e o dinheiro que adquirem com a exploração comercial da fé.

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Foto: Viviane Carvalho – Assessoria de Imprensa da Arquidioce

Lamento profundamente que os principais candidatos à Presidência da República e aos governos dos estados não estejam rechaçando, de maneira clara e efetiva, o fundamentalismo cristão e seu estímulo à intolerância e à violência contra minorias sexuais e religiosas, mas, antes, estejam cortejando esses inimigos da democracia em troca de dinheiro para suas campanhas e dos votos de seus rebanhos.

Conclamo os cristãos não-fundamentalistas, católicos e evangélicos, a reagirem ao fundamentalismo; a virem a público deixar claro que esses líderes fundamentalistas não lhes representam; e a se unirem aos adeptos de religiões minoritárias e ateus na defesa da laicidade do Estado; da diversidade cultural e da cultura de respeito aos diferentes.

 

 

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sábado, 28 de junho de 2014 direitos humanos, LGBTs | 01:30

As lições de Stonewall

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photo 2Sempre que uma minoria reivindica direitos ou procura influir na organização de relações que a oprimem e estigmatizam, os “guardiões da ordem social” – que, claro, gozam de privilégios nessa ordem estabelecida – opõem-se a tais reivindicações, às transformações e ao progresso que elas podem trazer. A atitude mais frequente desses mantenedores da ordem e da moral majoritária consiste em desqualificar os movimentos das minorias por meio de acusações infames e falácias. Um exemplo é a afirmação de que as minorias, em sua mobilização, estariam tentando estabelecer uma ditadura. Em relação às reivindicações do movimento LGBT, os “guardiões” cunharam até mesmo a descabida expressão “ditadura gay” – como se afirmar o direito à homossexualidade significasse impedir heterossexuais de serem o que são.

Outra estratégia usada pelos dominantes para defender seus privilégios consiste em reduzir a importância histórica das mobilizações reivindicatórias. É o que acontece com a Parada do Orgulho LGBT, realizada em diversos países, mas que ainda hoje é alvo de toda a sorte de acusações.

Em 28 de Junho de 1969, ocorreu em Nova York uma série de conflitos violentos entre homossexuais e a polícia americana, iniciado em um bar chamado Stonewall Inn e prolongando-se por vários dias, o episódio ficou conhecido como a “rebelião de Stonewall” e se tornou um marco na defesa dos direitos civis LGBT. Gays, travestis e lésbicas, cansados das frequentes humilhações e agressões físicas por parte da polícia local, reagiram em nome de sua dignidade, inaugurando uma nova fase do movimento homossexual, no rastro de outras manifestações de contracultura do final dos anos 1960 e início dos 1970, como o movimento hippie, o feminismo e a luta pela afirmação dos direitos civis dos negros. O levante de Stonewall inspira até hoje as paradas LGBT em todo o mundo.

O legado dos anos 1960 e 1970 e considerável e devemos defendê-lo contra todas as tentativas de retrocesso. Contudo, o que surpreende é o fato de que essa herança, que, ao menos nas sociedades ocidentais, transformou a situação das mulheres, dos gays e transexuais, não tenha alterado, em definitivo, a estrutura mesma daquilo a que o sociólogo francês Pierre Bourdieu se referiu como “dominação masculina”. Devemos refletir, portanto, não somente sobre o que mudou a partir de Stonewall, mas também analisar com atenção o que permanece, a fim de denunciar as instituições que operam para manter uma ordem social – e sexual – restrita, não inclusiva e contrária às liberdades individuais. Uma ordem em que denominações coletivas são estabelecidas, sobretudo a partir de insultos que vitimam “veados” e “sapatões” desde a infância, assim que se apresentam os primeiros sinais de divergência da heteronormatividade, seja no que se refere à identidade de gênero ou à orientação sexual, e isso na própria família, nas ruas, nas escola, no local de trabalho, enfim, em todos os lugares onde desenvolvem sua vida.

Desse modo, comemorar o levante de Stonewall nas paradas LGBT em todo o mundo é mais do que constituir uma “mitologia” para os homossexuais: é reafirmar as conquistas políticas e culturais da geração dos anos 1960-70.

Creio que muita coisa mudou ao longo dos últimos anos, graças ao surgimento, em escala internacional, de um movimento LGBT que assumiu múltiplas formas. O fato de eu, um deputado brasileiro, ter sido convidado a falar no IV Encontro sobre Dissidência Sexual e Identidades Sexuais e Genéricas, realizado na capital mexicana em 2013, é a prova da amplitude desse movimento globalizado e de seus progressos. No entanto, isso não faz desaparecer a homofobia; ao contrário, cada grande momento de afirmação sexual e de reivindicação do direito à homossexualidade provoca, invariavelmente, uma reação homofóbica. Quem se interessa pela história da homossexualidade sabe disso.

Ainda que seja utópica uma sociedade perfeitamente justa, na qual a opressão sobre a comunidade LGBT não tenha lugar, acredito que é possível construir e manter espaços de resistência política, cultural e social. As Paradas do Orgulho LGBT, como celebrações legítimas, precisam conquistar a estima da sociedade e afirmar seu intento de reivindicar direitos civis de lésbicas, gays, bissexuais e travestis e transexuais.

O trecho acima faz parte do meu novo livro, “Tempo Bom, Tempo Ruim”. Uma reflexão oportuna neste dia em que comemoramos o Dia do Orgulho LGBT.

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quarta-feira, 4 de junho de 2014 Crítica, Cultura, homofobia, LGBTs | 11:40

O jogo do adversário

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Eu, jogando futebol em Alagoinhas, Bahia. O enquadramento não era exatamente uma qualidade do fotógrafo!Eu, jogando futebol em Alagoinhas, Bahia.
O enquadramento não era exatamente uma qualidade do fotógrafo!

