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quarta-feira, 23 de abril de 2014 Crítica, Cultura, direitos humanos | 11:44

Quem venceu foi a ignorância

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pne-e-a-ideologia-de-gc3aanero-1Sempre costumo dizer que a educação é transformadora. E de fato, é. Ou deveria ser em todos os espaços. A educação proporciona o exercício da (re)invenção de nós mesmos e do mundo à nossa volt, aquilo que a filósofa Hannah Arendt chama de “vida com pensamento”. Uma vida que vai além da mera satisfação de necessidades básicas e da mera repetição de velhos preconceitos.

Ontem a educação de qualidade sofreu um revés. Hoje, em todos os fóruns de educação, discute-se o problema da violência de gênero nas escolas. Um problema que deveria ser combatido, mas que o parlamento determinou que não será. Não será porque, na cabeça de alguns, tratar de “gênero” será uma forma de desconstruir a indentidade de gênero de meninos e meninas, para que eles possam escolher, mais velhos, se serão cis ou transgêneros – ou, como pensam estes, se vão querer ser gays ou não -. Acreditam que tratar de gênero nas escolas será proibir comemorações de dia dos pais ou das mães. Basta uma rápida pesquisa no youtube por “ideologia de gênero” para entender a razão deste entendimento e os interesses por trás dele.

A escola perde a oportunidade de ultrapassar limites mecanicamente impostos pela sociedade, onde a menina tem que ser educada para cuidar do lar. Onde a agressividade do menino é entendida como parte de sua formação, mesmo que leve à violência escolar. A escola perde a chance de formar alunos prontos à vida em uma sociedade diversa, respeitando as diferenças que existem entre todos nós. Perde a chance, também, de se tornar um ambiente acolhedor, livre do bullying. Nada disto interessa aos que se sentem vitoriosos com a retirada dos pontos que fazem referência à promoção da igualdade de gênero.

Bradam alguns que a família tradicional venceu. Não, meus caros. Quem venceu foi a ignorância, que continuará sendo matéria da grade curricular de nossas escolas já tão castigadas pela falta de recursos. Que ao menos o PNE consiga garantir os 10% do PIB à educação, para que não lamentemos mais dez anos perdidos.

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8 comentários | Comentar

  1. 58 Pedro Sergio de Jesus 27/04/2014 13:30

    A gente ainda vive em um país pobre de tanta coisa. Há tantas doenças graves, mas a ignorância é uma das mais devastadoras.

  2. 57 sheila 26/04/2014 19:18

    Se estivéssemos em uma sociedade ideal, não precisaríamos direcionar nosso foco às minorias. Isto não é uma invenção brasileira. Lembro que em uma sociedade de primeiro mundo, também existem leis e diretrizes que visam uma sociedade mais igualitária. Basta um pouco de compreensão e amor ao próximo para entender que isto faz parte da evolução da sociedade.

  3. 56 Eduardo 26/04/2014 19:00

    Triste pensar em uma sociedade que compactua com o bio-controle já na infância. A escola e a educação seguem como fantoches dos valores conservadores e retrogrados, seguem como ideologia e cultivo da exclusão, privação e ausência de liberdade. O principio do xenofobismo – leia-se racismo e preconceito – é o “reconhecimento em outrém de seus prórpios desejos e medos” – portanto, é claro ao se bloquear a discussão sobre genêros no PNE, que os mesmos bloqueadores pretendem evitar o encontro do seu prórpio carater e ego com o que mais se identificam, a liberdade ê discussão de genros ! E se não for o caso – pergunto a todos contrários à “ideologia de genêros”, qual a nescessidade então e não te-la ? – Satisfação Jean; lamentamos a perda pontual e continue com o ótimo trabalho pelo bem da humanidade !

