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quinta-feira, 29 de agosto de 2013 LGBTs | 14:32

Prefácio que escrevi para o livro “Muito Prazer – Vozes da Diversidade”, de Karla Lima

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Hoje serão lançados os livros “Muito Prazer – Vozes da Diversidade”, de Karla Lima, e Armário sem Portas, uma continuação da biografia do casal Karla e Pya Pêra. A pedido delas, escrevi o prefácio, que reproduzo abaixo.

Sempre me dei melhor com mulheres, sejam elas hétero ou homossexuais. Amo minhas amigas lésbicas, gays, sapatas, bolachas, entendidas… Respeito muito aquelas que assumiram seus desejos e, orgulhosas de amar outra mulher, conseguiram cavar espaço nos universos patriarcais, machistas, sexistas, misóginos e lesbofóbicos de suas profissões e vidas. Foi com uma delas que, ainda adolescente, começando a aprender a dor e a delícia de ser quem eu sou, que travei, num pequeno apartamento em Salvador com vista para o mar e ao som de Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Gal, Daniela e Elis, entre tantas outras mulheres da MPB pelas quais sou apaixonado, que travei diálogos existenciais que muito contribuíram para moldar o homem que hoje sou.

Foi com outra amiga, também lésbica, companheira de trabalho, que, instigados por uma matéria da Bravo! cujo título fazia uma pergunta que pode se estender para vários outros espaços além do da arte: “As mulheres ainda são minoria?”, recentemente conversava sobre a representação das lésbicas na mídia, na literatura e nas artes em geral. A representação desse segmento é quase sempre caricata (as caminhoneiras ou as lipstick lesbians, lindas e loiras, que povoam a fantasia – mais clichê impossível – dos homens heterossexuais), assim como é a representação dos gays masculinos. Como sou adepto de Jung, não vou dizer que foi coincidência, e sim sincronicidade ter recebido, pouco tempo depois, o convite da Karla Lima para escrever o prefácio de seu livro, que conta a história de mulheres cuja vida e carreiras de sucesso contribuem positivamente para a visibilidade lésbica, mostrando que, apesar de minoria, elas existem, sim. Não poderia deixar de participar deste trabalho, que é um desdobramento e parte dos históricos esforços literários para assegurar uma representação – tão somente no sentido de visibilidade – da mulher homossexual na cultura, mas, antes, nos próprios movimentos feminista e LGBT.

Nós, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, não temos muitas referências positivas de nós mesmos ao crescer e desenvolver a nossa subjetividade. A sociedade e aqueles que ditam as regras dela, ou seja, os homens brancos e heterossexuais, habituaram-se a colocar-nos num lugar subalterno, como colocaram as mulheres durante muito tempo, como colocaram os negros. Para eles é muito difícil ver uma lésbica, por exemplo, sair de um lugar subalterno em que foi colocada para ganhar voz, se tornar sujeito e não objeto de discurso. E assim nós também o fizemos. Durante muito tempo, nós, LGBTs, por não nos vermos representados em outros papéis que não o daqueles clichês na novela ou nas páginas policiais do jornal local, também achávamos que não poderíamos ocupar espaços de poder, como um cargo no Parlamento Brasileiro, na Academia de Letras, em um lugar de destaque na música, no cinema, na teledramaturgia, dirigindo hospitais e salvando vidas ou até mesmo constituindo famílias e desfrutando dos direitos que nos são garantidos pela Constituição Brasileira e pelos tratados internacionais dos quais o nosso país é signatário.

Recebi, por e-mail, trechos do livro-reportagem de Karla e ao começar a conhecer intimidades de Laura, Valéria, Raquel, Ana Lúcia, e demais personagens que ela escolheu para representar o universo lésbico, lembrei-me de Lygia Fagundes Telles, em As Meninas: “Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos”. Essas mulheres estavam (estão) revertendo a ordem, que, na realidade, há muito tempo já não é mais a ordem mundial. Dar visibilidade ao fato de que gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais podem, sim, ser profissionais bem-sucedidos, respeitados e admirados, é fundamental para rompermos o status quo, o mundo que faz da heterossexualidade algo melhor e mais são do que a homossexualidade.

No momento em que o fundamentalismo religioso busca invadir nossas vidas, nossa dignidade, nossa existência, não só impedindo avanços que garantam o direito da comunidade à qual pertencemos, a LGBT, mas buscando retroceder naqueles que já nos foram garantidos, dar visibilidade e representação a personagens como: Luciana e Thaís, que abrem sua intimidade na dolorosa – mas, felizmente, vitoriosa – jornada em busca da maternidade, dando cara e cor aos novos arranjos familiares; resgatar a maravilhosa atriz Cristina Prochaska e seu desbravador papel como Laís, que formou, em 1988, o primeiro casal lésbico da teledramaturgia nacional ao lado de Lala Deheinzelin; e Edith Modesto, que ajudou milhares de mães e pais a compreenderem e abraçarem seus filhos e filhas homossexuais através do trabalho com o GPH, se faz mais do que necessário. É uma forma de celebrar aquilo que nós, LGBTs, já sabemos, mas que a nossa sociedade aos poucos está começando a aceitar: nós somos muitos e muitas. E não somos fracos.

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5 comentários | Comentar

  1. 55 vitoria 14/01/2015 8:01

    Amei e vou comprar

    Sou autoria do livro Sou Lesbica, Sim

    Resenha

    Anne Adams uma adolescente que enfrentava a sociedade de modo em geral, para viver seus desejos e lutava contra a homofobia. Uma jovem atrevida e determinada, que não aceitava as leis ditadas. Vivia vários relacionamentos amorosos pelo mundo. Alguns relacionamentos eram marcados por traições e fatalidades, até se envolver com a bela Melinda, namorada do primo Brady Capplly. A igreja a abominava e ela respondia com os escândalos de pedofilia cometidos pelos os que representam Deus.

  2. 54 Domingos 27/11/2013 11:32

    Olá, Sales. Li seu comentário e fiquei imaginando quão difícil é trabalhar em ambientes tão heteronormatizado e machistas como o de uma plataforma de petróleo ou na construção civil. Trabalho num ambiente educacional, mas penso que, em um lugar ou noutro, o fato de nos aceitarmos e nos respeitarmos considerando a nossa sexualidade seja o elemento fundamental nesse tipo de situação, pois, independente do espaço social, uma postura orgulhosa e altiva com nós mesmos faz todo o diferencial diante do machismo e da indiferença que alimenta o preconceito. abç

  3. 53 sales 18/09/2013 17:46

    Gostei muito do texto, muita clareza, tenhos filhos e netos e trabalho num ambiente petrobras(plataforma) muito machista.

  4. 52 Giza Vital 29/08/2013 23:04

    Eu gostei muito deste teu texto e diria um adendo: “e não somos alienadas e nem alienadas, sabemos que somos – gente: pessoas iguais a qualquer uma.” Obrigada por partilhar esta experiência conosco. Abraços, giza

  5. 51 Leandro Lima 29/08/2013 15:21

    Muito bom o texto, adorei.
    Com certeza irei atras do livro, um grande passo e uma importante conguista na luta diária contra o preconceito crescente e mascarado.

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