 

Quando contei que o fato de eu não ter, hoje em dia, paixão pelo futebol estava ligado à dolorosa experiência com a homofobia que me abateu na única vez em que, ainda menino, entrei em “campo” para jogar (na verdade, o “campo” era um terreno baldio da periferia onde nasci e me criei); quando eu contei essa história, muitos duvidaram de sua veracidade. Pois, numa daquelas surpreendentes coincidências (ou “sincronicidades”, como o quer Jung), no momento em que recebi o convite do Google para aderir à campanha #ProudToPlay (#JogueComOrgulho, no Brasil), que visa enfrentar a homofobia e o racismo nos jogos da Copa do Mundo, neste momento, uma amiga de minha mãe, Regina, deu-me essas fotos que ilustram o texto. Tenho raras fotos de minha infância (fotografia era artigo de luxo naquela época). Jamais imaginei que houvesse registro de minha única experiência com o futebol. Mas há.E ele foi encontrado em hora oportuna! A foto é mal enquadrada, mas dá para me reconhecer agachado ao lado direito do time.

A foto dá também a dimensão do abandono das periferias e das resistências de sua população, que inventam “campos” quando os governos não lhe dão quadras de esportes. Quem quiser saber um pouco mais dessa minha experiência com o futebol e dos termos de minha crítica à homofobia nesse esporte (Atenção: não estou dizendo que todas as pessoas que praticam ou gostam de futebol são homofóbicas ou racistas; estou dizendo que, infelizmente, há racismo e homofobia na cultura futebolística), quem quiser saber mais leia meu novo livro “Tempo bom, tempo ruim”, cujo trecho reproduzo abaixo.

 

“Não gosto de futebol. Perdoem-me os amigos e leitores que gostam do esporte e/ou o praticam, mas eu, particularmente, detesto futebol. A aversão não é gratuita nem deixa de ser recíproca.

(…)

Como forma de sociabilidade masculina (entendam como ‘sociabilidade masculina’ a vida dos homens entre si), o futebol é fundamentalmente misógino, como mostram o deboche e a indiferença de torcedores e patrocinadores com o futebol feminino, ainda que muitas jogadoras sejam melhores que muitos Ronaldos, Adrianos e Robinhos. É também homofóbico: repousa igualmente na exclusão de gays”

 

Assim como a homofobia me afastou do futebol, ela e o racismo podem afastar outros que – vai saber – poderiam ser grandes atletas (não estou falando do meu caso, pois, ainda que a discriminação não tivesse me afastado do futebol, eu não seria um atleta de talento). Por isso mesmo, aderi à #ProudToPlay quando convidado. O esporte deve nos dar só orgulho!

 

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sábado, 3 de maio de 2014 Crítica, LGBTs | 05:00

“A parada é outra”

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Por Jean Wyllys

Nesse domingo, participarei da Parada do Orgulho LGBT de SP, como o faço desde 2005, mas, este ano, de um modo diferente: estarei a pé, no chão, acompanhando o “Bloco de Unidade pela aprovação da Lei João Nery” e marchando junto a diversos movimentos sociais, estudantis, políticos e organizações da comunidade LGBT que decidiram se reunir para levar a bandeira da população trans — travestis, transexuais e transgêneros —, que reclamam a aprovação da lei de identidade de gênero João Nery, projeto elaborado por meu mandato, que apresentamos em 2013 junto com a deputada Érika Kokay.

Diz a declaração do Bloco: «Historicamente, o movimento LGBT se centrou quase que exclusivamente em torno das pautas de homens gays, pesando-se as iniciativas pioneiras e exceções. Ficou conhecido por muito tempo como ‘movimento homossexual’ justamente por isso: não parecia se falar de mais nada. Isso se expressa num histórico de temas das paradas do orgulho LGBT, e em especial em São Paulo, que em nenhuma edição colocava em centralidade as pautas das pessoas trans. Prova disso é o fato da Parada ser mais conhecida como “Parada do Orgulho Gay”, sem inclusão das outras categorias. Esse ano, após uma grande mobilização pela mudança do tema e da exigência atendida por reuniões presenciais de diálogo, um acordo com a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo teria conseguido mudar o tema da Parada de 2014 para incluir uma menção expressa ao PL “João Nery” de Identidade de Gênero e à transfobia específica — uma vitória para quem entende as interseccionalidades e opressões específicas que pautam centralmente em sua militância. No entanto, de surpresa, descobrimos que o material de divulgação da Parada ignora este acordo e não o colocou em prática, desrespeitando tanto a pauta em si como a mobilização que pensamos vitoriosa em mudar isso! Nesse sentido, a Frente LGBT* da USP decidiu convidar todos os coletivos, grupos, organizações e militantes LGBT* individuais de todas as regiões da cidade, e quem mais quiser somar, para construir um BLOCO DE UNIDADE, para ir à Parada como uma intervenção unitária pela aprovação da lei “João Nery”, denunciar tal ataque da Associação e pautar a ‘questão’ trans*! Com nossas faixas, cartazes e batucadas, explicitaremos o espaço da Parada como espaço de disputa política para as pessoas LGBT*!».

Como evento político, a Parada precisa ser repensada. Venho propondo isto há pelo menos dois anos aos seus organizadores. Passamos da fase da afirmação da quantidade – já mostramos que somos capazes de reunir multidão em festa do orgulho de ser – e, por isso, devemos investir agora na qualidade do evento em termos de impacto político! Para isto, a Parada precisa levar em conta a responsabilidade coletiva, precisa ser sensível e solidária às vulnerabilidades de alguns integrantes da comunidade LGBT – em especial, às trans -, e precisa se conectar com outras reivindicações e questões prementes do nosso tempo, que têm a ver conosco e que podem nos levar para além do nosso umbigo.

