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segunda-feira, 2 de junho de 2014 Crítica | 13:29

Uns inverno, outros verão

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“Praia”: esta é a palavra-chave para entender o novo filme de Karim Aïnouz. E não só pelos fatos óbvios de que parte de suas locações é uma praia e de que sua história se inicia com um afogamento na Praia do Futuro, lugar que existe não só na ficção em questão, mas de fato no litoral cearense.

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A palavra “praia” é a chave para abrir o filme de Aïnouz menos pelo seu sentido literal e mais, muito mais, pelo significado que adquire quando empregada em expressões do tipo “Mulher não é a minha praia; eu gosto é de homem” ou “Não curto o verão. Minha praia é o inverno”. Nesse sentido, “praia” quer dizer identidade ou identificação. Donato – personagem interpretado com coragem, entrega e inteligência por Wagner Moura – habita uma praia que não é literal nem metaforicamente a sua. E é o acidente envolvendo Konrad – o turista alemão salvo por ele do afogamento na Praia do Futuro – que lhe mostra isso.

Clemens Schick, Jesuíta Barbosa e Wagner Moura: o trio de atores que brilha em "Praia do Futuro" (Foto: Divulgação)

Clemens Schick, Jesuíta Barbosa e Wagner Moura: o trio de atores que brilha em “Praia do Futuro” (Foto: Divulgação)

Ele aponta a “praia” que Donato habitará no futuro: aquela que lhe caberá sem sobras ou faltas; que lhe trará conforto, segurança e felicidade. A cena em que Donato, pouco depois de ter conhecido Konrad e transado com ele, atrasa em relação ao mergulho da tropa não está ali por acaso (aliás, nenhuma seqüência do filme é excedente). Nessa cena, ele é o peixe que atrasa em relação ao cardume para se interrogar se aquelas são mesmos as águas em que deseja estar e se aqueles são mesmo os peixes que quer em sua companhia…

Donato é um inverno no eterno verão do Ceará (“Quantos homens eram inverno e outros verão?”, pergunta-nos Zé Ramalho) e, por isso, só está feliz aí quando mergulha. A “praia” do futuro de Donato será a fria e nublada Berlim e será também a relação homossexual e afetiva com Konrad. Por essa “praia”, ele fará a dolorosa ruptura (com a família, a pátria e o preconceito) que todos que somos forçados a habitar lugares que não nos cabem fazemos mais cedo ou mais tarde se quisermos ser inteiros e felizes nessa vida. E como ressalta o poeta Antonio Cícero, “pátria, família, religião e preconceito, quebrou, não tem mais jeito”, mesmo que fantasmas dessas “praias” quebradas retornem para tentar colar os cacos do velho mundo (aliás, como o “fantasma” que retorna para cobrar de Donato o preço pela ruptura, o ator Jesuíta Barbosa dá um show de interpretação).

Arrisco-me a pensar que Aïnouz elaborou o argumento de seu filme a partir do sugestivo nome da praia cearense. Ou talvez ele tenha encontrado o lugar ideal para o argumento que tinha em mente: a dor e a delícia que qualquer homem experimenta ao transformar sua paisagem interior e exterior de modo que melhor se reconheça e esteja feliz.

Numa das cenas mais emocionantes do filme (eu chorei nesse momento!), Donato e Konrad, já em sua nova “praia”, dublam a popularíssima música francesa “Aline”, sucesso na voz da Cristophe e cujo verso (em tradução amadora) diz “Eu desenhei sobre a areia seu suave rosto que me sorria. Depois choveu sobre essa praia. Nessa tempestade, ele desapareceu”…

"Praia do futuro" aborda a experiência da passagem do eu imposto para o eu (re)construído a partir da história de um homem homossexual

“Praia do futuro” aborda a experiência da passagem do eu imposto para o eu (re)construído a partir da história de um homem homossexual

