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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015 Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 12:15

A pele que habito – #visibilidadetrans

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Algumas pessoas vêm ao mundo habitando uma pele que não lhes cabe, o que, em muitos casos, pode causar muita dor, angústia e sofrimento. Se alguém de vocês já assistiu ao filme A Pele que Habito, do cineasta Pedro Almodóvar, entenderá o que estou falando: esse filme faz uma alegoria dessa pele que a natureza nos deu, folgada ou apertada demais. A pele é, no filme, a metáfora das identidades sexuais ou de gênero, impostas, sentidas ou reinventadas. Não é raro ouvirmos de pessoas trans um depoimento muito próximo disto – “nasci na pele errada”. Não por acaso, muitas delas buscam cirurgias de transgenitalização (mudança de sexo) para adequar o seu corpo (a sua pele) ao seu eu interior.

Para negar o direito às pessoas trans, muit@s alegam que não devemos subverter o corpo que a natureza nos deu enquanto esquecem que as pessoas estão mexendo em seus corpos o tempo inteiro para que se sintam bem consigo mesmas. É curioso que aquel@s que se levantam estejam permanentemente recorrendo a esse tipo de coisas, sejam aqueles que recorrem ao aparelho ortodôntico para corrigir os dentes tortos que a natureza lhe deu, sejam aqueles que recorrem à lente de contato para corrigir a miopia que a natureza lhes deu, seja a mulher que se utiliza do silicone para ter o seio que deseja, que é diferente daquele que a natureza lhe deu…

Atualmente, as mulheres e os homens trans que necessitam da cirurgia de transgenitalização esperam numa fila de anos; apenas cinco hospitais brasileiros estão credenciados para realizar cirurgias de transgenitalização: o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, o Instituto de Psiquiatria da Fundação Faculdade de Medicina de São Paulo, o Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e, recentemente, o Ministério da Saúde habilitou o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O Projeto de Lei João Nery (PL 5002/2013), que leva este nome em homenagem ao primeiro transhomem operado no Brasil (foto), autor do livro Viajem Solitária, regulamenta as intervenções cirúrgicas e os tratamentos hormonais que se realizam como parte do processo transgenitalização, garantindo a livre determinação das pessoas sobre seus corpos. Uma realidade proporcionada por portarias do SUS que será transformada em lei, através de uma série de critérios fundamentais para seu exercício, como a despatologização, o direito à identidade de gênero sem a obrigatoriedade de cirurgias, a independência entre os tratamentos hormonais e as cirurgias; a gratuidade no sistema público (SUS), a cobertura nos planos de saúde particulares e o fim da judicialização dos procedimentos e da estigmatização das identidades trans.

Leia mais sobre o PL 5002/2013 de minha autoria e da deputada Erika Kokay (PT-DF), aqui: http://goo.gl/R94l3H

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6 comentários | Comentar

  1. 56 Eliana 29/01/2015 18:21

    Também recomendo este filme para entender o que é estar na pele errada, nunca tinha me passado pela cabeça esta angustia, mas senti isso assistindo este filme.

  2. 55 Abilio 31/01/2015 0:30

    Toda pessoa tem o direito de ser como quer ser. A forma que cada individuo se vê deve ser respeitada, pois neste mundo onde tudo é passageiro e nada é eterno, a mudança é algo que deve ser encarada como algo natural, porque nada neste planeta permanece intacto. A própria natureza é testemunha desta realidade. Por isso, mudar seu corpo é um ato natural que deve ser respeitado, pois faz parte do natural.

  3. 54 elizabeth mendes madanelo 31/01/2015 21:10

    Sucesso Jean pois será benéfico para muitos e ,portanto, muito importante!

  4. 53 Andreza Lopes 01/02/2015 10:06

    Bom dia!
    Muito bom o texto. Eu assisti ao filme e reflete bem esse transtorno que é a vida de um trans, embora no filme a ordem natural tenha sido invertida.
    Todas as pessoas que se julgam capacidade a deitar o certo e o errado a esse respeito, deveriam passar pelo mesmo processo que o rapaz do filme, os seres homens são entendem a profundidade e intensidade de uma situação quando vivida por si mesmo.
    Não há como apontar e decidir se o que a outra pessoa está vivendo está certo ou errado, a não ser que as ações vá de encontro às leis e normas de boa convivência social.
    Vemos também, e é muito citada, as leis da Bíblia pra combater as práticas LGBT’s, eu como conhecedora do que lá tem escrito, digo o seguinte:
    “Não julgueis para que sejais julgados, porque com a medida com que julgares, vos ão de julgar a vós, e com a medida com que medirdes, também serás medido.” Mateus cap. 07 vers.1 e 2

  5. 52 Nádia 01/02/2015 13:13

    Oi Jean, sou sua eleitora ,assisti ao filme A pele q habito do Almodovar ,As pessoas são donas de seus corpos e principalmente de suas vidas. Parabéns pela causa nobre. abç

  6. 51 Adriana 23/02/2015 16:56

    Assisti ao filme A pele que hábito de Almódovar e realmente é excelente. Acho incrível a sensação que os filmes do cineasta nos deixa. Questionamentos, vários eu diria. Quando o assisti pensei justamente nas cirurgias plásticas que você citou no texto. É incrível como várias pessoas se deformam fisicamente porque não aceitam o envelhecimento mas, muitas vezes, as mesmas não conseguem aceitar o outro como pessoa, como ser pensante e responsável pelo seu próprio corpo. Acredito que não deva ser uma decisão fácil realizar uma cirurgia de transgenitalização, mesmo já sabendo que o seu eu interior não corresponde a pele que habita. Essa dificuldade talvez se deva justamente pelo preconceito da sociedade e da aceitação da família. No entanto, há vários pais que apoiam as cirurgias plásticas dos filhos para corrigir “imperfeições” e a sociedade aprova. A pergunta que não se cala é: Por que plastificar a sociedade de acordo com as regras do belo é correto e usar a cirurgia para que as pessoas sejam mais felizes é errado? Adoro seus textos. Você tem o dom de escrever Jean Wyllys

 

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