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segunda-feira, 15 de julho de 2013 direitos humanos, homofobia, LGBTs | 13:56

Línguas sujas de sangue

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Mais duas agressões violentas sofridas por jovens homossexuais por conta de sua orientação sexual – e num intervalo curto entre ambas: no último dia 28 de junho, o assessor parlamentar Gilvan de Melo, 23 anos, foi apedrejado na cabeça no bairro Morumbi, em Uberlândia (MG); e apenas uma semana e um dia depois, em 6 de julho, o jornalista do iG Murilo Aguiar, 25 anos, foi espancado por um funcionário da boate Yatch, em São Paulo (o agressor, contratado por uma empresa terceirizada para trabalhar na casa, cujo público é majoritariamente LGBT, gritava para Murilo, segundo o mesmo, que ele deveria “ler mais a Bíblia” e que “todos os gays têm Aids”).

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Em ambos o casos, o preconceito anti-homossexual e o discurso de ódio que o expressa propagados por líderes religiosos fundamentalistas aparecem como pano de fundo. Claro que essa violência dura foi praticada por pessoas adultas capazes e responsáveis por seus atos, mas não foi acaso que as agressões tenham vindo acompanhadas por referências à Bíblia.

A culpa não é da Bíblia, óbvio, mas de fundamentalistas (a maioria tão somente oportunistas sem fé, mas hábeis na exploração comercial e empresarial da fé; alguns cumprindo mandatos em câmaras de vereadores, assembléias legislativas e aqui no Congresso Nacional) que distorcem seu conteúdo para usá-lo principalmente contra a população LGBT, ateus e contra as religiões brasileiras de matriz africana (o Candomblé e a Umbanda).

O vereador Mário Milken (PDT-MG) – de quem Gilvan é assessor – está percorrendo Uberlândia com uma camisa que diz “Deus não é homofóbico”. E ele tem razão. Os vendilhões do templo falam em nome de Deus, mas claro está que o Deus da maioria dos cristãos – ou, pelo menos, o Deus percebido pela maioria cristã – não autoriza nem aprova violência simbólica (injúria, calúnia e difamação) e/ou real (lesões corporais, tentativas de homicídio e assassinatos) contra seres humanos (ainda que estes tenham relações afetivas com pessoas do mesmo sexo ou creiam em outro deus ou não creiam em deus algum). Não foi o Deus percebido e reverenciado pela maioria dos cristãos quem pediu que Gilvan fosse apedrejado ou que Murilo fosse espancado!

“Este aumento da homofobia em Uberlândia e no país [como um todo] tem relação com a defesa da ‘cura gay’ na Câmara. O discurso de intolerância dos fundamentalistas acaba influenciando a violência contra homossexuais e outras minorias”, disse à imprensa local o vereador Milken. E, outra vez, ele tem razão! Não há ação sem idéia que a anteceda. Não há insulto ou violência física contra homossexuais e mães-de-santo sem a crença prévia de que estes não são “criaturas divinas, mas demoníacas”; “não fazem parte do povo eleito e, por isso, devem ser condenados ao inferno se não se converterem”; “não integra a comunidade de ungidos” – crença incutida na mentalidade de gente desesperada ao ponto de não conseguir raciocinar com bom senso em relação a essa intolerância religiosa.

As línguas dos líderes religiosos fundamentalistas – e eu não preciso citá-los porque eles estão aí, visíveis nas mídias – as línguas deles estão sujas do sangue das vítimas da intolerância religiosa!

E antes que apareça aquela gente de má-fé sempre disposta a comparar o número de homicídios motivados por homofobia com o número de homicídios em geral para desqualificar a denúncia da violência homofóbica, eu lhe explico que se as taxas de homicídios em geral expressam uma violência à qual estamos todos expostos, apenas as minorias difamadas (LGBTs, negros, povo de santo, judeus, ateus e indígenas) estão expostas aos crimes motivados por preconceito!

Estamos às vésperas de pôr em votação, na Comissão de Direitos Humanos do Senado, o projeto de lei que enfrenta (não só com com o direito penal nem com o endurecimento deste) essas discriminações motivadas por preconceitos de raça, etnia, idade, religião, procedência, orientação sexual, identidade de gênero e em relação a pessoas com deficiências – o PLC122! Essa discussão se faz, portanto, necessária para que se perceba a importância de ele ser aprovado.

