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segunda-feira, 14 de julho de 2014 Cultura, direitos humanos, LGBTs | 21:59

Vange, a mulher em nós!

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Compartilho com vocês a homenagem que eu pude prestar à brilhante artista Vange Leonel em vida (quando ainda não éramos amigos de fato), por meio de uma crônica em forma de carta para duas escritoras já admiradas por mim – Vange Leonel e Fernanda Young – e que reproduzo aqui. A crônica traz reflexões sobre a misoginia e o machismo e foi escrita quando eu era colunista da revista G Magazine, entre 2006 e 2007. Eu não me lembro exatamente da data da publicação da crônica, mas há  outro registro de um debate que participei com Vange e a jornalista Ana Fadigas em Abril de 2009, em São Paulo. O título do debate era “A Mulher em Nós”.

Vange é a mulher que permanecerá em nós, brilhando como uma estrela na noite preta! Até um dia, Vange!…

 

10418331_652153598187446_7628660009752715608_n“Para Young & Leonel”

Caras Fernanda Young e Vange Leonel, já manifestei algumas vezes que, nas artes e na política, meus principais ídolos são do gênero feminino. Adoro as mulheres. Em crônica de meu Ainda lembro citei alguns nomes próprios, mas deixei vocês de fora da lista, não porque eu goste menos das duas, mas por causa do pouco espaço. Adoro vocês, sou fã confesso e admito que as artes de vocês me causam impacto, arrepiam-me. Vange, eu guardo com carinho o disco de vinil (o primeiro de sua carreira) em que apareces na capa ofertando um coração arrancado do peito. É lindo você cantando os versos de Caetano Veloso: “É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte”. Guardo também com carinho todas as suas crônicas – elas são um espaço de resistência homossexual feminina numa revista que, embora editada por uma mulher (e talvez por isso), seja quase toda voltada para os gays. Há sempre comentários de que os anos 1960/1970 inauguraram a fase lésbica da MPB e recalcaram as vozes femininas heterossexuais da Era do Rádio. Não sei se esses comentários pode ser tomados como verdade, já que pouquíssimas cantoras dessa nova fase se assumiram lésbicas ou ousaram dizer o nome de seus amores; mas, ao menos, três heroínas decidiram dar identidade sexual às suas artes: Ângela Ro Ro, Cássia Eller e você. O gesto de vocês me fez um ser humano melhor.

Fernanda, você não é lésbica e não é cantora, mas é tão incrível quanto as heroínas que acabei de citar. Admiro a persona que você criou para enfrentar publicamente o macho-adulto-branco sempre no comando, e também para provocar a intelligentsia que torce o nariz para a cultura de massa e o sucesso de seus ícones apenas por rancor e ressentimento mal assumidos. Você é, sem dúvida, um dos nomes mais interessantes da novíssima Literatura Brasileira; torna a TV mais criativa e bem-humorada e, ainda por cima, é linda. Ah, sua carta aberta a Madonna – que eu amo – me inspirou a escrever esta crônica.

Bom, meninas, amigas por afinidade, gostaria de dividir, com vocês, algumas de minhas reflexões sobre gays misóginos (há muitos) e machismo na América Latina. Vocês, mulheres, vão me entender melhor:

É difícil definir o machismo latino-americano porque ele é complexo. Muitos machos manifestam publicamente seu ódio aos gays, mas, no espaço privado, “comem veados” ou dão para eles. O povo vive repetindo que brasileiro é apaixonado por bunda, não importa de quem ela seja. Há machos que dizem em tom de brincadeira: “quando meu pau não subir mais, vou dar o cu para não sair da putaria”; como toda brincadeira esconde uma verdade… As práticas sexuais por si só não definem a identidade sexual de uma pessoa. E, para tornar a coisa ainda mais complexa, há gays – e não são poucos – que adoram e preferem transar com esses machos, mesmo que eles os humilhem publicamente e até os matem quando vêem sua macheza contestada. Há gays que detestam bichas afeminadas e se “travestem” de machos – como bem lembrou João Silvério Trevisan – malhando em academias, livrando-se dos brincos e anéis e se policiando para falar, a cada frase, as palavras “cara”, “man”, “brother” ou “velho”, tão comuns no repertório dos machos. Há outros gays que não gostariam de se travestir de machos, mas se vêem obrigados a fazê-lo para não ficarem sós, sem transas. Tudo isso é manifestação do machismo latino-americano; é repressão ao feminino. Vocês não acham?

Outra coisa: muitos gays não gostam de travestis nem consideram sua existência uma militância em favor da diferença; acontece que a militância das travestis se dá por meio de uma política do corpo, do gesto, do comportamento… As travestis não obedecem a programas políticos convencionais. A política delas é caótica e tem como base o próprio corpo. Antes que me atirem pedras e afirmem que estou defendo a prostituição, quero esclarecer que não se trata disso. Estou falando, em termos práticos, de que, por serem a diferença radical – uma mulher de pau ou um homem de seios – as travestis são mais visíveis e, por isso, funcionam como um escudo para onde aqueles que odeiam homossexuais dirigem suas pedras. Elas são o alvo preferencial dos predadores porque se destacam na paisagem. Os assassinatos de várias travestis serviram para que a sociedade civil debatesse publicamente o preconceito em relação aos homossexuais. Isso é política, doa a quem doer.

A repressão às travestis – mesmo por parte dos gays – é fruto de uma cultura que construiu um lugar subalterno para as mulheres; é, no fundo, uma repressão ao feminino, inclusive ao feminino que existe em todo masculino, em todo homem. Vocês não acham, meninas? Por isso, admiro tanto as mulheres e vocês duas em especial. Obrigado por existirem!

 

 


Para aqueles e aquelas que não conhecem o trabalho de Vange e para aqueles e aquelas que desejam reviver o seu brilhante talento, deixo o vídeo-clipe de “Noite Preta”, tema de abertura da novela Vamp, da Globo, exibida em 1991.

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Washington de Azevedo Lima 05/11/2014 13:05

    Olá Jean. Td bem com vc? Me desculpe por chamar de vc. É um jeito muito carinhoso de respeitar, fora da função de Deputado Federal, não deixando vc muito sério, mas pela pessoa que vc é, além da sua simplicidade e humildade, e muito obrigado pela liberdade de expressão. Fiz uma homenagem pra vc no meu Blog Mirian_Rios – Umas e outras. DIREITOS IGUAIS QUE VC COLOCOU NO SEU BLOG. O meu Blog é totalmente Lesb e outros com Notícias legais para Adolescentes, Jovens, e Adultos e Terceira idade.
    Eu vou deixar aqui, meus 4 Blogs:
    http://www.denzellima.blogspot.com
    http://www.walorgulhoautista.blogspot.com
    http://www.atochanoticias.blogspot.com
    wwwumaseoutrasmirian.blogspot.com
    Abraços irmão.
    Do seu amigo e irmão Washington Lima

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