Diante do crescimento do fundamentalismo religioso e suas eficazes estratégias de difamação da comunidade LGBT, investir apenas ou principalmente na festa e no hedonismo (nada contra a ambos, mas não podemos ficar neles apenas), seria a melhor estratégia? Esta é a responsabilidade coletiva à qual me refiro.

Para além desta responsabilidade coletiva, há muitas outras questões que também nos afetam e que são esquecidas, como a mobilidade urbana – e os problemas ambientais dela decorrentes -, o racismo e o extermínio da juventude negra, a violência contra a mulher, entre tantas outras. Há várias formas de fazer essas conexões, desde que a Parada tenha a coragem de deixar de ser sobretudo uma micareta de rua e passe a se organizar em alas que marcham e celebram ao mesmo tempo. Ainda que ao fim tudo terminasse numa enorme festa de largo!

A Parada precisa também aproveitar seu potencial de mobilização para ser solidária a grupos e instituições que dependam da ajuda de outros. Pode, por exemplo, fazer campanhas de arrecadação de alimentos não perecíveis, roupas, remédios e brinquedos e doá-los à caridade ou às escolas carentes.

Quem acredita nesta necessidade de transformação, quiser participar do bloco e marchar com a gente, é só chegar a partir das 10 horas na Avenida Paulista, número 900 (TV Gazeta). Você também pode confirmar sua participação no evento clicando aqui. As pessoas que forem para o bloco na Parada devem levar, cada uma, um quilo de alimento não perecível a ser doado ao trio solidário de Roseli Tardeli, o 11º da fila. O ideal é que as pessoas passem lá, deixem o alimento, identifiquem-se como parte do movimento “A parada é outra” e sigam para o local de concentração, que é próximo ao primeiro trio.

Aderem ao Bloco: Frente LGBT* da USP / DCE Livre da USP / Frente LGBT da FMU / PUC Purpurina / Coletivo RUA – Juventude Anticapitalista LGBT / Junt@s LGBT / Setorial LGBT do PSOL-SP / Igreja da Comunidade Metropolitana / Centro Acadêmico Guimarães Rosa (Relações Internacionais – USP) / Centro Acadêmico de Filosofia da USP

Espero a tod@s vocês lá!!! Não faltem!!!

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quinta-feira, 10 de abril de 2014 LGBTs | 17:48

Igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual nas escolas: o “ataque aos princípios norteadores da família”

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Há três anos nos debruçamos na construção de um Plano Nacional de Educação que finalmente diga que a escola é um lugar de inclusão, de superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual. A redação proposta pelo relator foi construída com movimentos sociais, organizações da sociedade civil, entre outros grupos, ao longo desses três anos de discussão. Apesar disto, parlamentares ligados a grupos religiosos se opõem a este trecho do projeto e fazem uma suja manipulação das informações a fim de colocar a população contra esta iniciativa.

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A escola não é única, ela é diversa. A escola é formada de gente branca, negra, pobre, mulheres, homens (cissexuais e transexuais), homossexuais, heterossexuais. A escola é um lugar de diversidade! As pessoas homossexuais e transsexuais existem em sua materialidade e não podem ser ignoradas no texto da lei; ignorá-las seria irresponsabilidade, insensibilidade e burrice!

A realidade é que existe o medo por parte desses grupos. Medo de uma educação de qualidade, que desconstrua a nossa cultura de violência discriminatória. Há o medo que esta educação forme uma consciência crítica, que dê às pessoas a possibilidade de uma vida com pensamento, com a possibilidade de não elegerem mais estes demagogos. Há também o medo de uma educação que ensine para as meninas que elas têm vulnerabilidade em uma sociedade machista e misógina e que a posição subalterna que elas ocupam é uma construção cultural, e não algo natural.

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Enfim, mais um dia se passou. Na esperança de finalmente votarmos o Plano Nacional de Educação, nós que nos ocupamos verdadeiramente com a questão da Educação, enfrentamos mais uma extenuante sessão – ao menos dessa vez os fundamentalistas religiosos, fanáticos e suas faixas com exortações contra a “ideologia de gênero” tiveram que dividir o espaço com os coletivos de estudantes, o que serviu para contê-los um pouco; mesmo assim, num dado momento, começaram a rezar, em uníssono, o Pai Nosso; dá para crer? -. Mas infelizmente ela, a sessão, expirou antes que o plano fosse votado.

A bancada evangélica (e que fique claro que essa bancada não representa todos nem mesmo a maioria dos evangélicos desse país) apresentou um “voto em separado” por meio do deputado e pastor Paulo Freire (coitado do educador Paulo Freire, que tem o azar ser homônimo desse senhor). Nesse voto em separado, lido pelo deputado e pastor Ronaldo Fonseca, a bancada evangélica diz que a comunidade LGBT promove “ataques aos princípios norteadores da família”. Ela não exemplifica que “ataques” são esses, mas eu suponho que seja a reivindicação de um ambiente escolar que promova o bem-estar de mulheres em geral, homossexuais e transexuais e esteja livre de bullying e discriminações motivadas por homofobia, racismo e sexismo. Se essa reivindicação – justa e decorrente dos direitos políticos assegurados pela Constituição Federal – é um “ataque aos princípios norteadores da família”, é preciso se perguntar: que “princípios” são esses?

A bancada evangélica não disse a que “ataques” se refere, mas eu digo que ela, sim, ataca os princípios da Constituição Cidadã quando quer negar a existência dos diferentes arranjos ou entidades familiares – as famílias monoparentais, chefiadas só por mães ou pais solteiros; as famílias formadas por casais estéreis ou por casais que não desejam ter filhos; as famílias compostas por casais e filhos adotivos; as famílias estendidas, que nascem do divórcio; e as famílias formadas por dois homens ou duas mulheres, com filhos ou não – já reconhecidos pelo Supremo Tribunal Federal, intérprete último da Constituição Federal e pela sociedade em geral.

