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quarta-feira, 13 de agosto de 2014 Sem categoria | 12:48

A cegueira moral (ou onde vamos parar?)

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10561594_731115843603092_4856494401468690371_nO capítulo de hoje de “Império” – a que acabei de assistir na internet – me fez pensar em algo em que nós, unidades da sociedade contemporânea, estamos envolvidos. A trama que envolve Cláudio (José Mayer), o homossexual ou bissexual travado, e Téo (Paulo Betti), o jornalista gay assumido, misógino e maledicente, é mais que uma interrogação sobre um possível “direito ao armário”:

Aguinaldo Silva propõe um debate mais sofisticado e profundo porque em torno de uma das principais manifestações do mal nos dias de hoje: a “colonização da privacidade” alheia, por meio da qual uns tentam se apoderar de segredos dos outros que nunca deveriam vir a público ou dos quais nunca se deveria falar – colonização que se expressa não só no exercício da “imprensa de celebridades” (Caras, Contigo, IstoÉ Gente, Ego, Fuxico et caterva), mas, sobretudo, no compartilhamento de fotos comprometedoras e/ou sex tapes privadas em redes sociais como Facebook e WhatSApp.

Em que medida isso é uma face do mal nos dias atuais? Ora, que subjetividade (eu, ego, caráter) pode sair ilesa de uma difamação ou exposição em larga escala como a que ocorre na internet? Nenhuma! Que sujeito pode ser o mesmo depois de sucumbir ao tribunal do Facebook e à subseqüente pena de linchamento moral que este aplica? Nenhum! Depressão é o sofrimento mínimo: muitos dos “réus” dão cabo da própria vida devido ao linchamento virtual.

A expressão “colonização da privacidade” eu tomei emprestada de Leonidas Donskis; do livro que ele escreveu em parceria com Zygmunt Bauman e que chegou às livrarias no último dia 24 de julho: “Cegueira moral – a perda da sensibilidade na modernidade líquida”.

Meu exemplar foi uma cortesia da editora, a Zahar. Quando o recebi, perguntei-me: “Por que, entre os tantos livros de Bauman que publicou, a Zahar decidiu me mandar justo esse?”. Mas só ao concluir a leitura que cheguei à resposta.

Há, entre o livro escrito por Bauman e Donskis e o meu mais recente (“Tempo bom, tempo ruim – identidade, políticas e afetos”), uma grande afinidade temática e de abordagem (longe, muito longe de qualquer pretensão de me equiparar ao gênio de Bauman, claro!). O papel das redes sociais digitais na banalização de um mal cujos impactos não se restringem ao espaço virtual é um dos temas tratados em ambos os livros. O tempo ruim é este da cegueira moral!

Um dos capítulos de meu livro que mais gostei de escrever é o que trata do “retorno do fascismo” (no sentido do retorno do recalcado, sendo o “recalcado”, aqui, não um adjetivo, mas o particípio passado do verbo recalcar em sua acepção psicanalítica). Sobre esse retorno do mal recalcado por uma tolerância burocratizada, encontrei uma passagem memorável em “Cegueira moral”: “Novas formas de censura [como, por exemplo, a suspensão de perfis no Facebook que publicam fotos de feministas com seios de fora, mães amamentando ou casais do mesmo sexo se beijando] coexistem – da maneira mais estranha – com a linguagem sádica e canibalesca encontrada na internet e que corre solta nas orgias verbais do ódio sem face, nas cloacas virtuais em que se defeca sobre os outros e nas demonstrações incomparáveis de insensibilidade humana (em especial nos comentários anônimos)”.

Não há descrição melhor para o que ocorre nas caixas de comentários de matérias sobre minorias étnicas, religiosas e sexuais, bem como sobre celebridades, publicadas por sites, portais e blogs. Não há descrição melhor para a reação de muitas das pessoas [não a maioria, graças aos deuses!] que comentam meus posts aqui.

