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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015 direitos humanos, homofobia, LGBTs | 00:07

Não há limites para o charlatanismo!

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Vejam, em sua essência, o charlatanismo de fundamentalistas religiosos, empresários da fé, que fazem de tudo para iludir, enganar e, acima de tudo, lucrar em cima de seus fieis: Recebi, há pouco, um flyer virtual de um curso de cinco dias que está acontecendo esta semana no Distrito Federal que promete curar o “homossexualismo[sic]: ajudando, biblicamente, a prevenir e tratar aqueles que desejam voltar ao padrão de Deus para sua sexualidade”, segundo a propaganda. Airton Williams, teólogo, e Claudemiro Soares, especialista em Políticas Públicas e Mestre em Saúde, são os charlatões da vez, que oferecem a cura para os seus “problemas”; um portal mágico para entrar nas normas da sociedade (ou seja, desenvolver o desejo heterossexual). E tudo isso em menos de uma semana. E pela bagatela de R$ 120. Sim, porque ser “normal” tem seu custo…

O que não sabem Airton, Claudemiro e os demais charlatões que oferecem essas “terapias de reversão da homossexualidade” – repudiadas unanimemente pela comunidade científica internacional – é que o “custo” desta oferta mentira criminosa vai muito além. Para alguns adolescentes e jovens que são obrigados, muitas vezes pela própria família, a tentar mudar o que não pode ser mudado, o “custo” é a própria vida. Muitos, quando não acabam com graves transtornos psíquicos, se suicidam (quem não se lembra do trágico fim do Jô em Saulo de Assis Lima, de 23 anos, que se jogou, depois de quase nove horas ameaçando, do alto de uma torre na cidade de Porto Velho porque a família – evangélica – não aceitava sua homossexualidade).

Por convicções puramente religiosas, esses charlatões se consideram no direito não só de ir contra os direitos humanos de milhões de cidadãos e cidadãs brasileiras, mas também de desconstruir um ponto pacífico entre toda uma comunidade científica: nem a homossexualidade, nem a heterossexualidade, e nem a bissexualidade são doenças, e sim uma forma natural de desenvolvimento sexual. Para se ter uma ideia, nos EUA, Darlene Bogle, ex-liderança de um dos mais conhecidos grupos que dizem “curar” a homossexualidade, o Exodus, veio a publico pedir perdão por seus crimes alguns anos atrás, assumindo em coletiva de imprensa a farsa que são estas terapias.

Essas e esses charlatões, além de estarem agindo no vácuo da legalidade, uma vez que o Conselho Federal de Medicina (órgão que possui atribuições constitucionais de fiscalização e normatização da prática médica) não reconhece esse tratamento, estão fazendo justamente o contrário do que o tratamento se propõe a fazer. É claro que existem LGBTs em sofrimento psíquico que se expressa numa culpa de ser homossexual; e é claro que estas pessoas merecem ser ajudadas, mas o que nós precisamos fazer é perguntar o porquê desse sofrimento. Nós vivemos numa cultura homofóbica e desde muito cedo nós LGBTs ouvimos esses preconceitos que se expressam através do insulto, da injúria, da caricatura coletiva, do estereótipo e de todas as formas discursivas que colocam a homossexualidade como subalterna; como os discursos religioso, familiar e o escolar. Só há uma maneira de se livrar desse sofrimento e culpa causado pela cultura homofóbica que produz e reproduz os preconceitos sociais anti-homossexual, e esta é sair da vergonha para o orgulho, assumindo sua homossexualidade contra tudo e contra tod@s, e colocar o seu “eu” em sintonia com o seu desejo. Não negar o desejo.

A confusão que há na sociedade em relação a uma possível “cura gay” – incitada por esse fundamentalismo religioso – é preocupante e precisa ser esclarecida antes que a saúde física e psíquica de mais jovens seja afetada. Apresentarei uma representação criminal perante o Ministério Público do DF, mas o próprio Ministério, além do Ministério da Saúde e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República precisam se posicionar (e logo!) sobre essas práticas que não só representam um perigo para a saúde pública, como também uma grave violação dos direitos humanos e da laicidade garantida pela Constituição Brasileira.

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