O “voto em separado” da bancada evangélica também se refere a “ataques à liberdades públicas”. Não sei a que “liberdades públicas” eles se referem, mas suspeito que sejam as liberdades de oprimir e difamar minorias sexuais, étnicas e religiosas. Quem ataca as liberdades públicas é a bancada evangélica, que, no afã de impor seus dogmas e “valores” a uma sociedade plural e diversa religiosa e culturalmente, difama, em seus cultos e telecultos, as religiões de matriz africana (umbanda, candomblé e etc.), o espiritismo e seus adeptos. Ataques às liberdades acontecem quando a bancada evangélica desrespeita e insulta os ateus; defende a conversão de povos indígenas ao cristianismo por meio da exploração de sua miséria (algumas etnias denunciaram à Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara a invasão de terras indígenas por igrejas evangélicas sob o pretexto da “conversão dos infiéis”); e apresenta projetos para legalizar imposturas como clínicas de “cura gay”.

O “voto em separado” da bancada evangélica não é apenas um monumento ao obscurantismo ou uma ignorância do progresso científico e material que experimentamos nos últimos dois séculos, é um exemplo da pior inserção do ponto de vista religioso na esfera pública: aquele que abre mão da reflexão e do discernimento. Na sequencia da leitura do voto, outro pastor-deputado, o tal de Eurico (cujas feições trazem os sinais de uma amargura e uma infelicidade injustificáveis em alguém que está certo de que será salvo no dia do juízo), falou como representante de toda comunidade cristã, vociferando mentiras tão deslavadas quanto aquelas que arrancam, de fiéis ingênuos, dinheiro em troca de terrenos no paraíso. Ora, esse senhor não representa toda – nem mesmo a maioria da – comunidade cristã! Ele representa apenas os fundamentalistas reacionários e fanáticos!

Num dado momento, o tal deputado-pastor Eurico apresentou o total de telefonemas contra a “ideologia de gênero” feitos à Câmara como prova de “a maioria do povo Brasileiro” estaria contra a agenda de minorias. Eu ri porque é mesmo ridículo a bancada evangélica crer que não somos capazes de inferir que esses telefonemas correspondem a uma ação orquestrada e financiada com o dinheiro (muito dinheiro!) não tributado nem fiscalizado obtido com a exploração comercial da fé de gente pobre e/ou desesperada ou desamparada. É ridículo crer que não sabemos que o enriquecimento desenfreado depende justamente da reafirmação dos preconceitos dos fiéis em relação à homossexualidade e às religiões minoritárias.

Por causa de show de horrores, o PNE não foi votado. Pior: essa bancada nos obrigou a nos concentrarmos nesse ponto, quando o plano é muito maior que isso. O PNE estabelece metas para a educação a serem cumpridas nos próximos dez anos. Entre as diretrizes estão a erradicação do analfabetismo e a universalização do atendimento escolar. O plano também destina 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação – atualmente são investidos no setor 5,3% do PIB brasileiro.

Os demais deputados que não são evangélicos, mas são conservadores (e até mesmo alguns liberais como Gabriel Chalita e Raul Henry) aproveitaram esse rebaixamento promovido pela bancada evangélica para virem com argumentos do tipo “os dois lados estão radicalizando; vou me abster”. Ora, não há “radicalização” por parte de quem trabalhou democraticamente três anos num PNE para o país. Mas há oportunismo por parte de parlamentares que passaram ao largo desse trabalho e agora querem impor sua visão de mundo estreita ao plano, com auxílio de uma claque que segura cartazes contra a “ideologia de gênero”, mas que não faz a menor ideia do que significa ideologia ou gênero.

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quarta-feira, 12 de março de 2014 CDHM, Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 17:07

Novas ameaças de neonazistas, agora contra o Grupo Matizes

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Ataques e ameaças a ativistas de direitos humanos, sobretudo quem defende os direitos da população LGBT, são estratégias recorrentes de intimidação por parte de grupos que não admitem que minorias historicamente estigmatizadas estejam obtendo resultados com as suas lutas. Tais grupos abandonam o jogo democrático e fazem uso de procedimentos criminosos na tentativa de manter tais minorias em posição subalterna.

Essas estratégias obscuras foram utilizadas contra mim em diferentes momentos da minha atuação parlamentar nos últimos três anos: fui ameaçado de morte por defender o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo logo no início do meu primeiro ano de mandato; um blog criminoso de conteúdo racista, misógino e que fazia apologia à pedofilia também publicou um plano para me matar – e eu elaborei um dossiê e levei o caso à Polícia Federal que, após atuação com outros órgãos e milhares de denúncias de usuários, prendeu os responsáveis pelo blog na operação denominada “Intolerância”. Não bastassem as ameaças, eu, meus colegas parlamentares e demais ativistas de direitos humanos fomos vítimas de diversas campanhas difamatórias difundidas por parlamentares fascistas e fundamentalistas, que nos associavam criminalmente à defesa da pedofilia por defendermos uma educação inclusiva e para a diversidade e por defendermos a Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

Em Brasília, a psicóloga Tatiana Lionço e o professor Cristiano Lucas tiveram suas vidas pessoais prejudicadas e sofreram ameaças após suas falas durante o IX Seminário LGBT serem manipuladas em um vídeo divulgado pela internet; na Paraíba, integrantes do Movimento do Espírito Lilás (MEL) tiveram sua sede atacada, enquanto em Porto Alegre um militante do PSOL teve sua casa invadida. Agora, o novo alvo dessas baixas campanhas intimidatórias é o Grupo Matizes, organização responsável por defender os direitos LGBT no Piauí.