A psicanalista Suely Rolnik diz que identidades são “ancoragens” do ser. Alguém (a natureza e/ou a cultura) joga, sem nos consultar, nossa âncora num certo ponto das águas. Pode acontecer de esse lugar onde fomos ancorados nos confortar e agradar até o fim de nossos dias. Pode ser também que esse lugar nos oprima e/ou nos deixe infeliz e, incapazes ou impedidos de levantar a âncora e partir dali, permaneçamos ali, infelizes, até a morte. Mas pode acontecer de a gente levantar a âncora e navegar outras águas por ser insuportável (e fonte de medo, insegurança e infelicidade) estar num lugar que escolheram para a gente ou podemos levantar a âncora e partir por mera curiosidade em relação a outros lugares. Se a razão for só a curiosidade, é certo que retornaremos à conhecida praia onde estivemos ancorados. Porém, se o motivo da partida for a dor insuportável de ter sido ancorado numa praia com a qual não nos identificamos, a ida não tem volta…

Um homem homossexual constrangido a uma vida heterossexual que lhe deixa infeliz e pela metade quando se liberta desta para ser quem ele é de fato só retorna a ela (à vida heterossexual) na fantasia de fundamentalistas religiosos.

“Praia do futuro” aborda a experiência da passagem do eu imposto para o eu (re)construído a partir da história de um homem homossexual, mas nem por isso pode ser classificado como “filme gay”. Sua abordagem ilumina a experiência de outros deslocamentos identitários. Trata-se de um filme memorável e que todos e todas deveriam assistir para saberem mais sobre o outro e sobre si mesmos. Qual é mesmo a sua praia? Já parou para se perguntar?

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sábado, 3 de maio de 2014 Crítica, LGBTs | 05:00

“A parada é outra”

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Por Jean Wyllys

Nesse domingo, participarei da Parada do Orgulho LGBT de SP, como o faço desde 2005, mas, este ano, de um modo diferente: estarei a pé, no chão, acompanhando o “Bloco de Unidade pela aprovação da Lei João Nery” e marchando junto a diversos movimentos sociais, estudantis, políticos e organizações da comunidade LGBT que decidiram se reunir para levar a bandeira da população trans — travestis, transexuais e transgêneros —, que reclamam a aprovação da lei de identidade de gênero João Nery, projeto elaborado por meu mandato, que apresentamos em 2013 junto com a deputada Érika Kokay.

Diz a declaração do Bloco: «Historicamente, o movimento LGBT se centrou quase que exclusivamente em torno das pautas de homens gays, pesando-se as iniciativas pioneiras e exceções. Ficou conhecido por muito tempo como ‘movimento homossexual’ justamente por isso: não parecia se falar de mais nada. Isso se expressa num histórico de temas das paradas do orgulho LGBT, e em especial em São Paulo, que em nenhuma edição colocava em centralidade as pautas das pessoas trans. Prova disso é o fato da Parada ser mais conhecida como “Parada do Orgulho Gay”, sem inclusão das outras categorias. Esse ano, após uma grande mobilização pela mudança do tema e da exigência atendida por reuniões presenciais de diálogo, um acordo com a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo teria conseguido mudar o tema da Parada de 2014 para incluir uma menção expressa ao PL “João Nery” de Identidade de Gênero e à transfobia específica — uma vitória para quem entende as interseccionalidades e opressões específicas que pautam centralmente em sua militância. No entanto, de surpresa, descobrimos que o material de divulgação da Parada ignora este acordo e não o colocou em prática, desrespeitando tanto a pauta em si como a mobilização que pensamos vitoriosa em mudar isso! Nesse sentido, a Frente LGBT* da USP decidiu convidar todos os coletivos, grupos, organizações e militantes LGBT* individuais de todas as regiões da cidade, e quem mais quiser somar, para construir um BLOCO DE UNIDADE, para ir à Parada como uma intervenção unitária pela aprovação da lei “João Nery”, denunciar tal ataque da Associação e pautar a ‘questão’ trans*! Com nossas faixas, cartazes e batucadas, explicitaremos o espaço da Parada como espaço de disputa política para as pessoas LGBT*!».

