Publicidade

Arquivo da Categoria homofobia

quarta-feira, 4 de junho de 2014 Crítica, Cultura, homofobia, LGBTs | 11:40

O jogo do adversário

Compartilhe: Twitter

Eu, jogando futebol em Alagoinhas, Bahia. O enquadramento não era exatamente uma qualidade do fotógrafo!Eu, jogando futebol em Alagoinhas, Bahia.
O enquadramento não era exatamente uma qualidade do fotógrafo!

 

Quando contei que o fato de eu não ter, hoje em dia, paixão pelo futebol estava ligado à dolorosa experiência com a homofobia que me abateu na única vez em que, ainda menino, entrei em “campo” para jogar (na verdade, o “campo” era um terreno baldio da periferia onde nasci e me criei); quando eu contei essa história, muitos duvidaram de sua veracidade. Pois, numa daquelas surpreendentes coincidências (ou “sincronicidades”, como o quer Jung), no momento em que recebi o convite do Google para aderir à campanha #ProudToPlay (#JogueComOrgulho, no Brasil), que visa enfrentar a homofobia e o racismo nos jogos da Copa do Mundo, neste momento, uma amiga de minha mãe, Regina, deu-me essas fotos que ilustram o texto. Tenho raras fotos de minha infância (fotografia era artigo de luxo naquela época). Jamais imaginei que houvesse registro de minha única experiência com o futebol. Mas há.E ele foi encontrado em hora oportuna! A foto é mal enquadrada, mas dá para me reconhecer agachado ao lado direito do time.

A foto dá também a dimensão do abandono das periferias e das resistências de sua população, que inventam “campos” quando os governos não lhe dão quadras de esportes. Quem quiser saber um pouco mais dessa minha experiência com o futebol e dos termos de minha crítica à homofobia nesse esporte (Atenção: não estou dizendo que todas as pessoas que praticam ou gostam de futebol são homofóbicas ou racistas; estou dizendo que, infelizmente, há racismo e homofobia na cultura futebolística), quem quiser saber mais leia meu novo livro “Tempo bom, tempo ruim”, cujo trecho reproduzo abaixo.

 

“Não gosto de futebol. Perdoem-me os amigos e leitores que gostam do esporte e/ou o praticam, mas eu, particularmente, detesto futebol. A aversão não é gratuita nem deixa de ser recíproca.

(…)

Como forma de sociabilidade masculina (entendam como ‘sociabilidade masculina’ a vida dos homens entre si), o futebol é fundamentalmente misógino, como mostram o deboche e a indiferença de torcedores e patrocinadores com o futebol feminino, ainda que muitas jogadoras sejam melhores que muitos Ronaldos, Adrianos e Robinhos. É também homofóbico: repousa igualmente na exclusão de gays”

 

Assim como a homofobia me afastou do futebol, ela e o racismo podem afastar outros que – vai saber – poderiam ser grandes atletas (não estou falando do meu caso, pois, ainda que a discriminação não tivesse me afastado do futebol, eu não seria um atleta de talento). Por isso mesmo, aderi à #ProudToPlay quando convidado. O esporte deve nos dar só orgulho!

 

Autor: Tags:

quarta-feira, 12 de março de 2014 CDHM, Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 17:07

Novas ameaças de neonazistas, agora contra o Grupo Matizes

Compartilhe: Twitter

Ataques e ameaças a ativistas de direitos humanos, sobretudo quem defende os direitos da população LGBT, são estratégias recorrentes de intimidação por parte de grupos que não admitem que minorias historicamente estigmatizadas estejam obtendo resultados com as suas lutas. Tais grupos abandonam o jogo democrático e fazem uso de procedimentos criminosos na tentativa de manter tais minorias em posição subalterna.

Essas estratégias obscuras foram utilizadas contra mim em diferentes momentos da minha atuação parlamentar nos últimos três anos: fui ameaçado de morte por defender o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo logo no início do meu primeiro ano de mandato; um blog criminoso de conteúdo racista, misógino e que fazia apologia à pedofilia também publicou um plano para me matar – e eu elaborei um dossiê e levei o caso à Polícia Federal que, após atuação com outros órgãos e milhares de denúncias de usuários, prendeu os responsáveis pelo blog na operação denominada “Intolerância”. Não bastassem as ameaças, eu, meus colegas parlamentares e demais ativistas de direitos humanos fomos vítimas de diversas campanhas difamatórias difundidas por parlamentares fascistas e fundamentalistas, que nos associavam criminalmente à defesa da pedofilia por defendermos uma educação inclusiva e para a diversidade e por defendermos a Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

Em Brasília, a psicóloga Tatiana Lionço e o professor Cristiano Lucas tiveram suas vidas pessoais prejudicadas e sofreram ameaças após suas falas durante o IX Seminário LGBT serem manipuladas em um vídeo divulgado pela internet; na Paraíba, integrantes do Movimento do Espírito Lilás (MEL) tiveram sua sede atacada, enquanto em Porto Alegre um militante do PSOL teve sua casa invadida. Agora, o novo alvo dessas baixas campanhas intimidatórias é o Grupo Matizes, organização responsável por defender os direitos LGBT no Piauí.

A coordenadora do Matizes, Marinalva Santana, vem recebendo graves ameaças de morte de um grupo neonazista que se intitula “Irmandade Homofóbica”. O grupo também ameaçou a proprietária de um salão de beleza que emprega funcionários LGBTs, através de um bilhete deixado em seu carro. As ameaças foram devidamente registradas em boletins de ocorrência.

Diante dessa nova investida, venho a público prestar minha solidariedade ao Grupo Matizes e colocar meu mandato à disposição. Em nome da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos, vamos requerer reuniões com o Ministério da Justiça, a Secretaria de Direitos Humanos e a Polícia Federal para acompanhar o caso e cobrar providências.

É imprescindível e necessária a intervenção de todos os órgãos públicos para garantir a segurança dos e das ativistas vítimas de ameaça no Piauí, bem como uma rigorosa investigação sobre esses grupos criminosos.