A coordenadora do Matizes, Marinalva Santana, vem recebendo graves ameaças de morte de um grupo neonazista que se intitula “Irmandade Homofóbica”. O grupo também ameaçou a proprietária de um salão de beleza que emprega funcionários LGBTs, através de um bilhete deixado em seu carro. As ameaças foram devidamente registradas em boletins de ocorrência.

Diante dessa nova investida, venho a público prestar minha solidariedade ao Grupo Matizes e colocar meu mandato à disposição. Em nome da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos, vamos requerer reuniões com o Ministério da Justiça, a Secretaria de Direitos Humanos e a Polícia Federal para acompanhar o caso e cobrar providências.

É imprescindível e necessária a intervenção de todos os órgãos públicos para garantir a segurança dos e das ativistas vítimas de ameaça no Piauí, bem como uma rigorosa investigação sobre esses grupos criminosos.

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quinta-feira, 6 de março de 2014 Cultura, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 21:20

O que cabe em um ano?

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Hoje o tempo voa, mesmo sem se sentir que um ano se passou. Um ano desde que escrevi minhas primeiras linhas para o iGay. Lembro-me das cores e dos cheiros daquela tarde de verão quando entrei naquele prédio no centro de São Paulo para discutir com o Tales Faria, vice-presidente editorial e publisher do IG, minha participação numa proposta ousada de abrir espaço em uma das principais companhias de telecomunicações no Brasil para tratar, com seriedade, de temas voltados pra população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

E o que cabem em um ano que escorre pelas mãos? Cabem derrotas, alguns retrocessos, mas também cabem importantes conquistas e avanços.

Em um ano, cabe um governo colombiano rejeitando o casamento igualitário; cabe alguns países criminalizando a homossexualidade; e cabe, aqui no Brasil, um projeto de “cura gay” ser um dos principais temas dentro da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, que durante esse ano foi presidido por um deputado racista e homofóbico, que não faz questão alguma de esconder que seu principal objetivo era o de retroceder em avanços que dizem respeito à dignidade e direitos da comunidade LGBT.

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Em um ano, cabem articulações com o intuito de vetar o casamento igualitário, inclusive sustando determinações do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), e ainda insistindo em tentar propor plebiscito para questões de Direitos Humanos. Cabe também um relatório da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), que divulgou que houve um aumento de 46,6% dos casos de agressão contra LGBTs, incluindo em suas estatísticas um pastor confundido com ativista e, por isso, agredido em Brasília durante evento de Silas Malafaia.

Mas em um ano também cabem muitos beijos que fizeram história: o beijo das incríveis Fernanda Montenegro e Camila Amado, que trocaram selinhos na campanha contra a permanência de Feliciano na CDHM; e, claro, o primeiro beijo de um casal de homossexuais em uma novela dentro do horário nobre da principal emissora de televisão brasileira. Mateus Solano e Thiago Fragoso, nos papéis de Félix e Niko, fizeram história, e abriram caminho para novas tramas de casais que mostram as diversas cores das famílias brasileiras.

Cabe, depois é apesar dos esforços dos fundamentalistas religiosos que se instalaram na CDHM depois de identificarem nela um trampolim eleitoreiro para seus dogmas teocratas, arquivar aquela proposta absurda de “cura gay”.

Cabe o Brasil inteiro se emocionar, vibrar e se apaixonar com a história de amor de uma das maiores cantoras brasileiras, Daniela Mercury, que se casou com a jornalista Malu Verçosa. E não apenas celebrou seu amor, mas se casou com os mesmos direitos que qualquer casal heterossexual, graças a uma decisão do CNJ, que regulamentou  casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, sendo pela conversão da união estável em casamento ou diretamente. E cabe o primeiro caso no qual a Justiça Federal reconheceu o companheiro de um sargento do exército como seu dependente.

Em um ano cabe celebração de casamento gay em base militar dos Estados Unidos; primeiro político gay na Turquia; leis pró-LGBT em Cuba; o casamento igualitário legalizado na Nova Zelândia, na França, no Uruguai e no Reino Unido; e cabe um pedido de desculpas do Exodus, famoso grupo cristão dedicado à cura da homossexualidade que após 37 anos de charlatanismo pede perdão à comunidade LGBT e encerra atividades.

Hoje celebramos um ano de trabalho. Por aquelas cabriolas ocasionais do destino, essa data de hoje é próxima ao meu aniversário de 40 anos, que celebro agora no dia 10 de março. Nesse inicio de nova década, só quero saber no que pode dar certo. Quero crer no amor numa boa e quero que isso valha pra qualquer pessoa. Quero um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, que acredita no amor, independente de cor, raça, credo, etnia, nacionalidade, gênero, sexo ou orientação sexual. Porque no meu mundo só existe uma lei: a do amor. E é nela em que vou colocar todas as minhas fichas.