Como evento político, a Parada precisa ser repensada. Venho propondo isto há pelo menos dois anos aos seus organizadores. Passamos da fase da afirmação da quantidade – já mostramos que somos capazes de reunir multidão em festa do orgulho de ser – e, por isso, devemos investir agora na qualidade do evento em termos de impacto político! Para isto, a Parada precisa levar em conta a responsabilidade coletiva, precisa ser sensível e solidária às vulnerabilidades de alguns integrantes da comunidade LGBT – em especial, às trans -, e precisa se conectar com outras reivindicações e questões prementes do nosso tempo, que têm a ver conosco e que podem nos levar para além do nosso umbigo.

Diante do crescimento do fundamentalismo religioso e suas eficazes estratégias de difamação da comunidade LGBT, investir apenas ou principalmente na festa e no hedonismo (nada contra a ambos, mas não podemos ficar neles apenas), seria a melhor estratégia? Esta é a responsabilidade coletiva à qual me refiro.

Para além desta responsabilidade coletiva, há muitas outras questões que também nos afetam e que são esquecidas, como a mobilidade urbana – e os problemas ambientais dela decorrentes -, o racismo e o extermínio da juventude negra, a violência contra a mulher, entre tantas outras. Há várias formas de fazer essas conexões, desde que a Parada tenha a coragem de deixar de ser sobretudo uma micareta de rua e passe a se organizar em alas que marcham e celebram ao mesmo tempo. Ainda que ao fim tudo terminasse numa enorme festa de largo!

A Parada precisa também aproveitar seu potencial de mobilização para ser solidária a grupos e instituições que dependam da ajuda de outros. Pode, por exemplo, fazer campanhas de arrecadação de alimentos não perecíveis, roupas, remédios e brinquedos e doá-los à caridade ou às escolas carentes.

Quem acredita nesta necessidade de transformação, quiser participar do bloco e marchar com a gente, é só chegar a partir das 10 horas na Avenida Paulista, número 900 (TV Gazeta). Você também pode confirmar sua participação no evento clicando aqui. As pessoas que forem para o bloco na Parada devem levar, cada uma, um quilo de alimento não perecível a ser doado ao trio solidário de Roseli Tardeli, o 11º da fila. O ideal é que as pessoas passem lá, deixem o alimento, identifiquem-se como parte do movimento “A parada é outra” e sigam para o local de concentração, que é próximo ao primeiro trio.

Aderem ao Bloco: Frente LGBT* da USP / DCE Livre da USP / Frente LGBT da FMU / PUC Purpurina / Coletivo RUA – Juventude Anticapitalista LGBT / Junt@s LGBT / Setorial LGBT do PSOL-SP / Igreja da Comunidade Metropolitana / Centro Acadêmico Guimarães Rosa (Relações Internacionais – USP) / Centro Acadêmico de Filosofia da USP

Espero a tod@s vocês lá!!! Não faltem!!!

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quarta-feira, 23 de abril de 2014 Crítica, Cultura, direitos humanos | 11:44

Quem venceu foi a ignorância

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pne-e-a-ideologia-de-gc3aanero-1Sempre costumo dizer que a educação é transformadora. E de fato, é. Ou deveria ser em todos os espaços. A educação proporciona o exercício da (re)invenção de nós mesmos e do mundo à nossa volt, aquilo que a filósofa Hannah Arendt chama de “vida com pensamento”. Uma vida que vai além da mera satisfação de necessidades básicas e da mera repetição de velhos preconceitos.

Ontem a educação de qualidade sofreu um revés. Hoje, em todos os fóruns de educação, discute-se o problema da violência de gênero nas escolas. Um problema que deveria ser combatido, mas que o parlamento determinou que não será. Não será porque, na cabeça de alguns, tratar de “gênero” será uma forma de desconstruir a indentidade de gênero de meninos e meninas, para que eles possam escolher, mais velhos, se serão cis ou transgêneros – ou, como pensam estes, se vão querer ser gays ou não -. Acreditam que tratar de gênero nas escolas será proibir comemorações de dia dos pais ou das mães. Basta uma rápida pesquisa no youtube por “ideologia de gênero” para entender a razão deste entendimento e os interesses por trás dele.