Autor: Tags:

quinta-feira, 6 de março de 2014 Cultura, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 21:20

O que cabe em um ano?

Compartilhe: Twitter

Hoje o tempo voa, mesmo sem se sentir que um ano se passou. Um ano desde que escrevi minhas primeiras linhas para o iGay. Lembro-me das cores e dos cheiros daquela tarde de verão quando entrei naquele prédio no centro de São Paulo para discutir com o Tales Faria, vice-presidente editorial e publisher do IG, minha participação numa proposta ousada de abrir espaço em uma das principais companhias de telecomunicações no Brasil para tratar, com seriedade, de temas voltados pra população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

E o que cabem em um ano que escorre pelas mãos? Cabem derrotas, alguns retrocessos, mas também cabem importantes conquistas e avanços.

Em um ano, cabe um governo colombiano rejeitando o casamento igualitário; cabe alguns países criminalizando a homossexualidade; e cabe, aqui no Brasil, um projeto de “cura gay” ser um dos principais temas dentro da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, que durante esse ano foi presidido por um deputado racista e homofóbico, que não faz questão alguma de esconder que seu principal objetivo era o de retroceder em avanços que dizem respeito à dignidade e direitos da comunidade LGBT.

CURTA O IGAY NO FACEBOOK 
Em um ano, cabem articulações com o intuito de vetar o casamento igualitário, inclusive sustando determinações do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), e ainda insistindo em tentar propor plebiscito para questões de Direitos Humanos. Cabe também um relatório da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), que divulgou que houve um aumento de 46,6% dos casos de agressão contra LGBTs, incluindo em suas estatísticas um pastor confundido com ativista e, por isso, agredido em Brasília durante evento de Silas Malafaia.

Mas em um ano também cabem muitos beijos que fizeram história: o beijo das incríveis Fernanda Montenegro e Camila Amado, que trocaram selinhos na campanha contra a permanência de Feliciano na CDHM; e, claro, o primeiro beijo de um casal de homossexuais em uma novela dentro do horário nobre da principal emissora de televisão brasileira. Mateus Solano e Thiago Fragoso, nos papéis de Félix e Niko, fizeram história, e abriram caminho para novas tramas de casais que mostram as diversas cores das famílias brasileiras.

Cabe, depois é apesar dos esforços dos fundamentalistas religiosos que se instalaram na CDHM depois de identificarem nela um trampolim eleitoreiro para seus dogmas teocratas, arquivar aquela proposta absurda de “cura gay”.

Cabe o Brasil inteiro se emocionar, vibrar e se apaixonar com a história de amor de uma das maiores cantoras brasileiras, Daniela Mercury, que se casou com a jornalista Malu Verçosa. E não apenas celebrou seu amor, mas se casou com os mesmos direitos que qualquer casal heterossexual, graças a uma decisão do CNJ, que regulamentou  casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, sendo pela conversão da união estável em casamento ou diretamente. E cabe o primeiro caso no qual a Justiça Federal reconheceu o companheiro de um sargento do exército como seu dependente.

Em um ano cabe celebração de casamento gay em base militar dos Estados Unidos; primeiro político gay na Turquia; leis pró-LGBT em Cuba; o casamento igualitário legalizado na Nova Zelândia, na França, no Uruguai e no Reino Unido; e cabe um pedido de desculpas do Exodus, famoso grupo cristão dedicado à cura da homossexualidade que após 37 anos de charlatanismo pede perdão à comunidade LGBT e encerra atividades.

Hoje celebramos um ano de trabalho. Por aquelas cabriolas ocasionais do destino, essa data de hoje é próxima ao meu aniversário de 40 anos, que celebro agora no dia 10 de março. Nesse inicio de nova década, só quero saber no que pode dar certo. Quero crer no amor numa boa e quero que isso valha pra qualquer pessoa. Quero um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, que acredita no amor, independente de cor, raça, credo, etnia, nacionalidade, gênero, sexo ou orientação sexual. Porque no meu mundo só existe uma lei: a do amor. E é nela em que vou colocar todas as minhas fichas.

Autor: Tags:

homofobia, LGBTs | 00:37

Para Alex, com carinho

Compartilhe: Twitter

Quem me acompanha por aqui sabe que não tenho, por hábito, tratar de minha vida privada nem de minha intimidade. Concentro-me em debater ideias e fatos, sobretudo os ligados ao meu trabalho ou ao meu consumo cultural. Mas hoje vou abrir uma exceção…
Talvez seja a proximidade do aniversário de 40 anos, talvez seja o acúmulo de sentimentos não processados devido ao trabalho árduo dos últimos três anos, mas a verdade é que ando à flor da pele…
Hoje tive uma crise de choro ao ouvir, vinda da lanchonete da esquina, a música “No dia em que eu saí de casa”. A letra descreve quase que em detalhes um episódio de minha vida (e, por isso mesmo, as lembranças de minha mãe foram tão inevitáveis quanto as lágrimas):

“No dia em que saí de casa, minha mãe me disse ‘filho, vem cá’; passou a mão em meus cabelos; olhou em meus olhos e começou falar: ‘por onde você for, eu sigo com meu pensamento sempre, onde estiver; em minhas orações, eu vou pedir a Deus que ilumine os passos seus’.  Eu sei que ela nunca compreendeu os meus motivos de sair de lá, mas ela sabe que, depois que cresce, o filho vira passarinho e quer voar. Eu bem queria continuar ali, mas o destino quis me contrariar… E o olhar de minha mãe na porta, eu deixei chorando a me abençoar! A minha mãe, naquele dia, me falou do mundo como ele é; parece que ela conhecia cada pedra que eu iria por o pé. E sempre ao lado do meu pai, da pequena cidade, ela jamais saiu… Ela me disse assim: ‘meu filho, vá com Deus que este mundo inteiro é seu!”.

