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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 Crítica, direitos humanos, homofobia, LGBTs | 23:39

“Tem que apanhar para virar homem”. Quantos mais morrerão?

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Vejam a que ponto pode chegar a barbárie e a crueldade humana, fruto do preconceito, da ignorância e também de discursos de ódio proferidos das tribunas legislativas desse país.

Um garoto de 8 anos faleceu após ser espancado em Bangu, na Zona Oeste do Rio, e o próprio pai é o acusado. Segundo reportagens divulgadas pela imprensa, o pai alegou em depoimento à polícia que bateu na cabeça do filho porque ele não queria cortar o cabelo e confessou que batia com frequência no garoto para que ele “virasse homem” e para que o filho “não virasse gay” já que o menino não se enquadrava nos padrões de gênero masculino impostos pela nossa sociedade.

Esse horrível episódio me fez lembrar da minha própria infância, por volta dos 5 anos de idade, quando eu tive consciência que eu ocupava um lugar no mundo e já a partir daí eu não me identificava com as coisas consideradas de meninos; mesma idade em que a injúria se apresentou em minha vida, partindo dos adultos, inclusive de meu próprio pai, e sendo reproduzida pelas outras crianças, inclusive pelas minhas irmãs. Apelidos ofensivos, xingamentos, imitações jocosas, arremedos. Enfim, uma série de humilhações que não raramente vinham acompanhadas de violência física por parte dos adultos e das outras crianças.

Vocês conseguem imaginar quais sentimentos uma criança que é submetida cotidiana e ininterruptamente a essa situação pode nutrir sobre o mundo e sobre si mesma? Se para um adulto capaz de se defender são insuportáveis a injúria e a difamação — e muitos deles recorrem à Justiça para enfrentar a injúria e a difamação —, imaginem para uma criança! E há o agravante de que essa criança injuriada não conta com proteção nem defesa alguma na escola. Muito pelo contrário, as humilhações ali se multiplicam, sendo que os professores muitas vezes culpam a criança pelas humilhações que ela sofre.

Infelizmente este garoto de Bangu teve-lhe retirado o direito à vida por meio de um crime brutal, crime fruto do preconceito e da ignorância do pai que não compreende a diferença entre orientação sexual, gênero e identidade de gênero; um crime que é fruto também de discursos de ódio de Deputados Federais, Senadores, Deputados Estaduais e Vereadores – discursos direcionados contra quem foge do comportamento social de gênero e sexualidade que nos são impostos – e que trabalham para negar a cidadania plena para a população LGBT.

Discursos como o de um deputado federal fluminense, um vestígio do fascismo que esteve no poder durante as mais de duas décadas de ditadura militar, que propaga aos quatro cantos, sob proteção da imunidade parlamentar, que nenhum pai tem orgulho de um filho gay e que um filho gay deve apanhar para aprender a “ser homem”; esta é uma das muitas frases utilizadas por parlamentares para provocarem e falarem fundo nos preconceitos da população. Nós temos que desmoralizar e desconstruir estas figuras em nome de um país democrático e da livre convivência dos diferentes.

Solidarizo-me com a família do garoto e coloco o meu mandato à disposição para o que necessitarem; apesar da dor que sinto no momento com essa triste morte de um criança que tinha toda uma vida pela frente, façamos da dor uma força nessa nossa luta para que, um dia, casos como este não mais ocorram.

Isso precisa mudar. Urgente!

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28 comentários | Comentar

  1. 78 ROSANGELA GUAZZELLI GAMBA 07/03/2014 12:27

    É com muita tristeza que deixo minhas palavras aqui. O ser humano esta longe de sentir e saber que nos estamos nesse mundo para que o maior sentimento seja colocado em pratica que é o AMOR! Independente de raça cor ou SEXO. Ninguém sabe mais onde está o certo ou errado, todos estão longe de AMAR E RESPEITAR. E saber que a vida começa com uma criança o ser mais puro e lindo e que devemos amar e amar e amar.Que essa criança será o nosso futuro, e se dermos amor carinho atenção e principalmente RESPEITO ela será uma PESSOA maravilhosa. Meu coração esta chorando, em saber que nos evoluímos na tecnologia e não para o preconceito, em amar ao próximo com a ti mesmo, em saber que existem pais como esse que chega a matar por puro preconceito em um PAÍS que se diz democrático.Onde está o nosso governo? Precisamos de leis de orientação de PROTEÇÃO! MEU DEUS QUE TRISTE!!

  2. 77 Vilma Lúcia da Silva 06/03/2014 16:00

    Cuidado, deputado! O garoto sofreu todo tipo de violência da própria família. A mãe é tão culpada quanto o pai, porque batia nele, na cidade de Mossoró/RN, segundo os próprios vizinhos, não o colocou na escola e preferiu entregá-lo ao pai para não ser presa pelo Conselho Tutelar. Ela tem outros filhos e os abandonou, inclusive, um bebê que está passando de mão em mão, enquanto ela finge que era boa mãe desse coitado. Deus o levou pra perto dele, porque a família não soube cuidar.
    Leia a reportagem: http://tribunadonorte.com.br/noticia/conselho-tutelar-deve-ser-acionado/275909

  3. 76 Alecsandra 06/03/2014 15:48

    Precisamos de amor ao próximo e responsabilidade para vivermos em sociedade , respeitando cada pessoa como é.