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homofobia, LGBTs | 00:37

Para Alex, com carinho

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Quem me acompanha por aqui sabe que não tenho, por hábito, tratar de minha vida privada nem de minha intimidade. Concentro-me em debater ideias e fatos, sobretudo os ligados ao meu trabalho ou ao meu consumo cultural. Mas hoje vou abrir uma exceção…
Talvez seja a proximidade do aniversário de 40 anos, talvez seja o acúmulo de sentimentos não processados devido ao trabalho árduo dos últimos três anos, mas a verdade é que ando à flor da pele…
Hoje tive uma crise de choro ao ouvir, vinda da lanchonete da esquina, a música “No dia em que eu saí de casa”. A letra descreve quase que em detalhes um episódio de minha vida (e, por isso mesmo, as lembranças de minha mãe foram tão inevitáveis quanto as lágrimas):

“No dia em que saí de casa, minha mãe me disse ‘filho, vem cá’; passou a mão em meus cabelos; olhou em meus olhos e começou falar: ‘por onde você for, eu sigo com meu pensamento sempre, onde estiver; em minhas orações, eu vou pedir a Deus que ilumine os passos seus’.  Eu sei que ela nunca compreendeu os meus motivos de sair de lá, mas ela sabe que, depois que cresce, o filho vira passarinho e quer voar. Eu bem queria continuar ali, mas o destino quis me contrariar… E o olhar de minha mãe na porta, eu deixei chorando a me abençoar! A minha mãe, naquele dia, me falou do mundo como ele é; parece que ela conhecia cada pedra que eu iria por o pé. E sempre ao lado do meu pai, da pequena cidade, ela jamais saiu… Ela me disse assim: ‘meu filho, vá com Deus que este mundo inteiro é seu!”.

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Depois de ouvir essa música, ainda sentado ao computador para concluir uns textos, li a matéria de O Globo com a história completa do garotinho Alex, morto a pancadas pelo próprio pai para que “tomasse jeito de homem”. Alex, natural de Mossoró, RN, fora enviado, pela mãe, ao Rio de Janeiro para viver com o pai, desempregado e envolvido com o tráfico de drogas, porque ela, mãe de outros três filhos (também criados por terceiros), poderia perder a guarda de Alex por não enviá-lo à escola, já que não tinha meios para tal.

Olhei a foto do enterro de Alex e meu coração se apertou ao perceber que não havia quase ninguém lá… Sozinha, aquela semente indefesa esmagada violentamente por sua natural exuberância, não tinha ninguém por ela na despedida dessa vida que lhe foi tão injusta.
jean wyllys e mãeMeu coração se partiu e não pude controlar os soluços de choro. Por um instante, vi-me naquele caixão, sem futuro…
Semelhante a Alex, quando criança, eu também não tinha “jeito de homem”; gosta de brincar com as meninas, de roda; de desenhar no chão com palitos de fósforo riscados e pegava, escondido, as bonecas de plástico baratas de minhas primas; semelhante a Alex, eu gostava de cantar e dançar e essa minha diferença me tornava alvo de injúrias e insultos desde que me entendo por gente.

Cresci sob apelidos grosseiros e arremedos feitos pelos de fora. Naquela miséria em que eu vivia na infância, trabalhando desde os dez anos de idade nas ruas, o meu “jeitinho” me fazia vulnerável… e eu sabia disso ou, ao menos, intuía; por isso, dediquei-me aos estudos e ao exercício da minha inteligência. Busquei ser um menino admirável na escola e na Igreja para que meus pais não tivessem desculpas para me bater por aquilo que eu não podia mudar em mim.

Nem minha mãe amada nem meu pai que já se foi me espancaram por eu ser diferente, mas, ante os insultos e as injúrias de que eu era vítima, ambos me pressionavam com olhares e cobranças e meu pai, em particular, com um distanciamento.
Minha estratégia de sobrevivência deu certo, em casa e na escola. Transformei-me num adolescente inteligente e admirado. No movimento pastoral, aprendi a me levantar contra as injustiças (inclusive contra aquelas de que eu era vítima); aprendi o que era a homossexualidade e que havia outros iguais a mim, o que me levou a passar da vergonha para o orgulho do que era. Cursei, depois de um disputado vestibular, um dos mais cobiçados colégios técnicos da Bahia. E virei orgulho de meus pais, irmãos e de todos os meus familiares e vizinhos que me insultaram. Tanto que, no dia em que saí de casa de vez, rumo a Salvador, os olhos de minha mãe amada diziam: “Meu filho, vá com Deus que esse mundo inteiro é seu”. E é!

Mas eu e outros poucos que escapamos dos destinos imperfeitos ainda somos exceções. A regra é ser expulso de casa ou fugir como meio de sobreviver; é descer ao inferno da exclusão social e da falta de oportunidades; ou ter o futuro abortado pela violência doméstica, como aconteceu com o pequeno Alex…
Hoje eu quis, do fundo de meu coração, ter encontrado Alex antes de sua morte violenta e trazê-lo para preto de mim; quis voltar o tempo e livrá-lo da miséria em Mossoró e das mãos de seu algoz; de chamá-lo de “filho”; olhar em seus olhos e dizer “Por onde você for, eu te seguirei com meu pensamento pra te proteger”; quis apresentá-lo à minha mãe para que ela dissesse, a ele, “seu pai era igual a você quando criança e hoje eu tenho muito orgulho dele”…
Não deu, Alex. O destino nos contrariou: não nos quis juntos. Mas, em minhas orações, eu vou pedir a Deus, se é que ele existe mesmo, que ilumine sua alma…

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 23:39

“Tem que apanhar para virar homem”. Quantos mais morrerão?

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Vejam a que ponto pode chegar a barbárie e a crueldade humana, fruto do preconceito, da ignorância e também de discursos de ódio proferidos das tribunas legislativas desse país.

Um garoto de 8 anos faleceu após ser espancado em Bangu, na Zona Oeste do Rio, e o próprio pai é o acusado. Segundo reportagens divulgadas pela imprensa, o pai alegou em depoimento à polícia que bateu na cabeça do filho porque ele não queria cortar o cabelo e confessou que batia com frequência no garoto para que ele “virasse homem” e para que o filho “não virasse gay” já que o menino não se enquadrava nos padrões de gênero masculino impostos pela nossa sociedade.