ACOMPANHE O IGAY NO FACEBOOK 
Depois de ouvir essa música, ainda sentado ao computador para concluir uns textos, li a matéria de O Globo com a história completa do garotinho Alex, morto a pancadas pelo próprio pai para que “tomasse jeito de homem”. Alex, natural de Mossoró, RN, fora enviado, pela mãe, ao Rio de Janeiro para viver com o pai, desempregado e envolvido com o tráfico de drogas, porque ela, mãe de outros três filhos (também criados por terceiros), poderia perder a guarda de Alex por não enviá-lo à escola, já que não tinha meios para tal.

Olhei a foto do enterro de Alex e meu coração se apertou ao perceber que não havia quase ninguém lá… Sozinha, aquela semente indefesa esmagada violentamente por sua natural exuberância, não tinha ninguém por ela na despedida dessa vida que lhe foi tão injusta.
jean wyllys e mãeMeu coração se partiu e não pude controlar os soluços de choro. Por um instante, vi-me naquele caixão, sem futuro…
Semelhante a Alex, quando criança, eu também não tinha “jeito de homem”; gosta de brincar com as meninas, de roda; de desenhar no chão com palitos de fósforo riscados e pegava, escondido, as bonecas de plástico baratas de minhas primas; semelhante a Alex, eu gostava de cantar e dançar e essa minha diferença me tornava alvo de injúrias e insultos desde que me entendo por gente.

Cresci sob apelidos grosseiros e arremedos feitos pelos de fora. Naquela miséria em que eu vivia na infância, trabalhando desde os dez anos de idade nas ruas, o meu “jeitinho” me fazia vulnerável… e eu sabia disso ou, ao menos, intuía; por isso, dediquei-me aos estudos e ao exercício da minha inteligência. Busquei ser um menino admirável na escola e na Igreja para que meus pais não tivessem desculpas para me bater por aquilo que eu não podia mudar em mim.

Nem minha mãe amada nem meu pai que já se foi me espancaram por eu ser diferente, mas, ante os insultos e as injúrias de que eu era vítima, ambos me pressionavam com olhares e cobranças e meu pai, em particular, com um distanciamento.
Minha estratégia de sobrevivência deu certo, em casa e na escola. Transformei-me num adolescente inteligente e admirado. No movimento pastoral, aprendi a me levantar contra as injustiças (inclusive contra aquelas de que eu era vítima); aprendi o que era a homossexualidade e que havia outros iguais a mim, o que me levou a passar da vergonha para o orgulho do que era. Cursei, depois de um disputado vestibular, um dos mais cobiçados colégios técnicos da Bahia. E virei orgulho de meus pais, irmãos e de todos os meus familiares e vizinhos que me insultaram. Tanto que, no dia em que saí de casa de vez, rumo a Salvador, os olhos de minha mãe amada diziam: “Meu filho, vá com Deus que esse mundo inteiro é seu”. E é!

Mas eu e outros poucos que escapamos dos destinos imperfeitos ainda somos exceções. A regra é ser expulso de casa ou fugir como meio de sobreviver; é descer ao inferno da exclusão social e da falta de oportunidades; ou ter o futuro abortado pela violência doméstica, como aconteceu com o pequeno Alex…
Hoje eu quis, do fundo de meu coração, ter encontrado Alex antes de sua morte violenta e trazê-lo para preto de mim; quis voltar o tempo e livrá-lo da miséria em Mossoró e das mãos de seu algoz; de chamá-lo de “filho”; olhar em seus olhos e dizer “Por onde você for, eu te seguirei com meu pensamento pra te proteger”; quis apresentá-lo à minha mãe para que ela dissesse, a ele, “seu pai era igual a você quando criança e hoje eu tenho muito orgulho dele”…
Não deu, Alex. O destino nos contrariou: não nos quis juntos. Mas, em minhas orações, eu vou pedir a Deus, se é que ele existe mesmo, que ilumine sua alma…

Autor: Tags: , , ,

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 23:39

“Tem que apanhar para virar homem”. Quantos mais morrerão?

Compartilhe: Twitter

Vejam a que ponto pode chegar a barbárie e a crueldade humana, fruto do preconceito, da ignorância e também de discursos de ódio proferidos das tribunas legislativas desse país.

Um garoto de 8 anos faleceu após ser espancado em Bangu, na Zona Oeste do Rio, e o próprio pai é o acusado. Segundo reportagens divulgadas pela imprensa, o pai alegou em depoimento à polícia que bateu na cabeça do filho porque ele não queria cortar o cabelo e confessou que batia com frequência no garoto para que ele “virasse homem” e para que o filho “não virasse gay” já que o menino não se enquadrava nos padrões de gênero masculino impostos pela nossa sociedade.

Esse horrível episódio me fez lembrar da minha própria infância, por volta dos 5 anos de idade, quando eu tive consciência que eu ocupava um lugar no mundo e já a partir daí eu não me identificava com as coisas consideradas de meninos; mesma idade em que a injúria se apresentou em minha vida, partindo dos adultos, inclusive de meu próprio pai, e sendo reproduzida pelas outras crianças, inclusive pelas minhas irmãs. Apelidos ofensivos, xingamentos, imitações jocosas, arremedos. Enfim, uma série de humilhações que não raramente vinham acompanhadas de violência física por parte dos adultos e das outras crianças.

Vocês conseguem imaginar quais sentimentos uma criança que é submetida cotidiana e ininterruptamente a essa situação pode nutrir sobre o mundo e sobre si mesma? Se para um adulto capaz de se defender são insuportáveis a injúria e a difamação — e muitos deles recorrem à Justiça para enfrentar a injúria e a difamação —, imaginem para uma criança! E há o agravante de que essa criança injuriada não conta com proteção nem defesa alguma na escola. Muito pelo contrário, as humilhações ali se multiplicam, sendo que os professores muitas vezes culpam a criança pelas humilhações que ela sofre.