  4. 75 Sheila 06/03/2014 15:23

    Parabéns Jean, pessoas como você fazem muita falta em nossa medíocre sociedade.
    Sou acadêmica do curso de Pedagogia e o que me chama a atenção é a inclusão social e a vulnerabilidade social, partindo do pressuposto que precisamos mostrar que existe uma luz no fim do túnel para o futuro do nosso país. Nossas crianças, estão virando mercadoria e objetos para se descontar as frustrações existentes na vida dessas criaturas que são denominados pais. Criaturas sim, pois tenho como falta de respeito denominar seres capazes de tais atrocidades desta forma. Forma esta, que quando intitulados PAIS, significa sentimentos bons, segurança e refúgio.
    E mesmo que ainda tenhamos estes monstros em meio a nossa sociedade, temos também pessoas, anjos de coração puro, capazes de estender a mão e abraçar o mundo.

    Att,

    Sheila

  5. 74 antonio carlos ferreira goncalves 06/03/2014 0:57

    e a lei da palmkada por que não sai do papel

  6. 73 antonio carlos ferreira goncalves 06/03/2014 0:54

    e a lei da palmada por que não sai do papel

  7. 72 silvia barnabé 05/03/2014 22:43

    Sou psicóloga e tenho passado a minha vida ( já sou do grupo dos idosos) ouvindo as dores dos seres humanos…este é meu ofício e fico chocada com a brutalidade do preconceito que oprime as minorias…. inclusive à que me enquadro hoje, a dos idosos. Brutalidade! É brutal o sofrimento das pessoas! Aqueles que praticam o sofrimento dessa natureza a outros seres, eu não os considero humanos…. os animais com certeza são seres superiores…..

  8. 71 Gabriela Louzada 05/03/2014 21:58

    Me enoja o preconceito, também me envergonha.
    É absurdo que ainda há quem queira justificá-lo. Só serve de embasamento para a violência.
    Realmente, “Isso precisa mudar. Urgente!”

  9. 70 Ricardo Silva 05/03/2014 19:58

    As igrejas cristãs deveriam rever também sobre a homofobia, estes pastores tentam se promover através da homofobia pregando cura gay e etc, tenho um filho gay foi muito difícil pra mim e para ele sei que foi muito pior, hoje vivemos em harmonia e vejo como ele é feliz por ter sido aceito em casa, senhores pais e mães tentem exergar com naturalidade que a vida vai se tornar melhor para todos, este padres e pastores homofobicos não sabem o que dizem.

  10. 69 Adriano Machado 05/03/2014 16:29

    Cara, por favor, te candidata a presidente!

  11. 68 Roberta 05/03/2014 15:21

    Deputado, acredita que como, nos cidadãos comuns sem nenhum tipo de imunidade, podemos contribuir para essa transformação. Não na sociedade, pois uma nova sociedade só é possível com um homem homem, mas para ajudar a mudar a mentalidade de pessoas que se valem do discurso do ódio para imporem suas posições.

  12. 67 VALDECI 23/02/2014 14:43

    NÃO CONCORDO COM ESTE TIPO DE VIOLENCIA.

    POREM ,NO BRASIL MUITA COISA TEM QUE SER MUDADA,INCLUSIVE A DISCRIMINAÇÃO CONTRA NEGROS,POBRES,E TAMBÉM NORDESTINOS.

    A VIOLENCIA NUNCA VAI MUDAR CONTRA QUEM FOR,SEJA GAY OU NÃO.

    ACREDITO QUE SE MESMO CRIAREM UMA LEI CONTRA ESTAS COISAS ,TD VAI CONTINUAR PQ AQUI NO BRASIL AS LEIS NÃO FUNCIONAM,UM EXEMPLO:

    A LEI MARIA DA PENHA QUE ESTA EM VIGOR MAIS NÃO FUNCIONA DIREITO.

    FALEI…..

  13. 66 Celiana Maria dos Santos 22/02/2014 15:41

    Estamos e estaremos sempre atentas(os) para denunciar abusos dessa natureza, tão hediondos quanto insuportáveis. Até que um dia não reste sinal dos tempos de agora, não importa quanto tenhamos que falar.

  14. 65 maria amelia 22/02/2014 15:26

    Muita crueldade e insanidade desse pai e de muitos outros Infelizmente ainda tem muito preconceito.

  15. 64 Fabiano 22/02/2014 11:53

    Nós não precisamos de mais leis. Não precisamos de leis que separem os homens por classe, cor, credo e etc. Precisamos é de educação. Educar para que as futuras gerações saibam respeitar as diferenças.

  16. 63 Reinaldo Batista 22/02/2014 2:09

    Nossa…isso é um absurdo!!