A escola perde a oportunidade de ultrapassar limites mecanicamente impostos pela sociedade, onde a menina tem que ser educada para cuidar do lar. Onde a agressividade do menino é entendida como parte de sua formação, mesmo que leve à violência escolar. A escola perde a chance de formar alunos prontos à vida em uma sociedade diversa, respeitando as diferenças que existem entre todos nós. Perde a chance, também, de se tornar um ambiente acolhedor, livre do bullying. Nada disto interessa aos que se sentem vitoriosos com a retirada dos pontos que fazem referência à promoção da igualdade de gênero.

Bradam alguns que a família tradicional venceu. Não, meus caros. Quem venceu foi a ignorância, que continuará sendo matéria da grade curricular de nossas escolas já tão castigadas pela falta de recursos. Que ao menos o PNE consiga garantir os 10% do PIB à educação, para que não lamentemos mais dez anos perdidos.

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quarta-feira, 12 de março de 2014 CDHM, Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 17:07

Novas ameaças de neonazistas, agora contra o Grupo Matizes

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Ataques e ameaças a ativistas de direitos humanos, sobretudo quem defende os direitos da população LGBT, são estratégias recorrentes de intimidação por parte de grupos que não admitem que minorias historicamente estigmatizadas estejam obtendo resultados com as suas lutas. Tais grupos abandonam o jogo democrático e fazem uso de procedimentos criminosos na tentativa de manter tais minorias em posição subalterna.

Essas estratégias obscuras foram utilizadas contra mim em diferentes momentos da minha atuação parlamentar nos últimos três anos: fui ameaçado de morte por defender o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo logo no início do meu primeiro ano de mandato; um blog criminoso de conteúdo racista, misógino e que fazia apologia à pedofilia também publicou um plano para me matar – e eu elaborei um dossiê e levei o caso à Polícia Federal que, após atuação com outros órgãos e milhares de denúncias de usuários, prendeu os responsáveis pelo blog na operação denominada “Intolerância”. Não bastassem as ameaças, eu, meus colegas parlamentares e demais ativistas de direitos humanos fomos vítimas de diversas campanhas difamatórias difundidas por parlamentares fascistas e fundamentalistas, que nos associavam criminalmente à defesa da pedofilia por defendermos uma educação inclusiva e para a diversidade e por defendermos a Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

Em Brasília, a psicóloga Tatiana Lionço e o professor Cristiano Lucas tiveram suas vidas pessoais prejudicadas e sofreram ameaças após suas falas durante o IX Seminário LGBT serem manipuladas em um vídeo divulgado pela internet; na Paraíba, integrantes do Movimento do Espírito Lilás (MEL) tiveram sua sede atacada, enquanto em Porto Alegre um militante do PSOL teve sua casa invadida. Agora, o novo alvo dessas baixas campanhas intimidatórias é o Grupo Matizes, organização responsável por defender os direitos LGBT no Piauí.

A coordenadora do Matizes, Marinalva Santana, vem recebendo graves ameaças de morte de um grupo neonazista que se intitula “Irmandade Homofóbica”. O grupo também ameaçou a proprietária de um salão de beleza que emprega funcionários LGBTs, através de um bilhete deixado em seu carro. As ameaças foram devidamente registradas em boletins de ocorrência.

Diante dessa nova investida, venho a público prestar minha solidariedade ao Grupo Matizes e colocar meu mandato à disposição. Em nome da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos, vamos requerer reuniões com o Ministério da Justiça, a Secretaria de Direitos Humanos e a Polícia Federal para acompanhar o caso e cobrar providências.