Infelizmente este garoto de Bangu teve-lhe retirado o direito à vida por meio de um crime brutal, crime fruto do preconceito e da ignorância do pai que não compreende a diferença entre orientação sexual, gênero e identidade de gênero; um crime que é fruto também de discursos de ódio de Deputados Federais, Senadores, Deputados Estaduais e Vereadores – discursos direcionados contra quem foge do comportamento social de gênero e sexualidade que nos são impostos – e que trabalham para negar a cidadania plena para a população LGBT.

Discursos como o de um deputado federal fluminense, um vestígio do fascismo que esteve no poder durante as mais de duas décadas de ditadura militar, que propaga aos quatro cantos, sob proteção da imunidade parlamentar, que nenhum pai tem orgulho de um filho gay e que um filho gay deve apanhar para aprender a “ser homem”; esta é uma das muitas frases utilizadas por parlamentares para provocarem e falarem fundo nos preconceitos da população. Nós temos que desmoralizar e desconstruir estas figuras em nome de um país democrático e da livre convivência dos diferentes.

Solidarizo-me com a família do garoto e coloco o meu mandato à disposição para o que necessitarem; apesar da dor que sinto no momento com essa triste morte de um criança que tinha toda uma vida pela frente, façamos da dor uma força nessa nossa luta para que, um dia, casos como este não mais ocorram.

Isso precisa mudar. Urgente!

Autor: Tags:

terça-feira, 12 de novembro de 2013 direitos humanos, homofobia, LGBTs | 17:53

Como se constrói um medo na sociedade

Compartilhe: Twitter

As tentativas de associar a homossexualidade à pedofilia são tão antigas quanto o ódio e a violência homofóbica, embora qualquer pessoa um pouco mais informada sobre o assunto saiba que, estatisticamente, na grande maioria dos casos, o abuso sexual de crianças é cometido contra meninas e os abusadores são pessoas da família: pais, irmãos, tios, avôs. Há abusadores gays, claro, assim como há médicos, garis, cabeleireiros, advogados gays, mas o fato é que são os abusadores héteros os responsáveis pelo maior número dos casos registrados de pedofilia – que é um crime gravíssimo – comprovando assim que esse transtorno não tem nada a ver com a orientação sexual. E boa parte dos casos denunciados de abuso sexual de meninos do sexo masculino é cometido, vale dizer, por padres e pastores, geralmente os mesmos que divulgam discursos de ódio contra os homossexuais. E contra fatos, não há argumentos.

Mas a estigmatização dos gays como potenciais pedófilos continua sendo usada para manter o preconceito e, principalmente, o medo contra nós.

Em seu livro A palavra dos mortos, o jurista Raúl Zaffaroni explica que quando um determinado grupo social é construído como inimigo e colocado como bode expiatório, “sempre se atribuem a ele os piores delitos que, certamente, com demasiada frequência, são os delitos sexuais” e acrescenta, como exemplo, que “quando o papado e o rei da França decidiram se apoderar dos bens dos templários, imputaram-nos de serem gays e lhes atribuíram um inventado ritual de iniciação e sometimento sexual”. Nas legislações homofóbicas repressivas que vigoraram ou ainda vigoram em muitos países, os gays são muitas vezes tratados como sujeitos perigosos para as crianças, abusadores em potência, pederastas, e existem leis que chegam ao extremo de punir “o homossexual que seja visto em público com um menor”, e os mesmos fantasmas são usados, com muita desonestidade, por aqueles que se opõem a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, apelando ao medo e a calúnia.

Não é nada novo — e nem original. Os judeus também foram acusados de devorar crianças, e também os comunistas.

Por isso, não me surpreendeu quando os trolls contratados por lideranças fundamentalistas começaram a tentar vincular meu nome à pedofilia, com postagens criminosas nas redes sociais. Esses canalhas chegaram inclusive a inventar uma “entrevista do deputado Jean Wyllys à CBN” na qual eu teria defendido a pedofilia. É claro que a suposta entrevista não existiu e eu jamais defendi a pedofilia, que combato como segundo vice-presidente da CPI da Exploração Sexual deCrianças e Adolescentes na Câmara dos Deputados. A própria emissora fez uma nota desmentindo a calúnia, mas as postagens dos canalhas continuam se espalhando no Facebook.

Nos últimos dias, recebi um e-mail desesperado de um militante do PSOL que me relatava o que está acontecendo na Paraíba com o ativista gay Renan Palmeira, presidente do Movimento do Espírito Lilás (MEL). O MEL teve a sede e casa de presidente invadidas e Renan foi acusado injustamente no “Disque 100” de repasse de drogas e iniciação de adolescentes em práticas pedófilas. Renan sofreu ataques à sua própria casa, com pichações e depredação. A acusação (anônima) de pedofilia e tráfico é instrumentalizada para provocar a repulsa e indignação da comunidade e promover a violência contra um ativista de direitos humanos.

E não é casual que se trate de um ativista gay e do PSOL, o partido que levanta as bandeiras da comunidade LGBT e dos direitos humanos no Congresso e enfrenta o fundamentalismo e seus aliados políticos. Há uma campanha cada vez mais evidente contra o PSOL, promovida pelas corporações políticas, religiosas, econômicas e de outro tipo que nosso partido — pequeno, mas coerente com as bandeiras que defende e destacado nos parlamentos e prefeituras onde pode mostrar serviço à população— sem dúvidas ameaça. Numa matéria desopilante, que parece lembrar os discursos do regime militar, a Folha noticiou no mês de junho (mês das históricas jornadas que lotaram as ruas do Brasil) que o serviço secreto da Polícia Militar investigava o envolvimento de militantes PSOL na promoção de atos de violência, afirmando que se tratava de ações “semelhantes a atos de guerrilha” (!!). Um militante do PSOL de Porto Alegre, Lucas Maróstica, teve sua casa invadida e seu computador sequestrado e chegou a ser acusado de formação de quadrilha por realizar postagens no Facebook convocando às manifestações populares. Tempos que pareciam superados!