Esse horrível episódio me fez lembrar da minha própria infância, por volta dos 5 anos de idade, quando eu tive consciência que eu ocupava um lugar no mundo e já a partir daí eu não me identificava com as coisas consideradas de meninos; mesma idade em que a injúria se apresentou em minha vida, partindo dos adultos, inclusive de meu próprio pai, e sendo reproduzida pelas outras crianças, inclusive pelas minhas irmãs. Apelidos ofensivos, xingamentos, imitações jocosas, arremedos. Enfim, uma série de humilhações que não raramente vinham acompanhadas de violência física por parte dos adultos e das outras crianças.

Vocês conseguem imaginar quais sentimentos uma criança que é submetida cotidiana e ininterruptamente a essa situação pode nutrir sobre o mundo e sobre si mesma? Se para um adulto capaz de se defender são insuportáveis a injúria e a difamação — e muitos deles recorrem à Justiça para enfrentar a injúria e a difamação —, imaginem para uma criança! E há o agravante de que essa criança injuriada não conta com proteção nem defesa alguma na escola. Muito pelo contrário, as humilhações ali se multiplicam, sendo que os professores muitas vezes culpam a criança pelas humilhações que ela sofre.

Infelizmente este garoto de Bangu teve-lhe retirado o direito à vida por meio de um crime brutal, crime fruto do preconceito e da ignorância do pai que não compreende a diferença entre orientação sexual, gênero e identidade de gênero; um crime que é fruto também de discursos de ódio de Deputados Federais, Senadores, Deputados Estaduais e Vereadores – discursos direcionados contra quem foge do comportamento social de gênero e sexualidade que nos são impostos – e que trabalham para negar a cidadania plena para a população LGBT.

Discursos como o de um deputado federal fluminense, um vestígio do fascismo que esteve no poder durante as mais de duas décadas de ditadura militar, que propaga aos quatro cantos, sob proteção da imunidade parlamentar, que nenhum pai tem orgulho de um filho gay e que um filho gay deve apanhar para aprender a “ser homem”; esta é uma das muitas frases utilizadas por parlamentares para provocarem e falarem fundo nos preconceitos da população. Nós temos que desmoralizar e desconstruir estas figuras em nome de um país democrático e da livre convivência dos diferentes.

Solidarizo-me com a família do garoto e coloco o meu mandato à disposição para o que necessitarem; apesar da dor que sinto no momento com essa triste morte de um criança que tinha toda uma vida pela frente, façamos da dor uma força nessa nossa luta para que, um dia, casos como este não mais ocorram.

Isso precisa mudar. Urgente!

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014 LGBTs | 17:01

As pessoas trans não são invisíveis. Mas você as vê?

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De todas as identidades que compõem a sopa de letras que convencionamos em chamar “comunidade LGBT”, as pessoas travestis, transexuais e transgênero, identificadas pela letra “T”, aparecem sempre no último lugar. E não é apenas na sigla. Elas constituem um dos grupos socialmente mais vulnerados, estigmatizados e vitimizados pelo preconceito alheio, pela violência muitas vezes letal e pela discriminação em quase todos os âmbitos da vida pública e privada, começando muitas vezes pela própria família.

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O Estado lhes nega um dos direitos mais básicos e elementares de todo o ser humano, reconhecido em quanto tratado de direitos humanos exista no mundo, que é o direito à identidade. Vivem e morrem como NN, sem contar sequer com uma carteira de identidade com seu nome real, aquele pelo qual se sentem chamadas, e nos poucos casos em que conseguem tê-la, precisam percorrer para isso um longo caminho de advogados, médicos, psicólogos e juízes. A rejeição, a incompreensão e o desprezo se abatem sobre elas, na maioria dos casos, desde a mais tenra infância, na própria família, que as expulsa de casa com vergonha. Na rua, são obrigadas a viver na marginalidade, criando laços de solidariedade entre elas, mas invisíveis ou desprezíveis para a maioria dos outros. A escola não as entende e, em vez de recebê-las de braços abertos, acaba obrigando-as a pedir para sair. Até ir no banheiro é um desafio e pode resultar em violência ou constrangimento. O mercado de trabalho não tem um lugar para elas, a não ser a prostituição, ou, no melhor dos casos, alguns poucos empregos específicos, como o salão de beleza ou o telemarketing. Como a prostituição não é regulamentada, quem opta por essa profissão — muitas vezes numa idade em que isso não deveria acontecer, porque ainda não é escolha mas exploração criminal — sofre na rua a perseguição e os abusos da polícia e é obrigada a conviver diariamente com a violência. A exclusão e o desemprego, ou o emprego precário, não vêm sozinhos, e a maioria das pessoas trans, além de sofrer as consequências do estigma que pesa sobre elas, são pobres numa sociedade brutalmente desigual. A prevalência das DST é mais alta entre elas e a taxa de homicídios lhes reserva um lugar de trágico privilégio, inclusive em relação ao resto das pessoas LGBT, já que os crimes de ódio contra pessoas trans são sempre mais, e mais selvagens, mais cruéis. Não morrem de uma facada, mas de dez, e quando uma travesti é assassinada dessa maneira, a imprensa, na maioria dos casos, diz que foi morto “um” travesti e cita aquele nome que só existe nos papeis mas ninguém conhece, negando a identidade da vítima até no seu epitáfio.

As pessoas trans estão últimas até na luta pelos seus direitos. Diferentemente de gays e lésbicas, que temos conseguido, nos últimos tempos, começar a vencer preconceitos, ganhar empatia de boa parte da população e conquistar direitos que antes nos eram negados, elas são discriminadas inclusive na própria comunidade da diversidade sexual e suas demandas mais básicas são ignoradas pela maioria dos políticos e dos movimentos sociais. Até as representações artísticas que dizem alguma coisa sobre elas, na maioria dos casos, as invisibilizam: filmes, peças e novelas sobre travestis e transexuais são protagonizadas por atores e atrizes cisgênero — e muitas dessas obras são excelentes, com atuações memoráveis, mas por que uma atriz travesti não pode fazer de travesti no cinema? — e nos espaços artísticos que eles e elas conquistaram, fazendo stand up, dançando ou cantando em boates e saunas do ambiente, a arte que produzem não é tratada como arte pelos editais dos programas estatais, pelos sindicatos de artistas ou pela indústria cultural.