Nos tempos em que eu atuava nas pastorais católicas da Juventude Estudantil e da Juventude do Meio Popular, nós costumávamos entoar um cântico que dizia: “Toda Bíblia é comunicação de um Deus-amor; de um Deus-irmão. É feliz quem crê na revelação; quem tem Deus no coração”. Orgulho-me de ter herdado, dos meus tempos de católico, a crença nesse “Deus-amor, Deus-irmão”. E me pergunto se a razão para líderes fundamentalistas “cristãos” não professarem esse “Deus-amor, Deus-irmão” não é tão somente a possibilidade de que esse Deus diminua seus lucros com a exploração comercial da ignorância…

Conheça o caso de Gilvan:

Página em apoio à mãe de Gilvan: https://www.facebook.com/AjudeDonaEva

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7 comentários | Comentar

  1. 57 Valmor Silva 21/07/2013 19:11

    Belas palavras, Jean. Mais do que justa a sua batalha contra estes crimes covardes. A Homofobia existe,sim, e as pessoas se escondem atras do argumento de que tem direito a ser contra os homossexuais. Mas incitar o odio e a intolerancia, nao é ter opiniao pessoal, mas sim inflamar mais ainda o preconceito ao que é diferente.

  2. 56 JOAO 21/07/2013 9:34

    Gustavo, nunca vi no Brasil um cristão ser agredido por andar na rua com uma bíblia embaixo do braço, mas cansei de ver pessoas insultando e agredindo gays de várias formas, simplesmente por um beijo ou um abraço. Homofobia tem cura!

  3. 55 Roberto 18/07/2013 13:29

    FICAR DISCUTINDO QUEM MEREÇE MAIS OU MENOS SER AGREDIDO OU MORTO POR INTOLERÂNCIAS É MUITA FALTA DE DISCERNIMENTO E EGOÍSMO, NA VERDADE NINGUEM TEM QUE SER AGREDIDO OU MORTO PORQUE NAO TEM A MESMA RELIGIÃO OU ORIENTAÇÃO SEXUAL QUE O OUTRO, A LUTA TEM QUE SER DE TODOS POR DIREITOS E IGUALDADE.

  4. Jean Wyllys 16/07/2013 21:33

    São dois tipos de crimes de ódio. Curiosamente, você, que está sujeito a ser vítima deste crime também prefere acreditar que o outro grupo não sofre o risco, ou que reclama sem razão. Você faz ideia de quantos crimes homofóbicos ocorrem em todo o mundo, muitos deles nos mesmos países e situações em que se matam cristãos? Seu problema não é único no mundo. (Kleber/ASCOM)

  5. 54 gustavo 16/07/2013 14:24

    Belas falácias Jean! No mundo a cada 5 minutos um cristão é assassinado por causa da sua fé. E se em duas semanas 2 homossexuais são agredidos é um absurdo?

  6. 53 Re 16/07/2013 13:44

    E no Brasil não existe HOMOFOBIA. Sei.

    Ser cristão (e sou) não nos dá o direito de obrigar, oprimir, enfiar goela abaixo a minha fé, sobre as pessoas. O mundo é diverso, e sabe-se disso desde que o mundo é mundo.

  7. 52 Lucas Pio 15/07/2013 20:56

    Parabens! Obrigado por falar por nos, muitas vezes silenciados!

  8. 51 Rita Morales 15/07/2013 16:04

    A Biblia fala sobre a compaixão de um Samaritano que não passou a diante sem socorrer um moribundo que fora covardemente espancado.Naquele tempo muitos seguiram em suas indiferenças, se assemelhando aos de hoje que; insulflam o que uma organização bem sacana e ardilosa arquiteta, como se nada quizessem com isso, como se assoviasse uma suave canção ao vento portador em salva guardar sob uma proteção ultrajada ; acidas tempestades de ilusoria purificação, enquanto viceja em terrenos humanos sua matilha de “gangas raivosas e mansas ao mesmo tempo” , a gritarem em profusão: – “Eias aqui o meu pescoço que vus dou com emoção”! Não por maldade ou fanatismo, mas por umas especie de inocencia que os fazem não escutar o que um dia disse o grande Mestre em Verdade:- ” Amai o Proximo como a ti Mesmo”.

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