Voltando ao caso, de acordo com Renan, os atos de vandalismo já foram repassados para a Justiça Global, que encaminhou as denúncias para a OEA (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), solicitando proteção. No mês de agosto, na época da XII Parada LGBT, o apartamento de Renan foi arrombado duas vezes, levando objetos pessoais, documentos e o computador. O mais estranho da situação, segundo Palmeira, é que num prédio com 40 apartamentos, apenas o dele foi arrombado — duas vezes —, o obrigando a se mudar de lá. A sede do MEL, que fica na rua Duque de Caxias, foi arrombada também duas vezes, antes e depois da Parada, obrigando também a entidade a se mudar para um local mais seguro. O outdoor da XII Parada da Cidadania LGBT de João Pessoa foi pichado com frases religiosas e, em outra campanha institucional contra a homofobia, o outdoor foi destruído.

As acusações caluniosas por pedofilia envolveram Renan e outros ativistas. O Conselho Tutelar fez a investigação e não encontrou nenhum indício da denúncia, mas em conseqüência dela, o MEL deixou de dar expediente público. Também aconteceu um assassinato: a transexual Shanayne Rodrigues Macena, de 29 anos, que disputou como candidata a vereadora as eleições de 2012 em Nova Floresta e participa do setorial LGBT do PT, foi assassinada brutalmente em 22/07/2012. De acordo com o presidente do MEL, os fatos retratam uma agressão e intimidações contra militantes LGBT e de direitos humanos na Paraíba.

Diante desses gravíssimos fatos, venho a público cobrar a intervenção de todos os órgãos públicos para garantir a segurança de Renan e de todos/as os/as ativistas que estão sendo caluniados, agredidos e ameaçados na Paraíba. É hora de acabar com a violência homofóbica promovida pelo fundamentalismo religioso. E é hora de que o governo federal pare de se omitir e assuma sua responsabilidade política como garante da democracia, das liberdades individuais e da vida e segurança dos brasileiros e das brasileiras.

Leia também:

A palavra dos mortos – artigo de Jean Wyllys

Autor: Tags:

segunda-feira, 15 de julho de 2013 direitos humanos, homofobia, LGBTs | 13:56

Línguas sujas de sangue

Compartilhe: Twitter

Mais duas agressões violentas sofridas por jovens homossexuais por conta de sua orientação sexual – e num intervalo curto entre ambas: no último dia 28 de junho, o assessor parlamentar Gilvan de Melo, 23 anos, foi apedrejado na cabeça no bairro Morumbi, em Uberlândia (MG); e apenas uma semana e um dia depois, em 6 de julho, o jornalista do iG Murilo Aguiar, 25 anos, foi espancado por um funcionário da boate Yatch, em São Paulo (o agressor, contratado por uma empresa terceirizada para trabalhar na casa, cujo público é majoritariamente LGBT, gritava para Murilo, segundo o mesmo, que ele deveria “ler mais a Bíblia” e que “todos os gays têm Aids”).

LEIA TAMBÉM: VIOLÊNCIA NA NOITE EM SP – JORNALISTA É ESPANCADO POR HOMOFOBIA

Em ambos o casos, o preconceito anti-homossexual e o discurso de ódio que o expressa propagados por líderes religiosos fundamentalistas aparecem como pano de fundo. Claro que essa violência dura foi praticada por pessoas adultas capazes e responsáveis por seus atos, mas não foi acaso que as agressões tenham vindo acompanhadas por referências à Bíblia.

A culpa não é da Bíblia, óbvio, mas de fundamentalistas (a maioria tão somente oportunistas sem fé, mas hábeis na exploração comercial e empresarial da fé; alguns cumprindo mandatos em câmaras de vereadores, assembléias legislativas e aqui no Congresso Nacional) que distorcem seu conteúdo para usá-lo principalmente contra a população LGBT, ateus e contra as religiões brasileiras de matriz africana (o Candomblé e a Umbanda).

O vereador Mário Milken (PDT-MG) – de quem Gilvan é assessor – está percorrendo Uberlândia com uma camisa que diz “Deus não é homofóbico”. E ele tem razão. Os vendilhões do templo falam em nome de Deus, mas claro está que o Deus da maioria dos cristãos – ou, pelo menos, o Deus percebido pela maioria cristã – não autoriza nem aprova violência simbólica (injúria, calúnia e difamação) e/ou real (lesões corporais, tentativas de homicídio e assassinatos) contra seres humanos (ainda que estes tenham relações afetivas com pessoas do mesmo sexo ou creiam em outro deus ou não creiam em deus algum). Não foi o Deus percebido e reverenciado pela maioria dos cristãos quem pediu que Gilvan fosse apedrejado ou que Murilo fosse espancado!

“Este aumento da homofobia em Uberlândia e no país [como um todo] tem relação com a defesa da ‘cura gay’ na Câmara. O discurso de intolerância dos fundamentalistas acaba influenciando a violência contra homossexuais e outras minorias”, disse à imprensa local o vereador Milken. E, outra vez, ele tem razão! Não há ação sem idéia que a anteceda. Não há insulto ou violência física contra homossexuais e mães-de-santo sem a crença prévia de que estes não são “criaturas divinas, mas demoníacas”; “não fazem parte do povo eleito e, por isso, devem ser condenados ao inferno se não se converterem”; “não integra a comunidade de ungidos” – crença incutida na mentalidade de gente desesperada ao ponto de não conseguir raciocinar com bom senso em relação a essa intolerância religiosa.

As línguas dos líderes religiosos fundamentalistas – e eu não preciso citá-los porque eles estão aí, visíveis nas mídias – as línguas deles estão sujas do sangue das vítimas da intolerância religiosa!

