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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015 direitos humanos, Documentário, homofobia | 17:06

As flores vencerão os canhões!

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novaiguacu-bar-policiaO dono de um bar “badalado” na região “nobre” da cidade de Nova Iguaçu ficou “ofendido” com um beijo entre dois rapazes na frente do bar dele, foi repreendê-los e simplesmente SACOU UM REVÓLVER NA FRENTE DE DEZENAS DE TESTEMUNHAS e apontou a arma para o peito de Vinícius Ribeiro, de 20 anos, e ameaçou disparar à queima roupa.

Não consigo nem começar a descrever o horror dessa imagem. Então estamos vivendo em um mundo onde se cala um beijo, uma manifestação de afeto, com uma arma?

O preconceito nos desumaniza e desumaniza o outro; mata, cotidianamente, com desprezo, com negação e com balas. A violência dura contra as pessoas LGBTs – as lesões corporais e os assassinatos – ainda é enorme. No Brasil, em 2014, segundo relatório do Grupo Gay da Bahia divulgado essa semana, foram cerca de 326 LGBTs assassinados por serem LGBTs, quase um assassinato a cada 27 horas. São números alarmantes. Essa violência dura é a expressão letal da injúria e difamação que são cotidianas e as principais violências que se abatem sobre LGBTs. Felizmente, Vinícius escapou de ser vítima da violência dura, mas carrega em si a dor da violência simbólica.

No Rio de Janeiro, estado pelo qual fui eleito, essa violência que atinge a população LGBT (sim, porque enquanto estamos todas e todos sujeitos à violência urbana que pode atingir qualquer um de nós, há uma violência que atinge somente a população LGBT) tem seu maior índice – fora a capital – na Baixada. Segundo relatórios de atendimento do Centro de Cidadania LGBT do RJ, em 2013 foram realizados 4.872 atendimentos, onde 25% das pessoas atendidas foram vítimas de violência homofóbica. Desse total de atendimentos em todo o Estado, 1646 foram realizados na Baixada Fluminense. Na Baixada, Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo e Nova Iguaçu lideram os atendimentos, onde as agressões físicas a LGBTs respondem por 37 (24%) e as agressões verbais por 51 (33%) casos atendidos.

A Baixada Fluminense, segundo dados do Instituto de Secretaria de Segurança Pública de 2013, também lidera a taxa de homicídios no RJ com um aumento de 25% em relação a 2012.  Foram 4.761 homicídios dolosos em todo o Estado, dos 1.728 aconteceram na Baixada. O percentual é quase o mesmo das tentativas de homicídios, que subiram 26% entre 2012 e 2013 na região.  Esse aumento significativo da violência na Baixada, já apontado por especialistas no fato do governo estadual focar as políticas de segurança pública na capital, também reflete, como mostram os números, na violência específica que se abate sobre a população LGBT.

Estava previsto para o mês de Julho de 2013  a inauguração do Centro de Cidadania LGBT Baixada II, com sede na cidade de Nova Iguaçu, mas de acordo com informações da Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado do RJ (SuperDir/Seasdh), o Centro LGBT em Nova Iguaçu não foi instalado por falta de verba do governo estadual. Sei do imenso esforço realizado por toda a equipe da SuperDir/Seasdh para ampliar a garantia de direitos e proteção das pessoas LGBT do RJ, mas também é preciso vontade política do Governo Estadual e das prefeituras em produzir políticas públicas eficazes sem se tornarem reféns dos políticos fundamentalistas religiosos que cada vez mais estão tomando de assalto as Câmaras de Vereadores e as Assembleias Legislativas do país e impedindo a extensão da cidadania para a população LGBT.

A nossa bancada fluminense do PSOL cresceu e vamos pressionar o governo estadual por mais atenção na defesa dos direitos humanos de tod@s, em especial das minorias marginalizadas; e continuaremos fazendo o enfrentamento no parlamento para garantir políticas públicas e ferramentas legais de proteção contra todas as formas de discriminação, além de promover a educação para o respeito à diversidade. Mas isso não basta! Os Estados e Municípios também devem fazer a sua parte.

Neste momento, frente a isso, nos resta recuperar nossa humanidade distribuindo mais amor e mais beijos! Com certeza, as flores vencerão os canhões!