Eu peço ao leitor que dedique alguns minutos a lembrar quantas travestis ou transexuais masculinos ou femininas conhece que sejam advogados, médicos, atendentes de loja num shopping, políticos, juízes, gerentes de banco, porteiros, eletricistas, motoristas de ônibus, empresários, professores numa escola ou na universidade, pilotos de avião, enfermeiros, apresentadores de televisão, garis, cientistas. Há gays e lésbicas em todas essas profissões, embora, em muitos casos, ainda sofram preconceito, como o sofrem negros e negras, mas você já viu uma pessoa trans? E se não, ou se são tão poucas que chamam a atenção pela excepcionalidade, qual a razão? Acaso existe algum impedimento natural para que desempenhem algumas dessas profissões? Por que assumimos, como se fosse óbvio, que o lugar de uma travesti é se prostituir, cantar numa boate gay, atender ligações escondida num call center ou cortar o cabelo? Você contrataria uma professora travesti para dar aulas de inglês ao seu filho? Escolheria um homem transexual numa entrevista de emprego para sua loja? Assistiria a um noticiário conduzido por uma mulher transexual?

Hoje é o dia internacional da visibilidade trans. Prestemos atenção à palavra: visibilidade. É algo que eles e elas não podem evitar (não existe armário para quem, da mesma maneira que acontece com os negros e negras, leva escrito no corpo aquele traço de sua identidade que é objeto do preconceito alheio, visível desde a infância, e não tem como ocultá-lo). Contudo, paradoxalmente, poucos grupos sociais são tão invisíveis quando as pessoas trans: invisíveis na família, na escola, na universidade, no emprego, na mídia, na política. Invisíveis são, na maioria das vezes, suas reivindicações. Invisíveis, muitas vezes, num movimento LGBT que se comporta como GGGG. E é esse aspecto político da visibilidade que é lembrado nesse dia. Você consegue ver?

O Brasil tem uma dívida com a comunidade trans. Como deputado federal, apresentei em 2013, junto à minha colega e amiga Érika Kokay (PT-DF), um projeto de lei de identidade de gênero, a lei “João Nery” (nome escolhido em homenagem ao autor do maravilhoso livro “Viagem solitária”, que narra a vida de João, um homem transexual cuja luta muito me inspira). Se aprovada, essa lei permitirá às pessoas trans mudarem de nome e de sexo na sua documentação pessoal, com a emissão de uma nova identidade e uma nova certidão de nascimento, sem passar pela humilhação de ser diagnosticadas como doentes mentais (como acontecia, tempo atrás, com os homossexuais), mediante um trâmite simples e rápido. A lei João Nery evitará que Cilene tenha que ir a uma entrevista de emprego com o CV de Felipe, que Maria seja chamada de Cláudio no consultório médico e que Vitor receba seu diploma universitário com o nome de Carmem. Cada um deles terá sua identidade de gênero e seu nome reconhecidos pelo Estado, não como “nome social” (que é uma maneira hipócrita de reconhecer o problema sem solucioná-lo), mas como nome legal. Eles e elas poderão, também, decidir sobre seu corpo, fazer cirurgia de transgenitalização e tratamentos hormonais se quiserem — o que já é possível, com dificuldades, pelo SUS — mas sem que isso seja condição para terem sua identidade reconhecida — porque nem todos querem alterar seu corpo. Será uma lei avançada, que recolhe as melhores experiências internacionais, especialmente a da vizinha Argentina, em cuja lei (mundialmente elogiada) me baseei para elaborar o projeto. A Câmara dos Deputados não pode continuar invisibilizando essa demanda! Peço à comunidade que me ajude para conseguir que a lei João Nery seja aprovada!

Mas é apenas o primeiro passo, que chega tarde. Seus efeitos mais profundos serão visíveis em algumas décadas, mas precisamos reparar as injustiças já cometidas e melhorar a vida de quem foi excluído até agora. Precisamos de políticas públicas de promoção da cidadania trans, que se ocupem de todos os problemas aqui mencionados: a proteção da infância, o acesso à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, a defesa contra o preconceito e a violência. Precisamos de ações afirmativas para a capacitação e a empregabilidade das pessoas trans. Algumas prefeituras têm boas iniciativas, como o projeto “Damas”, da CEDS do Rio de Janeiro, mas o que é necessário é uma política nacional, com orçamento e metas. Incluir aqueles e aquelas que foram injustamente excluídos.

E precisamos, sobretudo, de uma mudança cultural, para que as pessoas trans deixem de ser invisíveis. Isso só será possível com políticas de curto, meio e longo prazo que comecem na escola e que incluam o compromisso dos referentes políticos (quando a presidenta argentina, Cristina Kirchner, entregou pessoalmente as primeiras cédulas de identidade a travestis e transexuais na casa de governo e pediu perdão, em cadeia nacional, em nome do Estado, pela discriminação que elas tinham sofrido a vida inteira, não era apenas uma entrega de documentos o que estava acontecendo, mas uma mensagem para o conjunto da população, bem diferente do que acontece no nosso país, refém do fundamentalismo). Precisamos da ação dos meios de comunicação, do apoio dos sindicatos, do compromisso dos políticos, e de você, também de você.

Você também tem que perceber que eles e elas não são invisíveis. E começar a ver…

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