É imprescindível e necessária a intervenção de todos os órgãos públicos para garantir a segurança dos e das ativistas vítimas de ameaça no Piauí, bem como uma rigorosa investigação sobre esses grupos criminosos.

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 23:39

“Tem que apanhar para virar homem”. Quantos mais morrerão?

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Vejam a que ponto pode chegar a barbárie e a crueldade humana, fruto do preconceito, da ignorância e também de discursos de ódio proferidos das tribunas legislativas desse país.

Um garoto de 8 anos faleceu após ser espancado em Bangu, na Zona Oeste do Rio, e o próprio pai é o acusado. Segundo reportagens divulgadas pela imprensa, o pai alegou em depoimento à polícia que bateu na cabeça do filho porque ele não queria cortar o cabelo e confessou que batia com frequência no garoto para que ele “virasse homem” e para que o filho “não virasse gay” já que o menino não se enquadrava nos padrões de gênero masculino impostos pela nossa sociedade.

Esse horrível episódio me fez lembrar da minha própria infância, por volta dos 5 anos de idade, quando eu tive consciência que eu ocupava um lugar no mundo e já a partir daí eu não me identificava com as coisas consideradas de meninos; mesma idade em que a injúria se apresentou em minha vida, partindo dos adultos, inclusive de meu próprio pai, e sendo reproduzida pelas outras crianças, inclusive pelas minhas irmãs. Apelidos ofensivos, xingamentos, imitações jocosas, arremedos. Enfim, uma série de humilhações que não raramente vinham acompanhadas de violência física por parte dos adultos e das outras crianças.

Vocês conseguem imaginar quais sentimentos uma criança que é submetida cotidiana e ininterruptamente a essa situação pode nutrir sobre o mundo e sobre si mesma? Se para um adulto capaz de se defender são insuportáveis a injúria e a difamação — e muitos deles recorrem à Justiça para enfrentar a injúria e a difamação —, imaginem para uma criança! E há o agravante de que essa criança injuriada não conta com proteção nem defesa alguma na escola. Muito pelo contrário, as humilhações ali se multiplicam, sendo que os professores muitas vezes culpam a criança pelas humilhações que ela sofre.

Infelizmente este garoto de Bangu teve-lhe retirado o direito à vida por meio de um crime brutal, crime fruto do preconceito e da ignorância do pai que não compreende a diferença entre orientação sexual, gênero e identidade de gênero; um crime que é fruto também de discursos de ódio de Deputados Federais, Senadores, Deputados Estaduais e Vereadores – discursos direcionados contra quem foge do comportamento social de gênero e sexualidade que nos são impostos – e que trabalham para negar a cidadania plena para a população LGBT.

Discursos como o de um deputado federal fluminense, um vestígio do fascismo que esteve no poder durante as mais de duas décadas de ditadura militar, que propaga aos quatro cantos, sob proteção da imunidade parlamentar, que nenhum pai tem orgulho de um filho gay e que um filho gay deve apanhar para aprender a “ser homem”; esta é uma das muitas frases utilizadas por parlamentares para provocarem e falarem fundo nos preconceitos da população. Nós temos que desmoralizar e desconstruir estas figuras em nome de um país democrático e da livre convivência dos diferentes.

Solidarizo-me com a família do garoto e coloco o meu mandato à disposição para o que necessitarem; apesar da dor que sinto no momento com essa triste morte de um criança que tinha toda uma vida pela frente, façamos da dor uma força nessa nossa luta para que, um dia, casos como este não mais ocorram.

Isso precisa mudar. Urgente!

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terça-feira, 26 de novembro de 2013 Crítica | 16:06

Trans e negra: quando duas discriminações se chocam

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A discriminação contra a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), e a discriminação contra os afrodescendentes são constituintes da cultura brasileira reproduzidos historicamente. Quando duas discriminações se chocam, como é o caso das pessoas trans negras, esse segmento da população é colocado em uma das mais vulneráveis situações da nossa pirâmide social.