E antes que apareça aquela gente de má-fé sempre disposta a comparar o número de homicídios motivados por homofobia com o número de homicídios em geral para desqualificar a denúncia da violência homofóbica, eu lhe explico que se as taxas de homicídios em geral expressam uma violência à qual estamos todos expostos, apenas as minorias difamadas (LGBTs, negros, povo de santo, judeus, ateus e indígenas) estão expostas aos crimes motivados por preconceito!

Estamos às vésperas de pôr em votação, na Comissão de Direitos Humanos do Senado, o projeto de lei que enfrenta (não só com com o direito penal nem com o endurecimento deste) essas discriminações motivadas por preconceitos de raça, etnia, idade, religião, procedência, orientação sexual, identidade de gênero e em relação a pessoas com deficiências – o PLC122! Essa discussão se faz, portanto, necessária para que se perceba a importância de ele ser aprovado.

Nos tempos em que eu atuava nas pastorais católicas da Juventude Estudantil e da Juventude do Meio Popular, nós costumávamos entoar um cântico que dizia: “Toda Bíblia é comunicação de um Deus-amor; de um Deus-irmão. É feliz quem crê na revelação; quem tem Deus no coração”. Orgulho-me de ter herdado, dos meus tempos de católico, a crença nesse “Deus-amor, Deus-irmão”. E me pergunto se a razão para líderes fundamentalistas “cristãos” não professarem esse “Deus-amor, Deus-irmão” não é tão somente a possibilidade de que esse Deus diminua seus lucros com a exploração comercial da ignorância…

Conheça o caso de Gilvan:

Página em apoio à mãe de Gilvan: https://www.facebook.com/AjudeDonaEva

Autor: Tags:

quinta-feira, 2 de maio de 2013 homofobia | 16:44

Chegou a hora de falar, vamos ser francos! – Liberdade de expressão versus liberdade de opressão

Compartilhe: Twitter

A entrevista abaixo foi feita, por email, por um jornalista do Portal Imprensa, que não chegou a publicá-la na íntegra (Talvez pelo formato da matéria para a qual ele fez a entrevista, talvez pelo conteúdo das minhas respostas). Como as perguntas me permitiram respostas inspiradas, decidi dividi-las com vocês!

1. Como você avalia a liberdade de expressão hoje no Brasil? A população é livre para falar o que pensa?

A população é livre para falar o que pensa, mas nem todos têm os mesmos meios para serem ouvidos. Umas poucas famílias são donas da maioria dos jornais, revistas, emissoras de rádio e canais de televisão; uns poucos partidos concentram o tempo de TV nas campanhas através de alianças pragmáticas e uns poucos políticos têm dinheiro suficiente para chegar com sua mensagem a milhões de pessoas, seja na constituição de outras mídias (jornais, sites e rádios) seja por meio do aluguel de espaços na programação da tevê aberta. Há uma liberdade de expressão formal, que é importantíssima e custou muito conquistar, mas ainda não há equidade no acesso aos canais efetivos de comunicação para que mais pessoas possam falar e serem ouvidas e para que os temas que fazem parte da agenda pública não sejam apenas os que são decididos por umas poucas pessoas. Não só não há equidade no acesso aos canais de comunicação como essa equidade é postergada quando o Estado se recusa a pôr em votação um novo marco regulatório dos meios de comunicação no Brasil que os faça mais democráticos e voltados aos interesses públicos (e dos públicos, claro). No momento atual, quando fiscais do Estado encontram uma rádio comunitária não legalizada, fecha-a de imediato se ela for ligada a movimentos sociais ou tiver a serviço de causas sociais; caso a rádio esteja ligada a igrejas neopentecostais ou milícias, elas são toleradas. Vê-se, portanto, que, a despeito da declaração formal de liberdade de expressão e de direito a comunicação, só quem tem dinheiro ou está de acordo com o status quo é que goza plenamente dessa liberdade e desse direito. Por outro lado, há os que não têm voz em muitos âmbitos sociais porque o preconceito e a estigmatização os/as silenciam. Quantas vezes ouvimos a fala das travestis, dos quilombolas, dos índios, do povo de santo, das pessoas com deficiências, dos mais pobres, dos encarcerados, dos jovens em conflito com a lei, dos que falam uma variedade estigmatizada do português brasileiro? A massificação da internet e das redes sociais está ampliando a possibilidade de que mais pessoas e setores sociais possam se expressar, e isso é positivo, mas ainda há barreiras de classe no acesso às novas tecnologias; de modo que mesmo estas já estão colonizadas graças à força da grana das grandes corporações de comunicação, incluindo aí as igrejas-empresas que movimentam milhões graças à exploração comercial da fé. Também há brutais barreiras de classe no acesso a uma educação de qualidade, que é fundamental para que as pessoas possam ter acesso à informação e participar de sua produção e do debate público, bem como reconhecer e rechaçar a manipulação e a distorção de fatos e as campanhas difamatórias postas em circulação nas redes sociais pelos verdadeiros inimigos da liberdade de expressão. Precisamos, também, continuar lutando contra os preconceitos de todo tipo, para que aqueles que hoje são estigmatizados e não são ouvidos possam ter sua voz respeitada e reconhecida.

