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sábado, 3 de maio de 2014 Crítica, LGBTs | 05:00

“A parada é outra”

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Por Jean Wyllys

Nesse domingo, participarei da Parada do Orgulho LGBT de SP, como o faço desde 2005, mas, este ano, de um modo diferente: estarei a pé, no chão, acompanhando o “Bloco de Unidade pela aprovação da Lei João Nery” e marchando junto a diversos movimentos sociais, estudantis, políticos e organizações da comunidade LGBT que decidiram se reunir para levar a bandeira da população trans — travestis, transexuais e transgêneros —, que reclamam a aprovação da lei de identidade de gênero João Nery, projeto elaborado por meu mandato, que apresentamos em 2013 junto com a deputada Érika Kokay.

Diz a declaração do Bloco: «Historicamente, o movimento LGBT se centrou quase que exclusivamente em torno das pautas de homens gays, pesando-se as iniciativas pioneiras e exceções. Ficou conhecido por muito tempo como ‘movimento homossexual’ justamente por isso: não parecia se falar de mais nada. Isso se expressa num histórico de temas das paradas do orgulho LGBT, e em especial em São Paulo, que em nenhuma edição colocava em centralidade as pautas das pessoas trans. Prova disso é o fato da Parada ser mais conhecida como “Parada do Orgulho Gay”, sem inclusão das outras categorias. Esse ano, após uma grande mobilização pela mudança do tema e da exigência atendida por reuniões presenciais de diálogo, um acordo com a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo teria conseguido mudar o tema da Parada de 2014 para incluir uma menção expressa ao PL “João Nery” de Identidade de Gênero e à transfobia específica — uma vitória para quem entende as interseccionalidades e opressões específicas que pautam centralmente em sua militância. No entanto, de surpresa, descobrimos que o material de divulgação da Parada ignora este acordo e não o colocou em prática, desrespeitando tanto a pauta em si como a mobilização que pensamos vitoriosa em mudar isso! Nesse sentido, a Frente LGBT* da USP decidiu convidar todos os coletivos, grupos, organizações e militantes LGBT* individuais de todas as regiões da cidade, e quem mais quiser somar, para construir um BLOCO DE UNIDADE, para ir à Parada como uma intervenção unitária pela aprovação da lei “João Nery”, denunciar tal ataque da Associação e pautar a ‘questão’ trans*! Com nossas faixas, cartazes e batucadas, explicitaremos o espaço da Parada como espaço de disputa política para as pessoas LGBT*!».

Como evento político, a Parada precisa ser repensada. Venho propondo isto há pelo menos dois anos aos seus organizadores. Passamos da fase da afirmação da quantidade – já mostramos que somos capazes de reunir multidão em festa do orgulho de ser – e, por isso, devemos investir agora na qualidade do evento em termos de impacto político! Para isto, a Parada precisa levar em conta a responsabilidade coletiva, precisa ser sensível e solidária às vulnerabilidades de alguns integrantes da comunidade LGBT – em especial, às trans -, e precisa se conectar com outras reivindicações e questões prementes do nosso tempo, que têm a ver conosco e que podem nos levar para além do nosso umbigo.

Diante do crescimento do fundamentalismo religioso e suas eficazes estratégias de difamação da comunidade LGBT, investir apenas ou principalmente na festa e no hedonismo (nada contra a ambos, mas não podemos ficar neles apenas), seria a melhor estratégia? Esta é a responsabilidade coletiva à qual me refiro.

Para além desta responsabilidade coletiva, há muitas outras questões que também nos afetam e que são esquecidas, como a mobilidade urbana – e os problemas ambientais dela decorrentes -, o racismo e o extermínio da juventude negra, a violência contra a mulher, entre tantas outras. Há várias formas de fazer essas conexões, desde que a Parada tenha a coragem de deixar de ser sobretudo uma micareta de rua e passe a se organizar em alas que marcham e celebram ao mesmo tempo. Ainda que ao fim tudo terminasse numa enorme festa de largo!

A Parada precisa também aproveitar seu potencial de mobilização para ser solidária a grupos e instituições que dependam da ajuda de outros. Pode, por exemplo, fazer campanhas de arrecadação de alimentos não perecíveis, roupas, remédios e brinquedos e doá-los à caridade ou às escolas carentes.

Quem acredita nesta necessidade de transformação, quiser participar do bloco e marchar com a gente, é só chegar a partir das 10 horas na Avenida Paulista, número 900 (TV Gazeta). Você também pode confirmar sua participação no evento clicando aqui. As pessoas que forem para o bloco na Parada devem levar, cada uma, um quilo de alimento não perecível a ser doado ao trio solidário de Roseli Tardeli, o 11º da fila. O ideal é que as pessoas passem lá, deixem o alimento, identifiquem-se como parte do movimento “A parada é outra” e sigam para o local de concentração, que é próximo ao primeiro trio.

Aderem ao Bloco: Frente LGBT* da USP / DCE Livre da USP / Frente LGBT da FMU / PUC Purpurina / Coletivo RUA – Juventude Anticapitalista LGBT / Junt@s LGBT / Setorial LGBT do PSOL-SP / Igreja da Comunidade Metropolitana / Centro Acadêmico Guimarães Rosa (Relações Internacionais – USP) / Centro Acadêmico de Filosofia da USP

Espero a tod@s vocês lá!!! Não faltem!!!

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Fernanda Martins 03/05/2014 17:41

    Boa tarde Jean!
    Sou uma cidadã brasileira que fica indignada cada vez que vê uma notícia em um veículo de comunicação e fica sabendo por exemplo que os processos criminais não saem do papel.Muito válido incluir os nossos irmãos Trans na pauta da Parada deste ano.Gostaria mesmo é de ver as leis vigorarem,senão a luta é em vão.
    Um grande abraço!
    Nos vemos na parada!

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