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5 comentários | Comentar

  1. 55 Matheus Magalhães 13/01/2015 22:04

    Eu vi muito pouco desta novela mas sabia do caso entre o personagem do Zé Mayer e do garotão bonitão. Estes dias, acabei assistindo um episódio e me pareceu claro que ambos passaram por transformações e “voltaram para o armário”. O problema é que estas ações podem ser interpretadas como uma afirmação moral, de que o retorno para o armário é a melhor opção, desconstruindo a possível capacidade pedagógica da abordagem de um relacionamento entre dois homens em uma novela assistida por muitas pessoas que possuem visões homofóbicas porque seguem o senso comum. Ficou claro que ambos estavam muito felizes, muito mais do que enquanto estavam juntos – através de um retorno para os braços da família (absolutamente tradicional, por sinal) e na descoberta do amor por uma mulher.

    Nada contra, não existem leis que digam que um homem que se apaixona por outro deve se quer se considerar como um homossexual mas as novelas da Globo possuem textos muito simples e é bem claro que existem ordens para que eles permaneçam desta maneira e atinjam o denominador mais comum possível. Dado este cenário, não acho que estes textos tenham capacidade de tratar, com profundidade, de coisas que vão muito além do preto no branco e me parece que, se podem educar as pessoas para uma maior tolerância com a diversidade, devem se ater ao binário de definir claramente os personagens heterossexuais e os homossexuais para não incorrer no risco de envenenar a própria mensagem pedagógica que está sendo explorada. No mundo real, nós sabemos que as coisas não são preto no branco e o gênero é um elemento sociocultural que está sendo desconstruído diariamente mas, em um veículo tão simplório, é preciso não dar o passo maior que perna para não correr o risco de perverter aquilo que quer passar como “moral da história”. Em um texto onde um personagem rejuvenesce sem nenhuma explicação, exigindo uma suspensão da descrença notável, esta sofisticação de tratar sobre a bissexualidade, levando personagens inicialmente “gays” a se interessarem por mulheres, pode facilmente ser interpretada como uma reprimenda moral contra a liberdade sexual, reafirmando os piores discursos carolas que já conhecemos tão bem.

  2. 54 Vera Lucia 17/09/2014 22:59

    Adorei seu texto! E, estou ansiosa em poder ler os livros que vc citou. Agradeço por sua generosidade em dividir conosco – internautas – seus pareceres. Minha mãe também gostou muito.

  3. 53 Alessandra 10/09/2014 9:58

    A questão tem maior profundidade do que parece. Nos dias de hoje existe um anseio de se tornar “celebridade de redes sociais”, expondo o mais intimo do EU sem nem sequer saber se está preparado para suportar tamanha aparição. A distorção entre verdade e realidade é outro ponto que causa grande confusão, pois se vamos as bases da verdade, respeitar ao próximo deveria ser a grande bandeira de todos e não apenas buscar o respeito de uma classe ou “minoria”que se sente assim. Quem respeita ao próximo, respeita a todos independente de. Quem não tem respeito sempre vai achar alguém ou alguma coisa para desrespeitar. Acima de uma cegueira moral, há a espiritual que impede muitos de enxergarem além do que se vê.
    O mundo será mais ajustado quando a verdade estiver acima da realidade e as pessoas amarem ao próximo como a si mesmo. A pergunta que fica é: Você gostaria que fizessem com você o que você faz com os outros?

  4. 52 Hal Po 10/09/2014 8:47

    Jean, considere-se feliz por ter um espaço seu, numa mídia de ampla divulgação, que lhe dá autonomia para transmitir seus pensamentos. Banalização é algo comum hoje em dia. Exemplos? Vivemos num país em que chamar alguém de (e antecipadamente peço perdão pelas palavras) bicha, macaco, veado ou sapatão pode ser considerado crime. Por outro lado, este mesmo país permite que mães dêem à luz a seus filhos no chão de corredores sujos de prontos-socorros, permite que pessoas matem e esquartejem seus cônjuges/filhos, permitem salários absurdamente altos a seus políticos (“eleitos pelo povo”)…a lista é longa. Parece, realmente, que vivemos num país banal. O que vemos nas redes sociais e nas revistas de celebridades não é a origem, mas o reflexo de uma banalidade já instituída.

  5. 51 Rosangela 09/09/2014 18:24

    Desculpa-me mas precisei ler duas vezes para entender o que realmente você queria expressar, volta ao fascismo, sobre o livro ou uma crítica da novela em fim, sobre o que entendi as roupas mudam os armários mudam mas o ser humano continua recalcado, faz parte do nosso ser.

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