No início de novembro uma pesquisa sobre os direitos das trans negras no Brasil, publicada pela ONG internacional Global Rights, corroborou a realidade dessa população, impactada desproporcionalmente por diversas formas de violência física e sexual. O fato também ficou evidente no Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil: ano de 2011, da Secretaria de Direitos Humanos (SDH). Entre mais de 300 assassinatos registrados contra pessoas LGBT no Brasil, 50,5% das vítimas eram travestis e transexuais, enquanto 52% foram auto-identificadas como pretas ou pardas. Mesmo assim, estes números subestimam o panorama da violência contra as negras e negros LGBT. A própria Secretaria de Direitos Humanos da República reconhece que o Brasil sofre de uma “subnotificação de dados relacionados a violências em geral”, ainda mas no caso de pessoas LGBT e com as especificidades de cada segmento desta população.

Segundo um informe recente da Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos, 20 travestis e transexuais foram assassinadas no Brasil, apenas durante os meses de setembro e agosto deste ano de 2013. Isso equivale a um assassinato de uma pessoa trans a cada três dias. Porém, assim como nos levantamentos sobre violência contra pessoas LGBT produzidos pelo Governo Federal, este também não considerou a identidade racial das vítimas. A violência interseccional, aquela que é motivada tanto pelo racismo como pela homo e a transfobia, aparece em todos os casos de violência contra as pessoas LGBT.

Enquanto lésbicas e gays homens podem viver suas vidas no armário, as trans não têm como esconder isso porque não se trata de orientação sexual, mas sim de identidade de gênero, de uma metamorfose do corpo. Após sofrerem exclusão na escola, bullying, exclusão na família, no trabalho, necessariamente acabam indo para a prostituição porque não têm outro meio de sobrevivência. O projeto de lei 4211/2012, conhecido como PL Gabriela Leite, busca proteger essas trabalhadoras do sexo – que estão lá independente de ser por escolha ou por necessidade – com os direitos trabalhistas, aposentadoria, de modo tratá-las com a dignidade que merecem.

Há alguns esforços existentes no Legislativo, que sistematicamente encontram barreiras impostas pela bancada moralista e fundamentalista, mas esse segmento precisa da atenção dos prefeitos, governadores e de políticas públicas que envolvam programas de inclusão que impeçam essas trans negras de cair na prostituição. E que esta seja uma opção, uma alternativa para aquela que quer ser, mas que essa não seja uma condição!

Na ocasião da apresentação do relatório, em Washington, as trans negras chegaram a uma grande conquista: Numa audiência temática sobre os direitos das pessoas trans negra no Brasil diante da Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos, apresentaram depoimentos sobre as suas experiências, e as de tantas outras que já foram silenciadas pela violência intolerante e cruel. Negadas sistematicamente pelo Estado brasileiro dos seus direitos, da sua dignidade, e de uma voz, foram ouvidas.

Enquanto isso, no Brasil, o governo sequer apoia as proposições legislativas em trâmite no Congresso Nacional que buscam dar, além de dignidade, os direitos que lhes são constitucionalmente garantidos. O que significa que o governo claramente não quer tocar nessa questão da cidadania da população LGBT! E, no caso da discriminação racial, embora tenhamos abolido a escravidão formalmente, não houve desde então uma política de estado da população negra para garantir a essa população não só posição no mercado do trabalho, mas também outros direitos sociais, como educação, saúde e cultura.

Esperávamos que, nesses doze anos em que o PT está no poder, que esse governo enfrentasse profundamente a questão da discriminação racial no Brasil. Para não dizer que não houve avanços, houve a aprovação da política de cotas nas universidades e o projeto de lei que garante cotas nos concursos públicos, que ainda será votado, mas, no que diz respeito à população trans, independente de ser afrodescendente ou não, não há nenhuma política pública de vulto por parte do governo. O governo não pode continuar se omitindo no que diz respeito aos direitos desse segmento tão significativo da população!