  17. 62 Raquel 21/02/2014 23:25

    Jean Wyllys pra presidente <3

  18. 61 Eliana Cecília 21/02/2014 17:29

    É doloroso ver as violências que ainda acontecem em nome de um preconceito infinito!!! Até quando alguns seres humanos se investirão de poderes para tirar a vida de outros seres humanos, em defesa do que consideram CORRIGIR o que está ERRADO, em total desrespeito às diferenças e individualidades.
    Vamos continuar trabalhando e acreditando na possibilidade de mudar esta situação.

  19. 60 Sofia 21/02/2014 13:14

    É patético o ponto que a intolerância pode levar…

  20. 59 Marcos 21/02/2014 12:48

    Essa morte é para o Bolsonaro repensar no que fala. Isso é se ele consegue pensar.

  21. 58 anonimo.com 21/02/2014 12:29

    Jean,

    sobre esse crime horrendo eu gostaria de colocar que é algo que sofremos todos os dias. Como você falou, o preconceito é algo que nos atinge como uma faca nas costas, isso para nós que somos adultos. Para uma criança é algo brutal e atormentador.
    É na infancia que formamos nossa opnião e visão de mundo. Lembro do quanto foi dificil pra mim crecer ouvindo os apelidos e com as agrressoes dos colegas. Graças a Deus que meu pai nunca foi de me recriminar… mas os demais familiares… bem, desses eu não tenho boas lembranças.
    Me pergunto quantas crianças serão agreedidas ou até mortas em nome da “moral e bons costumes” dessa sociedade hipócrita.

    anonimo.com, sou blogueiro e colunista do PauPraQualquerObra.

  22. 57 Helen Martins 21/02/2014 11:21

    REVOLTANTE
    Olha até onde chega a IGNÔRANCIA, das pessoas pessoas deste país,tudo isso é culpa da falta de educação e leis mais severas e bem aplicadas…esse monstro tem que apodrecer na cadeia.
    Fora que tbm é culpa de imbecis homofobicos , como Bolsonaro,Feliciano e Malafaias, que fazem discursos de ódio contra a comunidade GLBT bando de vermes inúteis!

  23. 56 Renata Andrade De Vasconcelos 21/02/2014 10:49

    É realmente muito triste e ainda absurdo que casos como este aina ocorram, sei bem o que é passar por este tipo de violência na minha transição infância/adolescência eu passei por isso em casa e na escola. Sorte minha é que as agressões físicas não partiam de dentro na família, embora a psicológica sim, mas pessoas como eu e o próprio deputado infelizmente, podem dizer que tiveram sorte de não terem sido assassinadas por um motivo tão torpe!

  24. 55 Gina Girão 21/02/2014 9:04

    Tenho 4 filhos. Há tempos conversávamos eu e outras mães sobre o futuro de nossas crianças (‘Gostaria que o Dudu fosse médico’, entre outros sonhos projetados) e a maioria sentiu-se incomodada quando eu disse haver apenas duas coisas que não aceitaria que meus filhos se tornassem: pessoas desonestas ou assassinas de aluguel. ‘E se algum for gay?’ (pois é, tem gente que insiste!). Respondi: que não seja desonesto nem assassino de aluguel. É simples assim. Minhas crias crescem a cada dia pessoas respeitosas, responsáveis e amáveis. Se são gays? Ora, sei lá! Sei que são felizes e boas. Mas a criança que morreu não pode mais ser coisa alguma, e isso é o maior prejuízo que a sociedade pode auferir.

  25. 54 Wendell Tolentino 21/02/2014 1:56

    Jean Wyllys,

    Parabéns pelo texto e blog, acompanho sua página no facebook e admiro o seu trabalho.
    Me identifiquei muito com o texto de hoje. Quando criança, sofri muita humilhação e bullying apenas por existir e ser o que sou. Tenho 40 anos e até hoje carrego comigo cicatrizes de uma infância vítima de homofobia e violência psicológica. Fico feliz e orgulhoso por você ter superado as injúrias e humilhações quando criança e se transformado num homem inteligente, sensato e íntegro, um Deputado Federal que me representa e luta pelos direitos LGBT.

  26. 53 Claudette Pessôa de Albuquerque 21/02/2014 1:12

    Pior do que os políticos,são os religiosos.Como podem ter tanto ódio e falar em nome de Deus.E eles são os piores.Querem mudar as pessoas à força.Fanatismo só cria monstros.

  27. 52 Breno Oliveira 21/02/2014 0:47

    O Brasil tem um aspecto curioso. Quando a gente pensa que as coisas estão mudando, elas simplesmente voltam do seu começo. Tenho orgulho de ser brasileiro, mas não orgulho das pessoas ignorantes que aqui residem.

  28. 51 Daniele Zoll Araujo 21/02/2014 0:02

    Que realidade triste!
    Sou professora de inglês e já presenciei o uso de apelidos jocosos em sala de aula, mas repreendi imediatamente os autores.
    O mais triste é que isso também acontecem entre crianças pequenas. Termos como “viado” infelizmente se popularizam tanto que são usados pelos pequenos que nem mesmo entendem o que estão falando, enquanto o alvo da agressão também não entende do que é xingado.
    Creio que mais do que repressão precisamos de uma educação mais humana baseada no respeito e amor ao próximo.
    Para que haja esperança de uma futura geração mais feliz!

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