Desistir jamais, tentar sempre. Direitos humanos são para todas e todos!
Um dia especial, sem dúvida. Nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu. Está tudo diferente, apesar do que permanece… Dia 10 de dezembro. Nesta data, em 1962, nasceu Cássia Eller. Quando ouvi a voz dessa mulher pela primeira vez, eu era aluno da Fundação José Carvalho. Na única televisão que havia neste colégio interno – por isso mesmo, com uma programação disputadíssima pelo alunos e alunas – assisti a um show de Cássia Eller na extinta Rede Manchete… E minha vida nunca mais foi a mesma! Implorei a minha professora de Língua e Literatura, Nanci Vieira, que comprasse o disco de Cássia para mim em Salvador (o colégio interno ficava em Pojuca, interior da Bahia). “Quem é essa que se faz passar por cantora?”, perguntou-me Nanci na hora, para me provocar. Mas realizou meu desejo. Eu amei aquele vinil! E, como a personagem de Clarice Lispector em “Felicidade clandestina”, eu me esquecia dele de propósito só para experimentar, depois, a felicidade de me lembrar que o tinha guardado…
Anos depois, já jornalista, tive a honra de entrevistar Cássia Eller em cima do trio de Margareth Menezes durante um Carnaval na Bahia. Cássia usava um cabelo pintado de verde. Entre os muitos jornalistas que a disputavam, ele me destacou e me pediu que aguardasse, pois falaria comigo depois e com calma. Por que? Até hoje não sei direito. Mas suspeito que nossa troca de olhares disse muito de um para o outro. Conversamos por quase uma hora. E ela, que havia sido tímida com os outros jornalistas, soltou-se bastante, riu e até fez considerações sobre algumas de suas colegas de geração, como, por exemplo, confessar a gratidão a Marisa Monte por sugestões que a levaram a reorientar sua (de Cássia) carreira e dizer, com humor, que gostava de Adriana Calcanhotto, mas a preferia loura e menos sofisticada como no início da carreira. Pensei comigo: “Essa mulher poderia ser minha amiga”.
Alguns anos mais tarde, quando soube da notícia de sua morte, chorei como se tivesse perdido a amiga que eu teria um dia, mas que já era amiga de outra forma. Chorei profundamente. E só me consolo em relação a essa perda por que tenho sua música. A arte de Cássia Eller me ajuda a sentir ser humano e a viver ser urbano. Hoje sua música começou meu dia.
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Dez de dezembro é também o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Ainda que eu comemore essa data, eu lamento ainda não termos superado a necessidade de uma data especial para fazermos existirem os direitos humanos (principalmente daqueles e daquelas que estão excluídos da cidadania plena em função de sua etnia, procedência, idade, classe social, identidade de gênero, orientação sexual, alguma deficiência física ou cognitiva, religião ou do fato de não serem religiosos). Estou ciente, contudo, de que a noção de “humanidade” não está fechada nem concluída – e não há “direito humano” sem “humanidade” prévia! Ao longo de nossa história, diferentes coletivos e indivíduos foram excluídos da comunidade de direitos, escravizados, difamados e/ou exterminados por não serem considerados humanos ou por terem sido desumanizados. Podemos mesmo dizer que a nossa história é a a história de extensão da comunidade considerada “humana” – e hoje já há quem queira estendê-la a outras espécies animais.
Sendo assim, é fundamental um dia internacional para comemorarmos os diretos humanos, haja visto que a noção de “direitos humanos” que trabalhamos hoje aparece pela primeira vez na Declaração da Independência dos EUA (1776); depois na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução Francesa (1789); e, por fim, na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) – ou seja, em momentos em que muitos estavam ou foram excluídos da comunidade de direitos por causa de suas posições de sujeito, sobretudo no caso dos judeus, ciganos, homossexuais e comunistas exterminados pela empresa nazista porque eram o que eram.
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O dia de hoje se faz importante também porque aqui na Câmara dos Deputados, templo em que os direitos humanos reconhecidos pela Constituição Federal – portanto, direitos fundamentais – deveriam ser protegidos e promovidos, vários deputados fizeram hoje discursos em favor de “direitos humanos apenas para humanos direitos” e desqualificaram as mulheres e homens que se dedicam a defender os direitos humanos das minorias e dos delinqüentes.
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Neste dia, após ouvir Cássia Eller cantando “Por enquanto”, dei uma lida nos jornais e blogs e tive o desprazer de ver, nos comentários do post de Ricardo Noblat sobre a ofensa do deputado fascista à ex-ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário, dezenas de comentários em defesa do fascista, que disse ontem não estuprar a deputada por ela não merecer. Há, nesses comentários, inclusive mulheres chamando Rosário de “vadia” e “vagabunda” e “justificando” a violência verbal perpetrada pelo deputado fascista contra ela com o fato de Rosário ser petista e “comunista”. Red is the new black! Ou a burrice dessa gente virou um aleijão.
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Diante disso, a primeira impressão é a de que mudaram as estações, mas nada mudou. Todavia não é verdade. Ainda que nossas conquistas em termos de extensão da comunidade humana não sejam pra sempre, uma vez que “o ‘pra sempre’ sempre acaba” (daí a necessidade de nos mantermos atentos!), ainda assim, alguma coisa aconteceu: está tudo diferente. E se depender de mim e de tantos outros, nada será como antes no que diz respeito aos direitos humanos de minorias, da mesma maneira que a MPB nunca mais foi a mesma depois de Cássia Eller. Desistir jamais, tentar sempre. Direitos humanos são para todas e todos!