2. Existem limites para a liberdade de expressão? Qual é o limite entre a liberdade de expressão e a ofensa?

É claro que existem limites à liberdade de expressão, como a qualquer outro direito. Alguns exemplos fáceis: a apologia ao crime, a instigação a cometer um crime, o falso testemunho, as calúnias e as injúrias são proibidos pela lei – e isso é um limite à liberdade de expressão, que não pode ser confundida com liberdade de opressão e de violação da dignidade humana alheia. Mas eu imagino que você esteja perguntando isso com relação aos discursos homofóbicos. Eu acho que esse debate seja mais fácil de compreender da seguinte maneira: se alguém fundasse uma Igreja racista que prega que os negros são imundos e irão ao inferno, que suas famílias não são famílias e que eles não devem ter os mesmos direitos que os demais só por serem negros, esse tipo de pregação seria considerada liberdade de expressão? Se alguém usasse a televisão para dizer que os judeus são seres satânicos que destroem a família brasileira, isso seria liberdade de expressão? Lamentavelmente, existe no senso comum (e muitos jornalistas lamentavelmente partilham desse senso comum! ) uma percepção seletiva que impede a muitas pessoas se darem conta de que esse tipo de injúrias são igualmente graves quando são ditas em relação aos homossexuais. E que esses discursos de ódio, tantas vezes repetidos, geram outros tipos de violência, como as lesões corporais e os homicídios. Mais de 300 gays, lésbicas, travestis e transexuais são assassinados a cada ano no Brasil por causa desse ódio aos homossexuais. Eu não estou falando de um assassinato decorrente de um assalto, mas de alguém que mata uma pessoa gay só por ser gay. Ou seja, LGBTs além de serem potenciais vítimas de latrocínios, balas perdidas, violência no trânsito – essa violência urbana que vitima a todos e todas independentemente do gênero e da orientação sexual – são também potenciais vítimas do crime de ódio (e só a estes últimos que se referem as estatísticas que apontam que no Brasil se mata uma pessoa LGBT por dia). Só não entende isso quem não vive, na pele, os horrores de se ser uma minoria estigmatizada; quem não tem sua identidade sexual permanentemente problematizada, injuriada e ameaçada; e só não entende isso quem quer continuar afirmando sua “normalidade” e “superioridade” por meio da ofensa e da ameaça disfarçados de liberdade de expressão. Não é possível que, em nome da liberdade de expressão, haja pessoas instigando ao ódio e à violência contra uma parcela da população.

3. Em entrevista ao programa Saia Justa você comentou que a cantora Joelma perdeu a oportunidade de ficar calada. Em meio à democracia, ela não teria direito de expressar sua opinião, ainda que ela seja contrária à sua? O que tem a dizer sobre o caso?

Ela tem direito, claro. E eu também tenho direito a dizer que ela perdeu a oportunidade de ficar calada e não dizer as estupidezes que ela disse. Ou a liberdade de expressão só é reclamada quando se quer garantir o insulto? Espero que não! Espero que eu possa, em defesa de minha dignidade humana e da dos demais LGBTs, violada pela estupidez da cantora, espero que eu possa expressar o que eu acho dessa estupidez! Ela é uma pessoa famosa, popular, influente. Deveria usar essa influência com mais responsabilidade. Ela disse que, se tivesse um filho gay, tentaria “convertê-lo”, o que, além de ser um equívoco, porque ser gay não é algo ruim, também é impossível, porque ninguém pode “converter” a orientação sexual de outra pessoa. Ninguém deixa de ser homossexual, como ninguém deixa de ser heterossexual. Somos o que somos e ser gay ou hétero não é melhor nem pior, são apenas duas orientações sexuais diferentes. É isso que a ciência unanimemente diz. A Joelma deveria ler, estudar e aprender antes de falar uma burrice dessas, porque esse tipo de fala induz os pais de filhos gays ou lésbicas a não aceitarem seus filhos e tentarem que eles mudem, o que é impossível e só gera sofrimento desnecessário. Além disso, ela perdeu mesmo a oportunidade de ficar calada uma vez que essa declaração estúpida e irresponsável acabou tendo um impacto negativo na carreira dela, já que é enorme o número de gays e travestis que curtiam o Calypso e batiam cabelos nos shows da Joelma e que, agora, repudiam a banda e a cantora. Dizer que ela perdeu a oportunidade de ficar calada não é cercear sua liberdade de expressão, mas tão somente um conselho de alguém que até admirava o Calypso, mas que agora lhe é indiferente.

4. Quem é contra o homossexualismo, por exemplo, pode expor isso em público? De que forma?

Não existe o homossexualismo, nem o heterossexualismo. Existem a homossexualidade, a heterossexualidade e a bissexualidade, que são orientações sexuais. O sufixo “ismo” parece querer dizer que é algum tipo de doença ou de ideologia política, como o paludismo ou o liberalismo. E não: é apenas uma orientação sexual. Desde que eu me entendo por gente – algo que aconteceu entre os cinco e os seis anos de idade – eu venho ouvindo, lendo e vendo toda sorte de insulto e de injúria pelo fato de eu ser gay. Não há espaço de convivência – da família ao local de trabalho, passando pelas escolas, igrejas, clubes, praças e shoppings – em que a homossexualidade não seja insultada ou sirva de motivo para injúrias e humilhações de quem a pratica ou supostamente a pratica (sim, porque não precisa ser homossexual de fato para se ser insultado, basta parecer ser para que o insulto se apresente!). De modo que quem é “contra ao homossexualismo” sempre gozou de liberdade para expressar suas injúrias e insultos e para promover difamações e humilhações. E sempre o fez! Agora, porque estamos reagindo a essa opressão, essa gente se diz ameaçada em sua liberdade de expressão. Não há ameaça alguma! O que há é a reação legítima à violência que sempre foi praticada contra nós e a cobrança por respeito à nossa dignidade humana. E o que eu me pergunto é: o que significa “ser contra”? Há pessoas homossexuais e há pessoas heterossexuais, como há negros e brancos, loiros e morenos, baixos e altos. Ser contra a homossexualidade ou ser contra negritude ou ser contra o cabelo ruivo seria o quê? Não querer que essas pessoas existam? E caso a resposta seja “sim”, o que se deve fazer com os LGBTs, os negros e os ruivos, já que eles existem? Matá-los? Não se pode ser contra a existência de um determinado tipo de pessoas. Isso já aconteceu na história da humanidade e acabou em horrores como Auschwitz! Eu não pratico a heterossexualidade e nem por isso nutro qualquer nojo, aversão ou ódio das pessoas que a praticam ou se sentem e se declaram heterossexuais. A heterossexualidade não me ameaça nem me incomoda; compreendo-a como mais uma expressão da sexualidade humana. Esperava, no mínimo, que os todos os heterossexuais se comportassem assim em relação à minha homossexualidade…

5. Principalmente na internet hoje passamos pela onda do politicamente correto. Quem tem opinião diferente da maioria tende a ser reprimido. Por que você acha que isso acontece? Esta não seria, de certa forma, uma maneira de cercear o direito das pessoas de terem opiniões diferentes uma das outras?

