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quinta-feira, 10 de abril de 2014 LGBTs | 17:48

Igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual nas escolas: o “ataque aos princípios norteadores da família”

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Há três anos nos debruçamos na construção de um Plano Nacional de Educação que finalmente diga que a escola é um lugar de inclusão, de superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual. A redação proposta pelo relator foi construída com movimentos sociais, organizações da sociedade civil, entre outros grupos, ao longo desses três anos de discussão. Apesar disto, parlamentares ligados a grupos religiosos se opõem a este trecho do projeto e fazem uma suja manipulação das informações a fim de colocar a população contra esta iniciativa.

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A escola não é única, ela é diversa. A escola é formada de gente branca, negra, pobre, mulheres, homens (cissexuais e transexuais), homossexuais, heterossexuais. A escola é um lugar de diversidade! As pessoas homossexuais e transsexuais existem em sua materialidade e não podem ser ignoradas no texto da lei; ignorá-las seria irresponsabilidade, insensibilidade e burrice!

A realidade é que existe o medo por parte desses grupos. Medo de uma educação de qualidade, que desconstrua a nossa cultura de violência discriminatória. Há o medo que esta educação forme uma consciência crítica, que dê às pessoas a possibilidade de uma vida com pensamento, com a possibilidade de não elegerem mais estes demagogos. Há também o medo de uma educação que ensine para as meninas que elas têm vulnerabilidade em uma sociedade machista e misógina e que a posição subalterna que elas ocupam é uma construção cultural, e não algo natural.

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Enfim, mais um dia se passou. Na esperança de finalmente votarmos o Plano Nacional de Educação, nós que nos ocupamos verdadeiramente com a questão da Educação, enfrentamos mais uma extenuante sessão – ao menos dessa vez os fundamentalistas religiosos, fanáticos e suas faixas com exortações contra a “ideologia de gênero” tiveram que dividir o espaço com os coletivos de estudantes, o que serviu para contê-los um pouco; mesmo assim, num dado momento, começaram a rezar, em uníssono, o Pai Nosso; dá para crer? -. Mas infelizmente ela, a sessão, expirou antes que o plano fosse votado.

A bancada evangélica (e que fique claro que essa bancada não representa todos nem mesmo a maioria dos evangélicos desse país) apresentou um “voto em separado” por meio do deputado e pastor Paulo Freire (coitado do educador Paulo Freire, que tem o azar ser homônimo desse senhor). Nesse voto em separado, lido pelo deputado e pastor Ronaldo Fonseca, a bancada evangélica diz que a comunidade LGBT promove “ataques aos princípios norteadores da família”. Ela não exemplifica que “ataques” são esses, mas eu suponho que seja a reivindicação de um ambiente escolar que promova o bem-estar de mulheres em geral, homossexuais e transexuais e esteja livre de bullying e discriminações motivadas por homofobia, racismo e sexismo. Se essa reivindicação – justa e decorrente dos direitos políticos assegurados pela Constituição Federal – é um “ataque aos princípios norteadores da família”, é preciso se perguntar: que “princípios” são esses?

A bancada evangélica não disse a que “ataques” se refere, mas eu digo que ela, sim, ataca os princípios da Constituição Cidadã quando quer negar a existência dos diferentes arranjos ou entidades familiares – as famílias monoparentais, chefiadas só por mães ou pais solteiros; as famílias formadas por casais estéreis ou por casais que não desejam ter filhos; as famílias compostas por casais e filhos adotivos; as famílias estendidas, que nascem do divórcio; e as famílias formadas por dois homens ou duas mulheres, com filhos ou não – já reconhecidos pelo Supremo Tribunal Federal, intérprete último da Constituição Federal e pela sociedade em geral.

O “voto em separado” da bancada evangélica também se refere a “ataques à liberdades públicas”. Não sei a que “liberdades públicas” eles se referem, mas suspeito que sejam as liberdades de oprimir e difamar minorias sexuais, étnicas e religiosas. Quem ataca as liberdades públicas é a bancada evangélica, que, no afã de impor seus dogmas e “valores” a uma sociedade plural e diversa religiosa e culturalmente, difama, em seus cultos e telecultos, as religiões de matriz africana (umbanda, candomblé e etc.), o espiritismo e seus adeptos. Ataques às liberdades acontecem quando a bancada evangélica desrespeita e insulta os ateus; defende a conversão de povos indígenas ao cristianismo por meio da exploração de sua miséria (algumas etnias denunciaram à Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara a invasão de terras indígenas por igrejas evangélicas sob o pretexto da “conversão dos infiéis”); e apresenta projetos para legalizar imposturas como clínicas de “cura gay”.