Ano que vem brasileiras e brasileiros terão novamente oportunidade de eleger seus representantes no Congresso Nacional. Fica a dica não apenas para as pessoas que votam, mas, principalmente, fica a dica para as candidatas e candidatos que querem ter o apoio desse segmento da população!

*Utilizamos o termo “trans” para referir-nos a diversas identidades de gênero, incluindo travestis, transexuais, e transgêneros.

Jean Wyllys é deputado federal pelo PSOL-RJ e integrante da frente parlamentar em defesa dos direitos LGBT.

Adam Frankel é pesquisador de direitos humanos e autor do relatório, Report on the Human Rights Situation of Afro-Brazilian Transgender Women, da Global Rights.

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terça-feira, 15 de outubro de 2013 Crítica, LGBTs | 16:08

Há gays e lésbicas entre os professores. Apoiamos a greve!

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Foto: Clarissa Thomé/Estadão

Neste último domingo, 13, em Copacabana, aconteceu a 18ª Parada LGBT do Rio de Janeiro e eu marchei no chão, em conjunto com diversos grupos independentes que se organizam em diversas lutas a favor da cidadania. Declinei o convite da organização da Parada para desfilar em um dos trios, pois vi uma oportunidade de concretizar, ali naquele momento, essa proposta, que apresentei, em Junho, à organização da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Fiz isso porque acredito ser importante politizar a Parada, que não pode ficar alheia a outras lutas contra a opressão, a discriminação e a injustiça social.

Uma das questões que introduzimos para ampliar a pauta da Parada foi o apoio à luta dos e das profissionais de educação. Em especial no Rio de Janeiro, há duas décadas não há tamanha mobilização destes profissionais insatisfeitos com as políticas educacionais dos governos estadual e municipal que vêm ignorando as reivindicações por melhores salários, um plano de carreira que contemple a categoria, estrutura física, materiais didáticos de qualidade dentre outros pontos de uma extensa pauta.

Na Parada LGBT do Rio, marchei com um cartaz que dizia “Há gays e lésbicas entre os professores. Apoiamos a greve!”; e, por causa disso, nas minhas redes sociais, alguns usuários me questionaram se meu apoio à luta dos professores estaria condicionado ao fato de haver professores LGBTs. Ora, será que não ficou claro – a partir da foto publicada – que as frases do cartaz com que marchei (que foram escritas em tintas diferentes não por acaso) são independentes e buscam apenas relacionar uma manifestação (a Parada do Orgulho LGBT) com outra (a greve dos professores), num esforço de solidariedade entre os dois movimentos? Será que não está claro que precisamos de mais solidariedade entre as causas e as pessoas?

Os “questionadores” e seus comentários – alguns feitos por ignorância e outros por má-fé mesmo – infelizmente comprovam a urgência de se investir em uma educação de qualidade que forme nossos alunos com habilidades e competências necessárias, que vão da interpretação de texto à solidariedade, passando pela ampliação do repertório cultural.

Nossas escolas são resistentes em debater a educação sexual, tornando-se um espaço de sofrimentos tanto para alunos e alunas LGBT quanto para os docentes, que, por receio de terem suas carreiras prejudicadas, quase sempre se silenciam sobre a delícia e a dor de sermos o que somos. Assim, uma educação inclusiva e para a diversidade deve possibilitar que todos os indivíduos que integram o ambiente escolar convivam em harmonia e respeito – e isso vale não apenas para os alunos e alunas, mas também para os docentes e os demais profissionais de educação.

O governo federal e os governos estaduais e municipais precisam investir imediatamente para melhorar a qualidade da educação pública, começando pelo salário dos professores, que, em muitos casos é vergonhoso de fato. Mas, neste dia dos professores, gostaria de lembrá-los de que a tarefa de capacitar nossos alunos e alunas com habilidades e competências como o domínio da escrita com coesão e coerência; de formar cidadãos humanistas, reconhecedores da diversidade cultural, respeitosos da diferença e conscientes dos direitos que lhe cabem, é nossa, professores e professoras, sejam vocês LGBTs ou não!

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