  4. 55 Diego Guedes 26/04/2014 16:25

    Meu nome é Diego Guedes, tenho 26 anos e estou me formando no Conservatório de Tatuí em Piano Clássico e Fortepiano (área de Música Antiga), uma das maiores e mais exigentes escolas de música da América Latina. Fui premiado, realizei concertos interessantes e tudo isso contrasta com o que minha avó dizia, tão religiosa, que eu não seria mais do que um drogado e doente prostituído, “tomado por um demônio que deveria casar com uma “irmãzinha” para se libertar “, mas nunca deixei de trabalhar e seguir meus sonhos, mesmo tendo meus pais falecidos quando eu era criança e nascido numa favela do litoral de São Vicente/SP. Já ouviram falar de uma região chamada “México 70”?
    Neste momento da minha vida consigo ver as coisas de uma maneira mais ampla, não só a meu respeito, mas em relação a todos os meus ex-colegas de escola, principalmente os homossexuais e percebo que o período de estudos no fundamental e no ensino médio, para mim e para tantos outros, foi o PIOR momento da vida, algo contraditório pois deveria ser o mais prazeroso enquanto aprendíamos mas, pelo contrário, foi um terror total porque, no meu caso, eu fui vaiado, humilhado, agredido físico e psicologicamente inúmeras vezes porque o meu “jeitinho” demonstrava minha sexualidade desde pequeno. Sentia vergonha de dizer, ao chegar em casa, que os meninos sabiam o caminho que eu precisava fazer para chegar em casa e revezavam, um a um, a surra que cada um iria me dar e eu, na minha incapacidade de levantar a mão contra alguém, não sabia como revidar. Tudo isso me fez ser uma criança retraída e tímida, que falava pouco e tinha medo de fazer amizades.
    Crianças e adolescentes que tem prazer de humilhar e bater, de ver o outro encolhido e amedrontado pelo que aprendem em casa. Se a escola não desempenha seu papel de esclarecer desde cedo, claro, teremos adultos tão ou mais agressivos quanto. Cada vez mais é a certeza que tenho: de que os religiosos (boa parte deles, porque tenho amigos evangélicos, católicos, etc, altamente esclarecidos) têm a violência como conveniência, por acreditarem na violência e a ignorância como meio de sobrevivência de sua fé, que através delas nenhuma criança trilhará o “mau caminho”. Como a violência pode ser benéfica pra alguém? Tem que ser muito monstro pra acreditar nisso!
    Isso eu não desejo para nenhuma outra criança e, enquanto os fundamentalistas religiosos acreditam que uma criança “com jeitinho” precisa apanhar pra virar homem (e logo lembro de Jair Bolsonaro e seu poço de ignorância), a escola precisa proteger essa criança e acompanhar o sofrimento dela, não só na escola como em casa.
    Eu fui forte, aguentei, cresci e enfrentei a situação, mas e quanto aos meus colegas de escola que também foram expulsos de casa, que caíram nas drogas, na prostituição, não tiveram a mesma força de vontade e morreram porque passaram pelas mesmas dificuldades? Que perderam suas vidas porque foram excluídas da sociedade?
    Vejo que o assunto é debatido mais abertamente entre pessoas de todas as idades e classes sociais, felizmente, por muito mais pessoas do que quando eu frequentava a escola, mas me entristece saber que outros meninos crescerão sem segurança, sem paz, continuarão apanhando sem entender o porquê nas mãos de uma sociedade hipócrita e tendo suas vidas injustamente destruídas. Que elas tenham força para crescer, serem alguém e mostrar para estes religiosos ignorantes que são muito maiores do que parecem ser e nada pode impedi-los de serem felizes, afinal, não consigo compreender ou aceitar uma sociedade que considera a violência como algo normal e quer subjugar todo um país em nome de uma crença religiosa pessoal.

  5. 54 Marcelo - João Pessoa 26/04/2014 13:23

    Sr. Deputado Jean Willys, concordo que é preciso tipificar certos crimes, como os homofóbicos,de gênero, etc… Mas o Ronaldo do comentário 2 tem plena razão quando ele diz que não adianta palestra contra o bullying ou a violência entre os adolescentes se o código penal os torna isentos de punições rígidas.Quando chego nas igrejas, religiões, movimentos sociais, associações humanas diversas, encontro lideranças de grupo divididas entre os que concordam e os que não concordam com a redução da maioridade penal no Brasil. Só quando se trata de lideranças de Movimentos gays no Brasil é que existe uma unanimidade tão grande: REJEITAM A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL, QUEREM MAIS EDUCAÇÃO…. poxa, os gays admiram tanto países da Europa em que os índices de violência são quase nulos ou bem menores que os brasileiros… países em que é as pessoas são punidas severamente por jogar papel de chiclete no chão. NÃO ENTENDO PORQUE TANTA UNANIMIDADE ENTRE OS GAYS, PORQUE OS GAYS DE DIRETORIA DE MOVIMENTO GAY NUNCA GRITAM QUE PRECISAMOS REDUZIR A MAIORIDADE PENAL… Sem leis rígidas e cadeia não se educa ninguém. Os adolescentes precisam saber que seus crimes serão punidos com rigor. Não sei qual o interesse dos gays diretores de movimento gay em ver bandidos de 17 anos e 11 meses soltos, matando, roubando, aterrorizando as pessoas. Pelo menos, como eles estão soltos nas ruas, fica mais fácil pra alguns gays de “ficar” com eles, ou namorar, se quiserem. Jean, você tem que ver Waldo Vieira, médico dissidente do kardecismo, amigo de Chico Xavier, dizendo no youtube que nossos políticos não reduzem a maioridade penal porque botar todos esses bandidos na cadeia vai custar mais caro, tem que se gastar mais construindo e mantendo cadeias… ele disse a verdade… Mais de 90 por cento do povo brasileiro quer redução da maioridade penal. Se vocês não defendem o interesse de 90% dos brasileiros, vocÊs não nos representam… pelo menos a mim não representam. Um aluno de 17 anos e meio me ameaçou de morte na escola estadual que trabalhava, e disse à sua mãe e diretora, olhando na cara delas e na minha, que podia me ameaçar à vontade, pois não tinha 18 anos, e podia me ameaçar e matar a vontade. Desejo que esse meu ex aluno faça o que ele fez comigo com algum parente de todos esses políticos contra a redução da maioridade penal: só quando eles sentirem na pele a ameaça de morte, saberão que a liberdade desses adolescentes delinquentes, cujo fruto não pode passar de uma aventura amorosa de uma hora com algum interessado, é muito mais perigosa.