O “voto em separado” da bancada evangélica não é apenas um monumento ao obscurantismo ou uma ignorância do progresso científico e material que experimentamos nos últimos dois séculos, é um exemplo da pior inserção do ponto de vista religioso na esfera pública: aquele que abre mão da reflexão e do discernimento. Na sequencia da leitura do voto, outro pastor-deputado, o tal de Eurico (cujas feições trazem os sinais de uma amargura e uma infelicidade injustificáveis em alguém que está certo de que será salvo no dia do juízo), falou como representante de toda comunidade cristã, vociferando mentiras tão deslavadas quanto aquelas que arrancam, de fiéis ingênuos, dinheiro em troca de terrenos no paraíso. Ora, esse senhor não representa toda – nem mesmo a maioria da – comunidade cristã! Ele representa apenas os fundamentalistas reacionários e fanáticos!

Num dado momento, o tal deputado-pastor Eurico apresentou o total de telefonemas contra a “ideologia de gênero” feitos à Câmara como prova de “a maioria do povo Brasileiro” estaria contra a agenda de minorias. Eu ri porque é mesmo ridículo a bancada evangélica crer que não somos capazes de inferir que esses telefonemas correspondem a uma ação orquestrada e financiada com o dinheiro (muito dinheiro!) não tributado nem fiscalizado obtido com a exploração comercial da fé de gente pobre e/ou desesperada ou desamparada. É ridículo crer que não sabemos que o enriquecimento desenfreado depende justamente da reafirmação dos preconceitos dos fiéis em relação à homossexualidade e às religiões minoritárias.

Por causa de show de horrores, o PNE não foi votado. Pior: essa bancada nos obrigou a nos concentrarmos nesse ponto, quando o plano é muito maior que isso. O PNE estabelece metas para a educação a serem cumpridas nos próximos dez anos. Entre as diretrizes estão a erradicação do analfabetismo e a universalização do atendimento escolar. O plano também destina 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação – atualmente são investidos no setor 5,3% do PIB brasileiro.

Os demais deputados que não são evangélicos, mas são conservadores (e até mesmo alguns liberais como Gabriel Chalita e Raul Henry) aproveitaram esse rebaixamento promovido pela bancada evangélica para virem com argumentos do tipo “os dois lados estão radicalizando; vou me abster”. Ora, não há “radicalização” por parte de quem trabalhou democraticamente três anos num PNE para o país. Mas há oportunismo por parte de parlamentares que passaram ao largo desse trabalho e agora querem impor sua visão de mundo estreita ao plano, com auxílio de uma claque que segura cartazes contra a “ideologia de gênero”, mas que não faz a menor ideia do que significa ideologia ou gênero.

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14 comentários | Comentar

  1. -36 Cleide de Souza Santos 24/09/2014 11:51

    A forma mais comum do preconceito esta evidente nas descriminações contra o racismo, a opção sexual, na desigualdade social entre outros.séria cabível se o nosso País adotasse a inclusão nas escolas,para no futuro sermos um País civilizado.

  2. -37 marcia rodrigues 19/04/2014 12:34

    Querido jean!!!!

    Gosto quando vc diz que a ala conservadora tem medo de uma educaçao libertadora e consciente,
    vamos lutar tambem pelo voto facultativo, quem sabe a gente consegue isso um dia?

    bjs
    Marcia

  3. -38 Luanda Gabriela 16/04/2014 16:28

    A intolerância religiosa assim como o “pré-conceito” de gênero e raça muitas vezes começam dentro do próprio núcleo familiar por conta da desinformação do nosso árduo passado. Pela ausência de um simples detalhe: OCULTARAM (EMBRANQUECERAM) A NOSSA HISTÓRIA E MATARAM A NOSSA ANCESTRALIDADE.

    Parabéns pelas palavras e com certeza estamos juntos nesta batalha por mim, pelos seus e pelos nossos filhos que se chamam FUTURO PRÓSPERO.

    Empoderar e “reempoderar” a educação para a formação de cidadãos conscientes independente do seu segmento religioso e/ou sexual faz-se NECESSÁRIO.

  4. -39 raul anjos de oliveira 14/04/2014 22:13

    Parabens Jean Wyllys, a educaçao do Brasil precisa de gente como você; precisamos, urgentemente de politicas de inclusão e respeito as diversidades. Nosso país é multicultural, racial entre outras coisas.
    Desejo-lhe sorte nessa empreitada e acredite sempre na educação dos brasileiros.

  5. -40 Hiata Anderson 14/04/2014 18:34

    Parabéns pelo texto. Lamentável ter de lidar com gente que se quer sabe o que significa ‘gênero’. Sou cristão e não compartilho com o festival de estupidez, ignorância e oportunismo, que vem sendo encenado para bancada pseudoevangélica. Tenho vergonha dessa gente.

  6. -41 wellington 14/04/2014 16:48

    perfeito..parabens pela coragem de dizer a verdade!!!