O que você chama de “onda do politicamente correto” eu chamo de fim da passividade dos grupos subalternos e estigmatizados diante do insulto e da humilhação. Não vamos distorcer os fatos! O que, de certa forma, cerceia o direito das pessoas de terem opiniões diferentes é a acusar de “politicamente correto” quem reage ao insulto, à injúria e aos estereótipos humilhantes; quem cerceia opiniões diferentes é quem quer manter no silêncio as vítimas do deboche, da ridicularização, da difamação e dos insultos. Para quem reclama da “onda do politicamente correto”, o bom seria que se continuasse a ofender a dignidade humana de pessoas diferentes e subalternas sem que estas se pronunciassem nem reagissem a essa violência! Quem quer liberdade para ofender e oprimir não pode querer negar a liberdade dos ofendidos e oprimidos de se defenderem da ofensa e da opressão com contra-discusrsos. Não estamos negando o direito de homofóbicos nos representarem de maneira negativa e de tentarem nos humilhar a partir de nossa homossexualidade, mas não se pode esperar que fiquemos calados diante disso nem que não enfrentemos essas representações.

Autor: Tags:

quinta-feira, 7 de março de 2013 CDHM, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 15:29

Luta que segue – o que temíamos se materializou

Compartilhe: Twitter

Luto em Brasília: Grupos protestam contra eleição de Marco Feliciano para a CDHM

Hoje, os defensores, militantes, ativistas dos Direitos Humanos, aqueles e aquelas que dedicam suas vidas, suas lágrimas e seu suor pela causa, estão de luto. Um luto simbólico, mas tão real quanto a História que une as mulheres, os LGBTs, o povo de santo, os negros, as negras e todos os outros grupos difamados ao longo dos tempos. Enquanto a sociedade civil manifestava sua indignação por detrás de seguranças e cordões que barravam sua entrada na casa que é do povo, a Comissão de Direitos Humanos elegia um pastor declaradamente racista e homofóbico para presidir a comissão que foi criada para fazer a ligação entre o parlamento e a população brasileira.

Fiz o que pude, juntamente com meus colegas, amigos e aliados dos Direitos Humanos da população brasileira, Chico Alencar, Ivan Valente, Erika Kokay, Luiza Erundina, Luiz Couto, Padre Tom, Janira Rocha e Domingos Dutra (que renunciou ao cargo que era por ele anteriormente ocupado e liderou a nossa retirada do plenário antes da concretização da ditadura fundamentalista que se instalou na Comissão), e outros, mas nossa pequena “bancada” não teve chances perto da ditadura que ali foi imposta.

Manobra para destruir a CDHM como fórum político da voz das minorias

Sim, o que temíamos – mas não foi uma surpresa – se materializou. O deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Uma Comissão de Direitos Humanos e MINORIAS não pode ser presidida por alguém que se põe publicamente contra MINORIAS! Sendo a CDHM uma comissão política e não legislativa, o objetivo da manobra é DESTRUIR a CDHM como fórum político das vozes das minorias!

Para quem não lembra ou não conhece, Feliciano é aquele pastor cujo discurso público estimula a violação da dignidade humana desses grupos estigmatizados. Foi dele o discurso de que o problema da África negra é “espiritual” porque “os africanos descendem de um ancestral amaldiçoado por Noé”, revivendo uma interpretação distorcida e racista da Bíblia que já foi usada no passado para justificar a escravidão dos negros. Foi ele também que se referiu à AIDS como “o câncer gay”, ressuscitando, pra seus milhares de fiéis, um estigma sobre os homossexuais que julgávamos morto e enterrado.

A tomada da CDHM foi tão orquestrada que nem adiantaram as nossas tentativas de diálogo para que um quadro mais identificado com a garantia dos Direitos Humanos e da dignidade das minorias estigmatizadas fosse indicado. Acompanhem: O PT abriu mão da CDHM, sabendo que o PC do B optaria pela de Cultura. Em seguida, com o PC do B tendo de abrir mão da CDHM, o PSC pegou a comissão. Sabendo que o PSC enfrentaria resistência dos demais membros, o PMDB (Eduardo Cunha, leia-se) abriu mão de suas vagas para o PSC. Com essa manobra, mais o apoio dos fundamentalistas do PSDB, que também cederam suas vagas, o PSC pôde garantir a maioria na CDHM. Após a suspensão da reunião de ontem, uma nova sessão fechada foi marcada pelo presidente Henrique Eduardo Alves para essa manhã, às 9h, e assim garantir o pastor Marco Feliciano na presidência da CDHM.

Nossa nação “subtraída em tenebrosas transações”

Nossa nação continua “subtraída em tenebrosas transações”, como cantou Chico Buarque pra se referir a manobras nos tempos da ditadura. Espero que os movimentos sociais não se cansem de contestar essa manobra e essa indicação absurda. E que outros atores sociais que defendem umESTADO LAICO, a justiça social e a dignidade de minorias entrem nessa batalha também! Nós não desistiremos. Faremos o que for de nossa competência para tentar reverter esse quadro. Já está marcada, inclusive, uma reunião para terça-feira (12), onde discutiremos as nossas alternativas e já estamos recolhendo assinaturas para a criação da Frente Parlamentar em Defesa da Dignidade Humana e Contra a Violação de Direitos, que terá a deputada Luiza Erundina como presidenta. Luta que segue!

Termino com algumas palavras de Mahatma Gandhi, na tentativa de enxergar alguma luz na escuridão que se instalou na luta pelos direitos humanos do Brasil: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido. Não na vitória propriamente dita.”

Autor: Tags:

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. Última