  6. 53 Alex 23/04/2014 14:37

    Só me resta assumir que as identidades cis e a heterossexualidade são, na realidade, RIDICULAMENTE frágeis para precisar de tanta “proteção”. E essa fragilidade não é natural, é evidência de que os 90/10 são mantidos na porrada e os números reais seriam bem mais equilibrados sem a tal porrada.

  7. 52 Ronaldo 23/04/2014 12:57

    Como o Senhor tornou público o seu lamento reveste-nos com o direito de discordar. Apesar de sua formação acadêmica na área de educação, acredito que desconheça ou tenha esquecido conceitos fundamentais (lembra , Os Fundamentos da Educação) para o exito do processo ensino-aprendizagem. Sr. Deputado, a escola não é uma ilha , um oásis de excelência que consegue se manter incólume mesmo quando rodeada por mazelas sociais dantescas. A escola é violenta por fazer parte de uma sociedade violenta, a escola é homofóbica por ser a sociedade homofóbica, simples assim. Poderia continuar com essa retórica indefinidamente (escola desigual, racista …) mas irei direto ao ponto. Lendo o seu texto fica clara a sua admiração por Paulo Freire, grande intelectual, mas dentro de um contexto apenas, afinal nos dois sabemos que a Pedagogia do Oprimido funciona bem como panfleto, na prática … o senhor na condição de docente (no seu íntimo ) sabe, é um monte de balela . O professor tem que ser bem capacitado, bem remunerado, trabalhar em uma escola com as condições estruturais necessárias para a nossa prática. Os alunos tem que receber por parte do estado condições minímas para que exerçam sua cidadania. E como se consegue isso senhor deputado? Com amor ? Claro que não, isso se consegue com Leis (o respeito as Leis é inclusive uma vertente econômica significativa, imagina a grana desviada pela corrupção aplicada nas escolas), com a construção de uma sociedade que garanta direitos fundamentais , leia novamente a professora Arendt (…todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política…), com certeza se ainda vivesse se indignaria, com uma sociedade que tenha Leis contra homofobia , delegacias de mulheres … vagões diferenciados por gêneros . Isso tudo que acabei de citar são aberrações jurídicas de uma sociedade que falhou totalmente . Um homossexual não deve ser protegido por sua orientação sexual , a mulher não deve ser protegida devido ao seu gênero. Os seus direitos são inerentes de algo maior, o fato de pertencerem a um estado que garante sua cidadania, e que a condição de “Seres Humanos” é o que garante direitos, inalienáveis . O senhor , na condição de deputado federal eleito pelo meu estado (ainda que não tenha tido o meu voto), tem a obrigação republicana de defender os meus interesses (sei que o senhor conhece bem o vocábulo res publica), que podem ser resumidos em apenas um. Uma sociedade justa. Um Estado de Direito, pois em uma sociedade assim cessam-se as discriminações , as violências e tudo mais que tanto nos afligem . Escola é para ensinar, instrumentalizar e capacitar. Escola reflete a sociedade, não adianta incentivar a diversidade sexual se homofóbicos não são exemplarmente presos, não adianta “palestras” contra o bullyng ou a violência entre os adolescentes se o código penal os torna isentos de punições rígidas. Um abraço, sucesso em sua atividade como congressista , e sem demagogia , ainda que não o queira como meu representante (mas independente de minha vontade o senhor , revestido de um direito institucional, me representa), parabenizo por sua relação , respeitando o contraditório, em suma , por sua atitude como democrata. Um abraço.

  8. 51 Marcelo 23/04/2014 12:16

    O parlamento determinou que não será? Absurdo. O nível de conservadorismo vem crescendo no parlamento, vem se envolvendo com a política. Os conservadores estão conquistando espaço na política, representando pessoas etc. Está mais que na hora do pessoal também se envolver na política no sentido de entrar também no parlamento como político, pois só assim os votos lá serão mais balanceados. Se não tomarmos cuidado, teremos praticamente 100% de conservadores que tem como visão o não respeito a diversidade, a orientação sexual etc. Vão, na prática, mostrar que o Estado de laico não tem é nada. Vamos abrir os olhos, Jean e outros são poucos diante de tantos conservadores radicais lá dentro. Vamos votar cada vez mais em políticos que apoiem a diversidade, orientação, minorias etc. Antes que eles tomem literalmente o poder. Está existindo uma “revolução” sutil deles, vamos abrir os olhos nessa eleição. A maior parte da bancada são formadas por eles, por isso a dificuldade de conquistar certas coisas.

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