  7. -42 Rodrigo Zmoginski 14/04/2014 16:07

    Jean, você precisa questionar a presença frequente de pastores evangélicos e padres nas escolas do Grande Recife. Se eles condenam uma educação contra a homofobia nas escolas, por que eles podem ficar visitando escolas públicas daqui para darem palestra sobre seus “princípios” aos alunos? Se querem justiça, que seja igualdade para todos!

  8. -43 Paulo Perez 14/04/2014 14:00

    A educação de qualidade é algo que precisamos conquistar, pois a violência e a criminalidade que assola o nosso país são frutos da má gestão pública e de um desenvolvimento humano abaixo das condições ideias. O ECA, artigo 53, diz que a criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho. Essas discussões somente causam animosidade entre as partes e não constrói a paz pública. Você, deputado, precisa ser mais inteligente. Lute para que esse artigo seja cumprido na íntegra e assim construiremos uma sociedade livre, justa e sem preconceitos.

  9. -44 Gilberto 14/04/2014 12:14

    jean, voce não está só nessa luta. E voce perceberá isso nas próximas eleições.

  10. -45 Antonio Carlos Candia Junior 14/04/2014 11:56

    As religiões atrasaram a humanidade durante séculos quando do chamado obscurantismo (Idade Media) onde a Ciência era perseguida e cientistas mandados a fogueira. Se não houvesse esse período nebuloso estaríamos a pelo menos 300 anos na frente em termos de progresso cientifico e tecnológico. Não podemos ceder a grupos religiosos fundamentalistas que querem impor sua visão de mundo a toda a sociedade sobre pena de vermos um atraso grande em nossa sociedade. O Brasil precisa sim de progresso só iremos ter progresso quando grupos religiosos fundamentalistas (Bancada Evangélica) se colocarem em seus lugares.

  11. -46 Sandro 14/04/2014 11:43

    É bem provável que o texto da PNE tenha coisas boas voltadas ao investimento na educação e à sua modernização. Entretanto, nenhum investimento vale o sacrifício de incutir na cabeça de crianças e adolescentes que o seu gênero é uma opção, pois não é. Todos nascemos com apenas dois gêneros – homens e mulheres – e é com essa dignidade que devemos viver. Preciso que o PNE ensine isso a meus filhos, e nada em contrário. Quero também que os ensine a serem tolerantes e acolhedores com aqueles que pensam ou agem diferente, mas sem que seja necessário deturpar a verdade ou relativizá-la.

  12. -47 Március 14/04/2014 10:28

    Caro Ateu, promiscuidade existe entre todos os gêneros, ( vide os motivos da maioria dos crimes passionais) valores tradicionais devem ser revistos. No tempo das cavernas fêmeas arrastadas pelos cabelos como presas era tido com tradição. Ninguém tá propondo aos héteros que tornem-se gays. Não vamos banalizar um assunto que deve ser discutido. Religião ou fé devem ficar no âmbito pessoal, isso ninguém tira de ninguém. Agora, usar de supostas verdades religiosas é um atraso ao país. Essa guerras santas que acompanhamos passivamente há séculos é muito mais indecente e imoral. As pessoas preferem ver homens bombas explodindo escolas, aviões, do que um casal gay afirmar-se como cidadão de bem. Aproveite, já que você deve considerar mais racional por não crer em Deus e aprofunde-se na ética, na política. Não repita preconceitos ancestrais que só vão o tornar até imbecil que qualquer fanático religioso.

  13. -48 Fabio Cristiano Soares 14/04/2014 10:14

    Politica em primeiro lugar e os direitos humanos continua perdendo por ignorancia e por não entenderem os principios nesta questao.

  14. Jean Wyllys 14/04/2014 10:26

    Wagner, uma ode à ignorância esta definição de gênero, um texto desonesto e mentiroso com o objetivo de enganar aqueles cuja preguiça os impede de se informar devidamente.

  15. -49 Wagner 14/04/2014 10:03

    Você já ouviu falar em Ideologia de gênero?

    Categoria: Vídeos

    Publicado em 13 de março de 2014

    Nos dias de hoje temos ouvido isso mais comumente. Isso é um movimento considerado anticatólico, que diz o seguinte: a criança nasce sem um sexo definido. Quando a criança nasce não deve ser considerada do sexo masculino ou sexo feminino; depois ela fará esta escolha. Essa é a chamada Identidade de gênero ou Ideologia de gênero.

    Inclusive, já existem escolas para crianças na Suécia e na Holanda, onde não se pode chamar o aluno de menino ou menina, chama-os apenas de crianças, porque eles devem decidir quando crescerem se serão homens ou mulheres, o que é antinatural.

    Veja o que Prof. Felipe tem a dizer sobre este assunto:

    http://cleofas.com.br/voce-ja-ouviu-falar-em-ideologia-de-genero/

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