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 Documentário | 11:37

Pessoas e atos – Veja trailer inédito do documentário “O Triângulo Rosa”, sobre os métodos nazistas para cura da homossexualidade

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Está claro – ao menos para nós, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – que não é necessário ter tido relações homossexuais (refiro-me a relações sexuais) para se ser alvo da homofobia, seja esta expressa através do insulto, xingamento, fofoca, insinuação ou arremedo, seja por meio do que chamamos violência dura (espancamentos, estupros “corretivos” e assassinatos). Basta querer ter ou saber que quer ter relações homossexuais para se ser alvo da homofobia. Da mesma forma, basta que o gesto; o modo de andar e/ou de falar ou aquela “delicadeza” que se expressa no gosto por moda, telenovelas, literatura ou divas do cinema e da música (ou aquela “dureza”,  no caso das lésbicas, que se expressa no gosto por futebol e por lutas corporais) manifeste o desejo de ter relações sexuais com pessoas do mesmo gênero para que se seja alvo, no mínimo, da injúria homofóbica.

Sendo assim, podemos afirmar sem medo que há pessoas homossexuais (LGBTs) independente destas praticarem ou não atos homossexuais. Embora esteja igualmente claro para nós, pessoas LGBTs, que o ato homossexual é, mesmo quando restrito a fantasias e vontades não confessadas, um elemento importante de nossa identidade sexual como o são os atos heterossexuais.

E por que me refiro a essa distinção nesse momento em que inauguro este espaço juntamente com iGay? Ora, porque o provável novo presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, pastor Marco Feliciano (PSC-SP), em uma de suas muitas entrevistas e “justificando” sua oposição à cidadania plena de LGBTs, fez uma dissociação entre “pessoas homossexuais” e “atos homossexuais” – dissociação igualmente feita em documentos promulgados pelo Papa e pelo contingente de fundamentalistas religiosos que ocupa as redes sociais com insultos à dignidade de lésbicas, gays e travestis, mas que se recusa a se assumir homofóbico. Essa dissociação consiste em separar os homossexuais – aos quais se deve “amar” e “acolher” no seio das igrejas por “compaixão”  – da homossexualidade (ou do “homossexualismo”, como eles gostam de dizer): “amamos o pecador, mas odiamos e rechaçamos o pecado”: quem já não ouviu essa cantilena diabólica? Para o antropólogo francês Didier Eribon, os porta-vozes desse discurso e suas instituição são “espantosas máquinas de fabricar consciências infelizes e neuroses”. Mas quem achava que essas “máquinas” mortíferas parariam por aí está enganado.

Tramita, na Câmara, proposição legislativa do deputado pastor João Campos (PSDB-GO) relatada pelo deputado evangélico Roberto de Lucena (PV-SP) que quer legalizar psicoterapias de reversão da homossexualidade. Essa proposição tem, claro, o apoio irrestrito do deputado pastor Marco Feliciano. Ou seja, as “máquinas” mortíferas já não querem mais admitir as pessoas homossexuais: agora querem erradicá-las do mapa como uma doença.

Essa defesa de uma “cura” para a homossexualidade não é nova. Ela desperta o fantasma de experimentos tenebrosos com “cobaias” humanas homossexuais pela empresa nazista durante a Segunda Guerra Mundial. O documentário O triângulo rosa e a cura para a homossexualidade – ainda inédito (mas cujo trailer eu divulgo com exclusividade logo abaixo) – conta a história de um médico dinamarquês que trabalhou para as SS  no campo de concentração de BUCHENWALD, aplicando experiências sobre prisioneiros identificados com o triângulo rosa (os homossexuais ou percebidos como tais) que, segundo ele, “curavam” a homossexualidade.

Antes de usar cobaias humanas “ofertadas” por Hitler em nome da cura do “mal” que “punha em risco a procriação da raça pura”, o médico fez experiências com galos e galinhas. Vocês podem imaginar as feridas que esses experimentos deixaram nos corpos e das almas daqueles homossexuais! Ao fim da Segunda Guerra, o médico dinamarquês escapou dos julgamentos de Nuremberg, se refugiou em Buenos Aires e abriu a sua própria clinica no bairro de Palermo. O documentário, dirigido pelo argentino Nacho Steinberg, vai estrear no Brasil ainda este ano e traz, entre outras provas, o depoimento de um sobrevivente dessas experiências macabras.

Precisamos, portanto, evocar nossos espectros contra esses fantasmas que hoje nos assombram no Congresso Nacional, nas tevês abertas e nas redes sociais. Temos o direito de existirmos como pessoas LGBTs com ou sem os atos sexuais que nos ajudam a definir e a viver!

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